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Marjorie Estiano: “Não existe violência isolada, toda violência reverbera”

Entre as maiores atrizes de sua geração, Marjorie examina suas escolhas artísticas e reflete sobre violência depois de representar Ângela Diniz na TV

Por Lorraine Moreira
13 fev 2026, 10h00 •
Marjorie Estiano fala sobre carreira, relacionamento e Ângela Diniz
Full look Gucci e Joias HStern (Bruna Sussekind/CLAUDIA)
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  • Quatro disparos antecederam a morte de Ângela Diniz. Após decidir encerrar o conturbado relacionamento com Doca Street, em 1976, a socialite mineira foi assassinada por ele.

    No julgamento seria violentada mais uma vez, mas a arma agora era a tese da legítima defesa da honra. “Senhores jurados, a mulher fatal encanta, seduz, domina… Às vezes, a reação violenta é a única saída”, afirmou o advogado de defesa.

    Doca Street foi condenado a dois anos de prisão, mas, como já havia cumprido mais de um terço da pena, saiu livre do tribunal. A promotoria entrou com um novo recurso após a pressão do movimento “Quem ama não mata”, o que o levou ao regime fechado por outros três anos e meio.

    Mais de quatro décadas depois, o caso voltou ao debate público com a série Ângela Diniz: Assassinada e Condenada (2025), da HBO Max.

    “O antagonista é o patriarcado”, diz Marjorie Estiano, que dá vida à Ângela e ao nosso editorial de capa. A série expõe não apenas a violência que a mineira continuou a sofrer após a morte, mas os resquícios desse crime para a sociedade.

    “Não existe uma violência isolada, toda violência reverbera. Impacta filho, pais, tios, a família inteira. Impacta empresas, a economia. É como jogar uma pedrinha num lago, aquilo ecoa, vai ganhando proporções e se estende para muito além do ponto onde aconteceu.”

    Marjorie Estiano fala sobre transformação pessoal após interpretar Ângela Diniz

    Marjorie Estiano fala sobre transformação na relação com a mãe depois de interpretar Ângela Diniz
    Vestido Entire Studios; Joias HStern e Sapato Aquazurra para Cidade Jardim (Bruna Sussekind/CLAUDIA)
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    Na pele de uma personagem tão afetada pelos problemas do mundo, Marjorie teve uma transformação mais íntima, só possível quando decidiu olhar para a própria vida.

    Criada em uma família de classe média baixa, em Curitiba (PR), a artista lembra que a mãe cuidava para que nada faltasse aos filhos. Havia, porém, uma tensão entre elas.

    “Minha mãe sempre foi muito prática, tinha um jeito de amar de não faltar nada. Tinha lá a roupinha, o uniforme, a casa, e ela tomava conta de tudo, trabalhava em casa, na rua. Era sobrecarregada. E eu era uma criança muito sensível, então queria uma mãe mais amorosa, no sentido de tato, de beijo. Hoje consigo ver o amor no cuidado dela, mas eu cobrava muito da minha mãe em relação a esse lugar amoroso”, disse em entrevista à Tati Bernardi. 

    Ao viver personagens da mesma época em que sua mãe passou a juventude, essa visão se transformou.

    “Não que ela seja traduzida nessas personalidades, mas reconheço a sociedade em que foi formada, seus traços e dificuldades. Nunca se deixa de ser filha, mas como compreender aquele ser, que é sua mãe, como uma mulher? Uma mulher que fez escolhas, que se apaixonou, que decidiu ou não ter filhos, criou os filhos e que cada filho é esse. Com o amadurecimento, você começa a entender um pouco aquela narrativa mais descolada de você.”

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    Esse tipo de reflexão esteve ausente da vida de Marjorie por muito tempo. “Você vai seguindo regras com naturalidade, porque é dessa forma que o jogo lhe é apresentado na infância”, diz ela.

    Foi durante um processo de estudo, que incluiu leituras como as obras de Amia Srinivasan, Annie Ernaux e Lélia Gonzalez, além dos documentários sobre a condição feminina She’s Beautiful When She’s Angry (2014), Resposta das Mulheres (1975) e Three Lives (1971), que Marjorie passou a desenvolver esse tipo de compreensão.

