Operação: terminar o relacionamento

Fins são como cirurgias: mesmo as mais simples são desgastantes

Há alguns dias, num café, uma grande amiga me contou que ia terminar o namoro naquela noite. A relação tinha pouco mais de um ano e a pressão – do namorado, no caso – já começava: ele falava em morarem juntos, em, quem sabe, terem filhos e em todas essas coisas que a gente costuma falar quando já passou dos trinta e cinco e já está há pouco mais de um ano com alguém.

– Não posso nem dizer que o amor acabou – ela me explicou, entre um calmo gole no cappuccino e outro, o tom de voz confiante, de quem já tomou uma decisão e está só comunicando. – É que eu sinto que, na verdade, nunca gostei dele. Que só estou empurrando essa relação com a barriga, sabe? Para não ficar sozinha e essas bobagens todas.
– Uau – eu falei. – Vai ser um término tranquilo, pelo menos para você, pelo jeito.
– Com certeza. Eu não sinto admiração por ele, a gente nunca teve muita afinidade, discutimos por qualquer coisa, o sexo é só ok… Não era para eu ter esperado um ano nessa situação, não sei onde eu estava com a cabeça. Nunca foi amor, foi só carência!

Alguns dias depois, liguei para ela para saber como tinha sido e adivinha? Ela não só não tinha terminado com o cara como convidou a mim e ao meu marido para um jantar de casal.

– Você não ia terminar com ele, louca? – não resisti a perguntar.
– Ia, mas é isso, sou louca – ela respondeu, com aquele artifício irresistível de nos refugiarmos numa suposta loucura para justificar nossas incoerências, nossas dificuldades, nossa inação.

Não somos loucos. Somos medrosos. Eu, ela e, provavelmente, você também. Eu havia dito, no café, que, pelo visto, o término do namoro dela seria tranquilo. Mas términos não são tranquilos. Quando você saiu com o cara só algumas vezes, quando vocês ficam uma vez hoje e outra vez três meses depois, tudo bem. Aí é só espaçar as mensagens, é só dizer que anda muito ocupada, é só deixar a experiência morrer de morte natural. Mas terminar um namoro longo ou um casamento é como uma cirurgia. Mesmo as mais corriqueiras são indesejadas, desconfortáveis, tensas. 

Alguns fins são procedimentos especialmente complicados: exigem um longo tempo de preparação, o momento da operação propriamente dita é tenso do início ao fim e o pós-operatório é desgastante. Outros são simples como tirar um dente siso, mas quem quer tirar um dente siso? Muito mais tranquilo continuar em casa, vendo TV, sem pegar o bendito telefone e marcar hora no dentista.

Talvez o pior cenário seja quando terminamos com alguém mesmo amando essa pessoa. Você ama, mas não é amado, ou não suporta uma série de implicações daquele relacionamento, ou a relação é claramente tóxica: enfim, você adora uma pessoa e se vê arrancando bruscamente aquela presença da sua vida, como uma dolorosa amputação indesejada, mas que precisa fazer pela sobrevivência.

Términos mais simples, como os da minha amiga, são os das relações que já sabemos que não vão dar em nada, seja porque não temos sentimentos lá muito fortes, seja porque não estamos abertos naquele momento, seja porque nos envolvemos com outra pessoa – pode acontecer. Sabemos exatamente que não queremos mais: o diagnóstico é preciso, não deixa dúvidas. Mesmo assim, somos capazes de adiar e adiar a cirurgia.

Fui ao tal jantar de casal. Foi uma noite agradável, mas não pude deixar de notar o semblante da minha amiga: aquela expressão de quem desmarcou uma consulta com o médico, mas sabe que precisa ir. Ela tratava bem o namorado, mas era protocolar. Parecia uma primeira-dama de saco cheio do marido nos bastidores, mas acenando para as câmeras nos discursos oficiais. Olhar hesitante, sorriso sem alma, alguém que está, mas não está ali.

Medo, com certeza. Medo de ficar sozinha, medo da reação do outro, medo do futuro: é tanto medo, é tanto sentimento em ebulição dentro da gente o tempo todo. Por mais certos que estejamos em relação ao fim, pensamos: e se não for isso? E se eu me arrepender? Sabe como é: mesmo a mais simples das cirurgias tem risco de complicações.