O luto depois do amor: uma reflexão sobre lembrar, perder e seguir
A história de dois corpos, muitos nomes e uma ausência impossível de arquivar
A gente não gostava de fazer nada que não fosse cobertor. Mas um dia você resolveu trincar os olhos numa fumaça. e resolveu dançar pra mim de calça jeans aberta sem camisa.
de alguma forma acho que foi a única vez que vi você se exibindo tanto. Com os olhos trincados e a boca sem saber fechar decidiu vir pra cima de mim sem medo de não ser bem recebido.
e foi. bem. recebido.
A viagem em que você virou personagem
No meio dos olhos e da fumaça
te chamei de Leonardo. você
se assustou e eu gargalhei também. Leonardo DiCaprio, meu amor.
A partir daí era nossa pequena viagem chamar de outro alguém nossos corpos. eu te chamava
de Leonardo, Brad, Kurt, Julian, Antony e todos aqueles que me fizeram descobrir que existe corpo fora da cabeça e que dá choque sem a gente mandar. Você me chamava de Angelina, de Catherine, de Uma. A gente inventou uma multidão.
Quando quase coube alguém a mais
Na rua, decidimos que acharíamos alguém e que levaríamos esse alguém para nossos vermelhos e danças de nomes tantos. Eu topava que fosse mulher. Você topava que fosse homem.
Sentávamos num café em busca de alguém sem nome pra gente chamar do que quisesse. Engraçado como ninguém parecia bom o suficiente pra gente. Engraçado como beber no fim da tarde, deixar um cigarro arder os olhos e esfregar o desejo
na quina da mesa de bar faz a gente se sentir invencível e imortal.
Vimos uma menina uma vez.
Eu fui lá. Se ela gostasse de mim, seria nossa. Quando percebi,
estava me apaixonando por ela.
E pensando que veríamos filmes e que seria preciso aumentar o cobertor.
Ou expulsar você dele. Deixei pra lá.
Nosso retrato ficou na memória
Comecei a gostar de chegar na nossa casa e brincar com você de dar nota para nossos candidatos. E de rolar no chão de rir e colocar um vinil
do Milton e rolar no chão de chorar. Me lembro da gente passar horas
e horas sem acender a luz e deixando a janela compor nosso âmbar, nossa sépia. Pensar que hoje nem sei mais onde está aquela foto.
Seus olhos trincados, Léo, Angelina, Kurt, Milton e o cobertor devem estar guardados bem amarelados esperando que eu os olhe pra colocar de novo dançando em
mim esse retrato da gente que fica rodopiando no espaço da memória.
O luto como uma sala cheia de caixas
Esquecer e guardar você é uma multidão em silêncio, muda, diante de um show que nunca começa.
Esquecer e guardar e perder você
é uma procissão sem reza, uma mesa de aniversário sem que
nunca comece o parabéns.
Esquecer e perder e enterrar você e fazer fingir em mim que você nunca existiu é morar numa casa cheia de coisas encaixotadas e perceber, de repente, que o que está nas caixas são bebês que precisam ser alimentados.
Escrevo para alimentar o que ficou vivo em mim
Escrevo agora para alimentar tudo que você não se lembra, mas eu sim.
Alimento os filhotes e são pássaros
e os vejo criar asas.
Gosto de inventar você. E ao inventar você, fazer vestir a roupa que
eu quiser e assoprar na minha cara
as capas dos discos que me fizeram sempre achar que a vida tinha
uma esquina que a gente cruzava
e começava a sentir prazer sem dor.
Mas a vida…
A vida é uma rotatória, amor
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