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Crônicas de Mãe

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Em primeira pessoa, mães compartilham histórias reais sobre os desafios, as descobertas e os encontros que transformam a maternidade.

Adriana Araújo relembra maternidade e a luta da filha desde a gestação

Em relato emocionante sobre maternidade, a jornalista conta como enfrentou o diagnóstico de hemimelia fibular da filha ainda na gravidez

Por Adriana Araújo em depoimento a Marina Marques 11 jul 2026, 09h00
Duas mulheres sorrindo para a câmera, uma de pele clara com cabelo castanho e roupão preto, e outra de pele morena com cabelo escuro e blusa verde, abraçadas em um ambiente interno
Adriana Araújo e a filha, Giovanna, cuja trajetória de superação inspira a primeira edição da coluna Crônicas de Mãe (Arquivo Pessoal/Reprodução)
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Adriana Araújo relembra maternidade e a luta da filha desde a gestação Priorizar nos meus resultados Google

Eu tinha 24 anos e estava no início da minha carreira de jornalista quando descobri que estava grávida. Sempre quis ser mãe — e sempre me imaginei mãe de uma menina —, mas aquele não era um momento planejado. Ainda assim, a alegria veio, mesmo atravessada por um susto.

Foi entre o quarto e o quinto mês de gestação que esse susto ganhou forma. Em um ultrassom, apareceu o primeiro sinal de que algo não ia como o esperado: uma diferença na formação dos ossos do pé. A partir dali, cada exame passou a trazer novas dúvidas — e uma angústia crescente.

Eu não tive uma gravidez serena. Não experimentei aquela sensação de plenitude que tantas mães descrevem. O que  vivi foi uma espera inquieta, em que cada nova imagem parecia ampliar o tamanho do desconhecido. 

Com o tempo, entendi que havia uma malformação genética, uma síndrome ortopédica (hemimelia fibular) que se formava ainda na multiplicação das células. Mas, naquele momento, o diagnóstico não vinha com contornos claros — apenas com a certeza de que minha filha enfrentaria desafios desde o nascimento.

Diante disso, me questionei: o que posso fazer agora? Sempre fui uma pessoa de agir, de buscar caminhos, e foi assim que atravessei a gestação. Ainda grávida, comecei a procurar respostas, a conversar com especialistas, a me preparar para o que viria.

Meu pré-natal deixou de ser apenas obstétrico e passou a ser também ortopédico. Eu precisava entender, me antecipar, construir algum tipo de chão em meio à incerteza. Mesmo assim, tinha medo.

Havia a pergunta silenciosa que acompanha tantas mães: será que vou dar conta? No meu caso, ela vinha ampliada pelo desconhecido, pela possibilidade de uma deficiência física. E, ainda assim, havia um movimento interno que me sustentava: o de seguir, passo a passo, fazendo o que era possível em cada momento.

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Mulher de cabelos castanhos ondulados, sorrindo, sentada com os braços cruzados. Veste camiseta branca, calça jeans escura, brincos e colar com pedras verdes. Ao fundo, janela e móveis desfocados
A jornalista Adriana Araújo compartilha sua história de maternidade para a coluna Crônicas de Mãe (Arquivo Pessoal/Reprodução)

A tensão da gravidez chegou a um ponto em que pedi para antecipar o parto. Acreditava, de forma quase intuitiva, que, se ela nascesse antes, talvez o problema cessasse. Foi quando ouvi da médica que o que ela tinha não estava sendo causado pela gestação. Já estava certo, mas só estávamos conseguindo ver aos poucos. Ao completar 36 semanas, saí de um exame de rotina e, horas depois, estava sendo internada.

Lembro da surpresa, mas, principalmente, da sensação de alegria que me tomou naquele momento. Era como se, finalmente, depois de tanta espera e tensão, eu fosse encontrar a minha filha. Entrei no centro cirúrgico sozinha, pedi para minha mãe não ir comigo. Havia algo ali que eu queria viver de forma muito íntima, quase como um encontro marcado entre nós duas. E, de fato, foi.

Quando ela nasceu, ouvi da médica a frase que ficou gravada na minha memória: “Ela é do jeitinho que a gente imaginava”. Aquilo, que poderia soar duro, foi um gesto de cuidado. Significava que não havia surpresa além do que já sabíamos. Que, de alguma forma, estávamos preparadas.

