Azulejo artesanal na decoração: como usar e por que virou tendência
Mesmo produzidos em escala, esses revestimentos celebram a imperfeição, o processo e a identidade do feito à mão
Em um momento em que o design de interiores busca mais identidade, os azulejos estampados com aparência artesanal voltam a ganhar destaque. Mesmo produzidos industrialmente, esses revestimentos evocam o feito à mão, resgatando imperfeições, texturas e variações que remetem à tradição e ao gesto humano.
Apesar do azulejo ter seu surgimento como linguagem religiosa no mundo islâmico, por volta do século IX – batizado de al-zuleij, termo árabe que significa “pequena pedra polida” –, foi em Portugal, entre os séculos XVI e XVIII, que o revestimento se popularizou e se consolidou como elemento arquitetônico.
Nesse mesmo período, o azulejo chega ao Brasil, onde passa por um processo de tropicalização. Aqui, ele deixa de ser apenas ornamental e assume funções práticas e climáticas: proteção contra umidade e maresia, conforto térmico em regiões quentes, maior durabilidade das fachadas e facilidade de limpeza.
Na imagem acima, o painel “Raízes do Cerrado”, assinado por Wilson Romão, traz azulejos cerâmicos esmaltados, com serigrafia manual aplicada peça a peça e queima em forno entre 800 e 900 °C, garantindo resistência e durabilidade do revestimento.
A valorização do feito à mão
Com as revoluções industriais e o avanço da tecnologia, a produção manual deu lugar à fabricação em escala, resultando em padrões cada vez mais regulares e tecnicamente “perfeitos”, como os que dominam o mercado até hoje.
No entanto, o comportamento de consumo contemporâneo parece caminhar na direção oposta. Em meio à padronização excessiva, cresce o interesse por objetos que carregam história, processo e singularidade.
É nesse contexto que marcas se aproximam de arquitetos, designers e artistas para ressignificar o azulejo industrial, incorporando características da produção artesanal: irregularidades sutis, variações de cor e esmalte, textura visível e imperfeições assumidas. A indústria passa, assim, a tentar reproduzir o erro humano como valor estético.
“Com uma oferta tão ampla de revestimentos tecnicamente ‘perfeitos’, cresce também o desejo por peças que tragam história. O azulejo de aparência artesanal volta justamente para ocupar esse lugar. Para arquitetos e designers de interiores, inserir um azulejo artesanal – ou com estética manual – é uma forma de imprimir singularidade no projeto”, explica Calu Fontes, artista plástica, arquiteta e ceramista brasileira.
Para Wilson Romão, arquiteto e urbanista brasiliense especializado em design e azulejaria, a imperfeição faz parte da linguagem.
“No fazer manual, a imperfeição não é um erro, é uma assinatura. O gesto revela quem desenhou, em que ritmo e com qual intenção. No meu trabalho, o desenho autoral é justamente o que transforma o azulejo em linguagem, quase como um campo gráfico aplicado à arquitetura”, afirma.
Artesanal e industrial: o que realmente muda?
A principal diferença entre o azulejo artesanal e o industrial está na concepção da ideia e no processo de criação.
“No azulejo artesanal, o traço nasce da mão, do gesto humano, e não de uma repetição mecânica. Mesmo quando há reprodução, ela preserva variações sutis, respira. Já a estampa industrial tende a ser absolutamente regular, pensada para não denunciar o processo”, exemplifica Wilson.
A escolha, portanto, passa pela linguagem desejada no projeto. Enquanto alguns preferem padrões mais uniformes e discretos, outros usam o azulejo como elemento de destaque e personalidade.
“Acredito que o artesanal sempre terá seu lugar: um espaço de afeto, acolhimento e história. São dimensões que não se substituem – convivem”, resume Calu.
Onde aplicar o azulejo estampado?
As possibilidades de aplicação são inúmeras e vão muito além das áreas molhadas. O azulejo pode aparecer no frontão da pia da cozinha, em painéis decorativos, em lavabos ou até como elemento artístico em áreas sociais.
Na foto acima, a mesa “Iara”, da coleção DNA, assinada por Wilson Romão, tem azulejos cerâmicos esmaltados, com serigrafia manual aplicada peça a peça e queima em forno entre 800 e 900 °.
“Muitas vezes, os azulejos surgem como protagonistas em paredes específicas ou cozinhas; em outros casos, entram como pausas visuais, quase como um acento gráfico dentro do projeto”, observa Wilson.
“Já fiz um painel de azulejos no teto. Você só o percebe se olhar para cima. Gosto de ver a criatividade de designers e arquitetos na aplicação das peças”, conta Calu.
Embora cozinhas, banheiros e lavabos ainda sejam os espaços mais comuns, cresce o interesse em levar a azulejaria para salas, halls e até dormitórios, sempre com um olhar mais curatorial, como se o revestimento fosse uma obra integrada à arquitetura. Há também peças de design e de arte criadas a partir do azulejo, extrapolando sua função original.
Como equilibrar o uso do azulejo na decoração
Para evitar excesso visual, o equilíbrio é fundamental. “Uma boa estratégia é mesclar azulejos estampados com peças lisas, usando a mesma cor de fundo. Isso cria respiro entre as estampas e deixa o conjunto mais leve”, sugere Calu.
Wilson concorda: “O principal cuidado é pensar o entorno, os vazios e os materiais que dialogam com o azulejo. Nem tudo precisa disputar atenção ao mesmo tempo”.
Tendência passageira ou caminho sem volta?
Segundo os profissionais, o interesse pelo azulejo de estética artesanal reflete um movimento mais amplo do consumo contemporâneo, voltado a objetos que carregam processo, memória e identidade.
“Vejo esse retorno como uma reação ao excesso de padronização. Após um período marcado por superfícies neutras e industrializadas, as pessoas passaram a buscar mais personalidade e narrativa nos espaços”, analisa Wilson. “O azulejo artesanal carrega tempo, intenção e expressão cultural — ele vai além da função de revestimento.”
Calu afirma que, quando uma peça é feita à mão, existe um tempo que começa na pesquisa, passa pela criação e pela aplicação, até chegar ao resultado final.
“No ateliê, alguns painéis passam por duas ou até três queimas. Esse tempo investido é percebido e valorizado pelo cliente, não só pelo objeto, mas pela história e pelo cuidado que ele carrega”, finaliza Calu.
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