    “Quanto mais consciência você tem dos mecanismos de manipulação aos quais foi submetida, e que já fazem parte do seu ser, do seu pensamento, mais propício é conseguir desatar esses nós”, pontua.

    “Agora, o que significa mesmo ser mulher, quais são as vantagens que o meu gênero traz, independentemente da política, embora seja impossível separar completamente, ainda estou para descobrir.”

    De Malhação à música: como Natasha transformou Marjorie Estiano em fenômeno nacional

    Marjorie fala sobre querer voltar a fazer novela
    Top, Hotpants e Brincos Dolce&Gabbana; Anel Bvlgari (Bruna Sussekind/CLAUDIA)
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    Ao longo das últimas duas décadas, Marjorie Estiano conquistou algo que poucos artistas alcançam: a capacidade de se movimentar com segurança entre filmes independentes, como o terror As Boas Maneiras (2017), novelas de grande audiência, como A Vida da Gente (2011), e séries de televisão aclamadas, como Sob Pressão (2017). Mas essas não foram as produções responsáveis por abrir as portas de sua carreira.

    A história é a seguinte: em 2004, a artista deu vida a Natasha, a emblemática rockeira de cabelo pixie que liderava a Vagabanda. O grupo musical era parte do enredo de Malhação, mas conquistou as rádios da vida real com a música Você Sempre Será, interpretada por Marjorie.

    O impacto foi tamanho que a atriz experimentou cantar para grandes públicos, ter sua van balançada por uma multidão e, ainda hoje, seguir na memória dessa geração.

    “É menos sobre meu trabalho e mais sobre a fase em que ele estava inserido na vida das pessoas. Na época, só estava tentando correr atrás do dia seguinte, era muito trabalho. Consigo entender a dimensão da personagem com a permanência dessa memória na vida das pessoas.”

    Marjorie fala sobre Malhação e importância da música em sua vida
    Full look e Brincos Dolce&Gabbana; Anel Bvlgari (Bruna Sussekind/CLAUDIA)
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    De lá para cá, a música seguiu presente em sua trajetória. Vieram os álbuns Marjorie Estiano (2005), Flores, Amores e Blablablá (2007) e Oito (2014) assinados pela atriz. Mais recentemente, lançou sua segunda parceria com Gilberto Gil. Na primeira, Marjorie protagonizava Duas Caras (2007) e recebeu o convite para uma gravação com o artista.

    “Ainda estava naquela fase muito voltada para fazer tudo direito. Queria acertar a nota, a canção, e queria estar ali com ele, mas havia muitos pontos que tomavam a minha atenção”, relembra. Quase duas décadas depois, o reencontro teve um sabor diferente.

    Em 2025, ela subiu ao palco em Curitiba durante a turnê Tempo Rei, ao lado de Gil. “Pensei: ‘agora você tem mais uma chance. O que vai fazer?’. E respondi: ‘Agora eu vou ser só feliz’.” E, então, não se preocupou mais em ser perfeita.

    Por que Marjorie Estiano se afastou das novelas — e se pretende voltar

    Marjorie fala sobre não querer voltar a fazer novelas
    Vestido Selfie Portrait e Joias HStern (Bruna Sussekind/CLAUDIA)

    Não é raro ouvir que Marjorie Estiano é a melhor atriz de sua geração, tampouco comentários sobre a falta que faz nas novelas. Sua última participação no formato foi em Império (2014), quando retornou na segunda fase da trama após a saída de Drica Moraes por problemas de saúde.

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    A atriz estava desde então envolvida em formatos que não se restringiam à teledramaturgia —  como o filme Entre Irmãs (2017), a série Fim (2023) e sua participação no desfecho do aclamado Ainda Estou Aqui (2024). São trabalhos que representam apenas uma parte do sucesso em sua carreira e que lhe permitiram fazer escolhas sobre o que, onde e quando atuar.

    “Reconheço a profundidade e o papel político que as novelas ocupam na formação cultural de massa no Brasil. São uma ferramenta muito forte e interessante”, afirma.