Ao colocarem a Giovanna no meu peito, eu fechei os olhos. Não tive pressa de ver, de analisar, de entender. Eu quis sentir. Senti a respiração dela, o corpo pequeno, o silêncio entre nós duas. Foi um encontro profundo, de almas.

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Só horas depois eu olhei para o corpo dela com mais atenção. E, sim, houve um impacto. O medo voltou em forma de perguntas: será que ela vai andar? Será que vai ter tratamento? Mas, ao contrário do que poderia parecer, eu não estava mais paralisada. Eu já tinha um caminho.

Foram dez cirurgias ao longo da infância, algumas invasivas, com pós-operatórios difíceis. Houve momentos de desespero, como quando um médico sugeriu a amputação do pé dela ainda bebê. Saí da consulta em prantos. Foi um dos momentos mais duros da trajetória. Mas a vida não para, e talvez essa seja uma das faces mais difíceis da maternidade.

Lembro de estar no carro, tentando me recompor, pedindo uma pizza para chegar junto comigo em casa. Comi chorando, engolindo o choro junto com cada pedaço, porque eu precisava seguir, iria para a redação à tarde. Havia uma vida acontecendo ao mesmo tempo em que tudo parecia desabar.

Capa do livro Sou a Mãe Dela de Adriana Araújo, com a autora e uma jovem sorrindo, em um cenário natural. O texto descreve a história de uma menina que lutou para caminhar e desafiou preconceitos
Em “Sou a Mãe Dela”, a jornalista narra a jornada que trilharam juntas, desde batalhas médicas a luta diária pela inclusão (Divulgação/Divulgação)
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Mas eu me recusei a aceitar aquela ideia. Disse que a decisão não era minha, e quando ela tivesse idade para escolher, decidiria. Até lá, lutaria para que ela caminhasse com os próprios pés. E foi isso que fizemos.

Ao longo dos anos, com procedimentos complexos e um processo lento de reconstrução, ela conquistou a mobilidade. Não sem dor, não sem medo, mas com uma persistência que, muitas vezes, vinha mais dela do que de mim. Paralelamente à jornada médica, havia outra, talvez ainda mais importante: a da construção da autoestima.

Percebi cedo que não bastava tratar o corpo, era preciso proteger a forma como ela se enxergaria no mundo, sua autoestima. Porque o mundo, muitas vezes, não é gentil.

Ouvi frases atravessadas, comentários marcados por ignorância, olhares que tentavam reduzir minha filha à sua condição. Uma vez, ainda pequena, ela me perguntou: “Se eu rezar muito, Deus faz nascer dedos na minha mão?”. Ali, entendi a dimensão do que não aparece em exames nem cirurgias. E tive a certeza de que, mais do que qualquer tratamento, a minha tarefa era ajudá-la a se enxergar inteira.

Foi nesse cenário que entendi que a deficiência é parte da história, mas não é a história. Quis que ela experimentasse tudo, que estivesse nos espaços, que testasse seus limites, que se sentisse pertencente. Ela fez esporte, dançou, nadou, caiu, levantou, viveu. E cresceu com uma serenidade que me impressiona.

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Duas mulheres sorrindo, sentadas em um sofá. A da esquerda, de pele clara e cabelos castanhos, usa um casaco preto e abraça a outra. A da direita, de pele morena e cabelos pretos curtos, veste uma blusa verde com bolinhas douradas e calça jeans rasgada, com os pés descalços. Ambas olham para frente com sorrisos abertos
A jornalista Adriana Araújo e a filha, Giovanna, hoje aos 28 anos e formada em medicina (Arquivo Pessoal/Reprodução)

Hoje, olhando para trás, vejo uma trajetória marcada por desafios, mas também por uma sucessão de encontros. Com pessoas que nos acolheram, que nos estenderam a mão, que nos ajudaram a seguir.

Hoje, Giovanna tem 28 anos e é médica. Para mim, cada passo dessa jornada carrega um significado impossível de traduzir completamente em palavras. Mas há uma imagem que resume tudo: o momento da sua formatura em que eu a vi caminhar até o palco para receber o diploma.

Ali, eu tive a certeza de que tudo valeu a pena. Muita gente me diz que ela teve sorte de me ter como mãe. Eu respondo sempre da mesma forma: a sorte foi minha. Porque, no fim, ser mãe dela é o grande encontro da minha vida. 

Adriana Araújo é jornalista. Apresenta o Jornal da Band e é autora do livro e do podcast Sou a Mãe Dela em que compartilha a trajetória ao lado da filha Giovanna e os aprendizados da maternidade diante do inesperado

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