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Você também é vítima do ar condicionado gelado da sua empresa?

Colunista Cynthia de Almeida explica que o conforto térmico das corporações foi calculado com base na temperatura corporal de um homem.

Por Cynthia de Almeida
1 set 2015, 13h27 • Atualizado em 31 out 2016, 11h31
Getty Images
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  • Durante todos os anos em que trabalhei nos ambientes fechados das redações de revistas e jornais, fui vítima do ar condicionado gelado. Não me lembro de uma única semana sem ter que me submeter à sua tirania climática e sem pedir “pelamordedeus” que os encarregados do equipamento (que opera em recônditos insondáveis dos edifícios corporativos) diminuíssem um pouco a potência que congelava nossas mãos, ossos e mentes. Recordo de uma redação em particular onde, talvez por capricho de um diretor encalorado ou por mera falha técnica, uma onda de frio polar fez com que eu e algumas colegas tivéssemos que trabalhar de luvas, gorro e cachecol em pleno dezembro. Parece piada. O curioso é que aquelas temperaturas que nos faziam sofrer pareciam não incomodar meus pares homens. As mulheres, por ironia, já eram (e continuam sendo) maioria naquelas salas gélidas, mas suas reclamações constantes eram alvo de descaso. Para todos os efeitos, a temperatura ambiente, declarados 21 graus Celsius (com sensação de 15, juro!), obedecia a normas de saúde, padrões internacionais, à vigilância sanitária e, principalmente, à vontade do chefe (homem) que ocupava o topo da montanha de gelo. Nosso mimimi, ouvíamos, era culpa do dresscode feminino, que insistia em blusas de alcinhas, saias e sandálias. Bom, nem adiantava mencionar o cachecol…

    Pois eis que agora a revista científica Nature publica o resultado de um estudo sobre conforto térmico nos edifícios climatizados e questiona a fórmula utilizada para definir os tais 21 graus Celsius como ideais. Não é nenhuma surpresa, mas serve de consolo por ser cientificamente comprovado: o conforto térmico foi calculado com base na temperatura corporal de um homem de 40 anos que pesa em torno de 70 quilos. Seus indicadores, concluem, são sexistas. Mulheres, admitem os responsáveis pelo estudo, são em média menores, têm metabolismo mais lento e possuem mais gordura corporal. Por tudo isso, precisam de 3 graus Celsius a mais (logo, 24) para se sentirem confortáveis.

    Não se trata de fazer barulho por causa de uma diferença aparentemente mínima nos termostatos, mas pelo que ela traz de simbólico: os espaços de trabalho foram e continuam sendo ajustados para homens. E a baixa temperatura é, sem trocadilho, apenas a ponta de um iceberg no oceano das inadequações para as mulheres que ainda persistem nesse ambiente.

    O detalhe (nem tão pequeno assim) do conforto físico serve como reflexão sobre outros padrões desenhados por e para homens, tal como a cultura corporativa vigente. Assim como sentimos mais frio, também nos comportamos, vestimos, agimos e até pensamos diferente. Não há juízo de valor na singularidade das nossas atitudes e percepções no mundo profissional. Mas elas são diversas e é importante que todos, homens e mulheres, se conscientizem disso para chegarmos a um justo equilíbrio de oportunidade entre os gêneros.

    Se queremos a equidade (diferente da igualdade), temos que exercitar esse olhar e ficar atentas para perceber quando o botão do termostato age contra nós. 

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