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O luto depois do amor: uma reflexão sobre lembrar, perder e seguir

A história de dois corpos, muitos nomes e uma ausência impossível de arquivar

Por Liana Ferraz
19 fev 2026, 11h17 •
Homem e mulher deitados no chão ao lado de um disco de vinil, rindo juntos em ambiente com luz dourada, simbolizando amor, nostalgia, música e lembranças de um romance que permanece na memória.
Uma carta para não deixar você morrer nas memórias (Gerada por IA/Freepik)
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  • A gente não gostava de fazer nada que não fosse cobertor. Mas um dia você resolveu trincar os olhos numa fumaça. e resolveu dançar pra mim de calça jeans aberta sem camisa. 

    de alguma forma acho que foi a única vez que vi você se exibindo tanto. Com os olhos trincados e a boca sem saber fechar decidiu vir pra cima de mim sem medo de não ser bem recebido.

    e foi. bem. recebido.

    A viagem em que você virou personagem

    No meio dos olhos e da fumaça 

    te chamei de Leonardo. você 

    se assustou e eu gargalhei também. Leonardo DiCaprio, meu amor.

    A partir daí era nossa pequena viagem chamar de outro alguém nossos corpos. eu te chamava 

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    de Leonardo, Brad, Kurt, Julian, Antony e todos aqueles que me fizeram descobrir que existe corpo fora da cabeça e que dá choque sem a gente mandar. Você me chamava de Angelina, de Catherine, de Uma. A gente inventou uma multidão.

    Quando quase coube alguém a mais

    Na rua, decidimos que acharíamos alguém e que levaríamos esse alguém para nossos vermelhos e danças de nomes tantos. Eu topava que fosse mulher. Você topava que fosse homem.

    Sentávamos num café em busca de alguém sem nome pra gente chamar do que quisesse. Engraçado como ninguém parecia bom o suficiente pra gente. Engraçado como beber no fim da tarde, deixar um cigarro arder os olhos e esfregar o desejo 

    na quina da mesa de bar faz a gente se sentir invencível e imortal.

    Vimos uma menina uma vez. 

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    Eu fui lá. Se ela gostasse de mim, seria nossa. Quando percebi, 

    estava me apaixonando por ela. 

    E pensando que veríamos filmes e que seria preciso aumentar o cobertor. 

    Ou expulsar você dele. Deixei pra lá.

    Casal sorrindo e segurando as mãos em um café iluminado, com clima íntimo e descontraído, representando conexão, cumplicidade e as memórias afetivas de um relacionamento intenso.
    A busca por uma terceira pessoa (Drazen Zigic/Freepik)
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    Nosso retrato ficou na memória

    Comecei a gostar de chegar na nossa casa e brincar com você de dar nota para nossos candidatos. E de rolar no chão de rir e colocar um vinil 

    do Milton e rolar no chão de chorar. Me lembro da gente passar horas 

    e horas sem acender a luz e deixando a janela compor nosso âmbar, nossa sépia. Pensar que hoje nem sei mais onde está aquela foto.

    Seus olhos trincados, Léo, Angelina, Kurt, Milton e o cobertor devem estar guardados bem amarelados esperando que eu os olhe pra colocar de novo dançando em 

    mim esse retrato da gente que fica rodopiando no espaço da memória.

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    O luto como uma sala cheia de caixas

    Esquecer e guardar você é uma multidão em silêncio, muda, diante de um show que nunca começa.

    Esquecer e guardar e perder você 

    é uma procissão sem reza, uma mesa de aniversário sem que 

    nunca comece o parabéns.

    Esquecer e perder e enterrar você e fazer fingir em mim que você nunca existiu é morar numa casa cheia de coisas encaixotadas e perceber, de repente, que o que está nas caixas são bebês que precisam ser alimentados.

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    Escrevo para alimentar o que ficou vivo em mim

    Escrevo agora para alimentar tudo que você não se lembra, mas eu sim.

    Alimento os filhotes e são pássaros 

    e os vejo criar asas.

    Gosto de inventar você. E ao inventar você, fazer vestir a roupa que 

    eu quiser e assoprar na minha cara 

    as capas dos discos que me fizeram sempre achar que a vida tinha 

    uma esquina que a gente cruzava 

    e começava a sentir prazer sem dor.

    Mas a vida…

    A vida é uma rotatória, amor

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