    “Mas fazer uma novela é um processo exaustivo. Você não pode ir ao médico, não dorme, não tem vida social. Quando eu tinha 20, 30 anos, isso tinha impacto, mas eu ainda tinha saúde para assumir essas condições. Hoje, tenho receio de encarar um processo como esse.”

    Apesar disso, a atriz não descarta um retorno. “Preciso conversar com mais atores que fazem novela nessa fase da vida, para entender como eles conseguem, porque a memória que eu tenho é de uma vida muito, muito dura.”

    Numa época em que muitos artistas se moldam à imagem do público ou transformam a própria vida em reality show, ela se mantém como alguém focada em criar arte. Isso não significa, porém, que não olhe para quem a assiste.

    “Se consigo oferecer algo que movimenta as pessoas para se compreenderem melhor, a si mesmas, aos outros ou à própria profissão, esse é um retorno muito valioso para mim. Ganhar prêmios cumpre seu papel no currículo, mas esse reconhecimento, que é íntimo e individual do espectador, tem, para mim, um valor basal.”

    Casamento, liberdade e novos projetos: como Marjorie vive hoje

    Marjorie fala viver em casas separadas do marido
    Full look Gucci e Joias Bvlgari (Bruna Sussekind/CLAUDIA)

    Marjorie se interessa em buscar seus próprios modos de viver. “A minha avó se casou aos 14 ou 15 anos e teve sete filhos. A minha mãe se casou aos 28 e teve três. Eu não me casei, e, para mim, esse modelo de casamento tradicional nunca foi um sonho. Por mais que nossa formação queira colocar a gente nesse roteiro e esses ruídos às vezes confundam a gente, há mais liberdade de escolha.”

    Não à toa, vive em casas separadas de seu companheiro, o médico Marcio Maranhão, mas se sente igualmente à vontade para voltar atrás, caso assim queira.

    “Os nossos desejos mudam, e uma relação viva se manifesta justamente nessa vivacidade. Às vezes o relacionamento pede uma coisa, às vezes outra; às vezes é você quem muda. Hoje eu vivo de um jeito, mas não sei se amanhã vamos morar juntos, ou na mesma casa em quartos separados, se vamos nos casar de forma tradicional ou se vamos nos separar”, afirma.

    “É tudo muito dinâmico, tento nutrir o meu relacionamento. Quando isso some, é porque entramos em um lugar de acomodação, e aí acho que começa a se transformar em outro tipo de parceria.”

    Seus passos agora estão na finalização de Habeas Corpus, série da Netflix ainda sem previsão de estreia, que acompanha uma professora de Direito dedicada a provar a inocência de um jovem. O trabalho tem sido desenvolvido ao lado de uma equipe pela qual nutre profunda admiração, como a atriz Any Gabrielly.

    “Estou numa outra posição com essa galera jovem, que eu já fui um dia, e fico me perguntando quem eu quero ser na vida deles. Na minha fase dos 20 anos, encontrei pessoas muito legais, mas também gente que dificultou muito a minha vida. E penso muito sobre qual é a memória que eu quero deixar na vida desses jovens.”

    Quando olha para o futuro, a atriz tem o desejo de explorar cada vez mais personagens, gêneros e temas diversos. “Há tanta coisa que eu quero conhecer sobre o ser humano, e eu tenho essa oportunidade por meio dos personagens, de abrir essa caixa de Pandora.” Agora, ela segue mais livre nessa direção.

    “A Ângela me permitiu desenvolver uma sensibilidade muito maior em relação ao meu corpo, às minhas escolhas, à minha liberdade. Não sei se é algo passageiro, porque, às vezes, a inspiração é como uma faísca que acende por um instante e depois se apaga. Mas algo permanece mais bonito nesse processo, diria que hoje me sinto mais à vontade na minha própria pele.”

    Créditos

    • Edição de moda: Bruno Pimentel  
    • Beleza: Carla Rodrigues 
    • Direção de arte: Kareen Sayuri 
    • Agradecimento: Palácio Tangará
    • Produção de moda: Juny Martins e Gabriela Fabosa 
    • Camareira: Amanda Camara 
    • Assistentes de fotografia: Mariana Gabetta e Gianfranco Vacani 
    • Retouch: Victor Wagner

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