O que as comédias românticas dizem sobre cada geração
Um comparativo entre "People We Meet on Vacation" e "When Harry Met Sally" revela como cada geração aprendeu — ou desaprendeu — a amar
Antes de se tornar um fenômeno do streaming, People We Meet on Vacation nasceu como livro. Publicado em 2021, o romance de Emily Henry rapidamente se transformou em best-seller e consolidou a autora como uma das vozes mais influentes do romance contemporâneo.
Henry construiu sua carreira explorando relações afetivas marcadas por ironia, vulnerabilidade emocional e medo da intimidade — traduzindo, em linguagem romântica, as inquietações de uma geração que ama com cautela.
Uma história entre memória, amizade e desejo
A trama acompanha Poppy e Alex, dois amigos que passam férias juntos todos os anos, até que algo rompe a relação entre eles.
Anos depois, os dois tentam revisitar o passado para entender o que se perdeu no caminho. A narrativa se organiza entre presente e memória, amizade e desejo, proximidade e silêncio — e transforma o amor em um exercício constante de interpretação emocional.
A adaptação e seus protagonistas
Na adaptação cinematográfica, a Netflix apostou em Tom Blyth e Emily Bader como protagonistas.
Blyth interpreta Alex como uma figura introspectiva e contida, enquanto Bader constrói Poppy como uma personagem expansiva, inquieta e emocionalmente contraditória. Ao redor deles, o elenco de apoio reforça o tom de intimidade e deslocamento que marca a narrativa.
Sucesso imediato (e sensação de déjà-vu)
Desde o lançamento, o filme se tornou um dos títulos mais comentados da plataforma, entrou no Top 10 em diversos países e se consolidou como um sucesso entre o público jovem, impulsionado pela popularidade do livro e pelo engajamento nas redes sociais.
Mas há uma sensação de que já vimos tudo isso antes.
E vimos.
O que mudou na linguagem do amor
Para fãs de comédia romântica, o cânone passa, inevitavelmente, pelos filmes de Nora Ephron e Nancy Meyers — incluindo, claro, When Harry Met Sally, de Rob Reiner, com roteiro de Ephron.
Lançado em 1989, o filme foi tão impactante que influenciou novas gerações de histórias românticas. Há uma linha visível ligando People We Meet on Vacation a ele.
Não apenas pela premissa — dois amigos que atravessam o tempo até admitir o amor —, mas pela ambição de traduzir uma época em linguagem afetiva.
A diferença é que, enquanto o filme de 1989 acreditava no poder das palavras, o de 2020 prefere o silêncio.
E essa escolha diz muito sobre o mundo que os produziu.
O amor como debate em When Harry Met Sally
Quando Nora Ephron escreveu When Harry Met Sally, partiu de uma pergunta quase filosófica proposta pelo diretor Rob Reiner, então solteiro e em busca de um novo amor (que, aliás, encontrou nos bastidores da filmagem).
Reiner se perguntava se homens e mulheres podem ser apenas amigos. A resposta do filme não é simples, mas é afirmativa em sua crença na comunicação.
Harry e Sally discutem, discordam, argumentam, falam demais. Eles transformam o amor em debate, em tese, em retórica.
O romance nasce da linguagem.
O silêncio como conflito em People We Meet on Vacation
Em People We Meet on Vacation, Poppy e Alex vivem o oposto.
Eles não se expressam com facilidade, e o conflito central não é ideológico, mas emocional: o medo de nomear o que sentem.
Se Harry e Sally se apaixonam porque conversam, Poppy e Alex quase se perdem justamente porque evitam conversar.
Essa diferença não é apenas estética.
Ela é histórica.
Do amor como discurso ao amor como ansiedade
When Harry Met Sally nasce em um momento em que a comédia romântica acreditava em gestos grandiosos, frases antológicas e finais catárticos.
O filme é estruturado sobre diálogos que se tornaram parte da memória cultural: a cena do orgasmo no restaurante, as discussões sobre sexo, amizade e casamento, as entrevistas com casais idosos que atravessam a narrativa como testemunhas do tempo.
E, convenhamos, nada bate a declaração de que “quando você descobre alguém com quem quer passar o resto da vida, você quer que o resto da vida comece assim que for possível”.
Ali, o amor é uma experiência pública, verbalizada, quase performática.
Harry e Sally não têm medo de errar — têm medo de estar errados. O conflito é intelectual.
Amor privado, medo de falar
Em People We Meet on Vacation, o amor é privado, hesitante e fragmentado.
Poppy e Alex pertencem a uma geração que não discute sentimentos: administra emoções.
Eles não transformam o amor em debate, mas em trauma potencial. O medo não é estar errado — é estragar algo que já existe.
Se o filme de 1989 fala sobre a coragem de dizer, o de Emily Henry fala sobre o pânico de dizer.
Estrutura narrativa: linearidade versus memória
A diferença também está na forma.
When Harry Met Sally acompanha seus personagens ao longo dos anos de maneira relativamente linear. O tempo avança, e o espectador observa a evolução do vínculo entre eles como quem assiste a uma tese se desenvolver.
O filme confia na progressão: cada encontro acrescenta algo novo.
Já People We Meet on Vacation é construído sobre a lógica da memória. A narrativa alterna passado e presente, revisita momentos e reinterpreta lembranças.
Essa estrutura reflete um traço geracional. Enquanto Harry e Sally vivem no presente e projetam o futuro, Poppy e Alex permanecem presos ao passado — revisando decisões, relendo emoções e reinterpretando silêncios.
Personagens: certezas versus ambiguidade
Harry e Sally são personagens definidos. Eles sabem quem são, o que pensam e o que defendem. Mesmo quando mudam, mudam por confronto.
Poppy e Alex, por outro lado, são personagens ambíguos. Não têm certezas, apenas intuições. Sua identidade emocional é fluida, instável e moldada pelo medo da perda.
O contraste é revelador: a comédia romântica clássica acreditava na personalidade como algo sólido; a contemporânea enxerga a identidade como algo provisório.
O que Hollywood perdeu — e ganhou
Comparar People We Meet on Vacation com When Harry Met Sally é perceber o que Hollywood perdeu e ganhou ao longo de três décadas.
Se, por um lado, já não há a inteligência afiada dos diálogos nem a ousadia de transformar o amor em conflito intelectual, por outro há uma aposta em personagens emocionalmente frágeis — o que gera identificação imediata com o público jovem.
O problema é que identificação não é, necessariamente, memória.
When Harry Met Sally produziu cenas e frases que atravessaram gerações. People We Meet on Vacation produz reconhecimento, não mito.
O anti–When Harry Met Sally
No fundo, People We Meet on Vacation funciona como o anti–When Harry Met Sally.
Se a comédia romântica clássica acreditava que o amor era uma questão de tempo, a contemporânea sugere que o amor é uma questão de trauma.
Talvez seja por isso que o filme tenha se tornado tão popular entre a geração Z. Não porque seja melhor, mas porque é mais honesto com o espírito do seu tempo.
Se When Harry Met Sally ensinou uma geração a acreditar no amor, People We Meet on Vacation apenas reflete uma geração que já não sabe se acredita nele.
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