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“Não tem jeito certo para ser mulher: tem o seu jeito, o meu, o nosso e o que a gente pode vir a ser”

A youtuber Debora Baldin fala sobre ser feminina, feminilidade e o que define o ser mulher nos dias de hoje.

Por Debora Baldin (colaboradora) Atualizado em 21 jan 2020, 13h39 - Publicado em 8 mar 2016, 08h52

Em uma das rodas de discussão que passei mundo afora, pelo Canal das Bee, uma moça fez uma pergunta que virou a minha cabeça do eixo. Ela pediu para que eu descrevesse o que me fazia ser mulher sem recorrer a nenhum estereótipo de gênero. O que compunha a minha identidade enquanto mulher, sem recorrer a nenhuma obviedade argumentativa da linha do “ai, amo cosméticos”. Na hora, fiquei sem saber o que falar. Não seria a paciência, o instinto maternal? Sou conhecida por ser uma pessoa irritada por natureza, nada maternal (não sou mãe nem pretendo –  e ainda que seja, não “nasci para ser mãe”). Não seria a paixão por cosméticos, a vaidade? Sempre gostei de parecer bem a mim, mas isso nunca significou parecer bem aos outros e não necessariamente esteve ligado a maquiagem ou coisa do tipo. E nunca fora, muito menos, nada definidor da minha paz espiritual. Seria, então, ser louca pelos homens mais malhados da cena das celebridades? Sou bissexual, me relacionava com mulheres em maioria e não cumpria muito o que se esperava relativo a isso.

Ou seja: poucos aspectos da minha personalidade podiam ser encontrados no conjunto de normas, que gosto de chamar de “feminilidade”.  No entanto, ser feminina sempre foi um dos pilares da minha identidade. Sempre me senti profundamente feminina, a despeito de algumas opiniões, principalmente masculinas, e em geral provenientes dos meus próprios círculos sociais (como o meu avô, mesmo sabendo que sou uma mulher com formação acadêmica de qualidade, que leva seu trabalho muitíssimo a sério, não conseguiu evitar de me perguntar quando eu me casaria todas as vezes em que liguei). Por que a definição do feminino precisa passar pela aprovação e fiscalização de homens? Mais um sinal de que o caminho deve ser o oposto.

Quebrando regras

Descobri que a minha trajetória de vida e da maioria das mulheres ao meu redor era ou de se adequar completamente a essas normas, adoecer e viver uma vida de cobranças excessivas – ou de romper com isso, amar a sua vida de desobediência e viver feliz consigo, mas em uma permanente peleja com o resto do mundo que não aprendeu a apreciar mulheres satisfeitas consigo mesmas.    

Nem sempre foi um ou outro: conheci muitas mulheres seguras de si e com danos enormes causados por males conhecidos por todas nós, como o padrão de beleza inalcançável, no qual passam suas vidas lutando contra ideias que não são suas. Me incluo nesse grupo. Feminista, estudando e militando pelos direitos e vida das mulheres há mais de cinco anos, esbarro com cobranças que me coloquei em inúmeras situações, sem nem lembrar como aquilo começou.

Passei uma vida lutando contra as normas e sempre me senti feminina. E aí?

A feminilidade é o que se relaciona com mulheres. Não é usar batom, passar 1/3 da sua semana a base de alface e água na academia, ser calma, paciente, complacente, maternal, receptiva, submissa. O feminino é o que se relaciona com você, se você for mulher. Simples assim. É o conjunto de signos, é a cultura que se forma a partir da nossa convivência com outras mulheres. E por mais que percamos isso de vista, em alguns momentos, cultura é uma coisa dinâmica e pulsante e a nossa está em plena construção! É uma colcha de retalhos do que vem das identidades de mulheres. É o que a gente aprendeu com as nossas irmãs, mães, tias, amigas. É a forma com que nos relacionamos com o que a gente aprendeu. É ver como elas lidaram com as mesmas barreiras que enfrentamos hoje, inventar novas saídas, encontrar mais algumas amarras e desatá-las.

Lidar com o machismo e suas correntes também molda e moldou a nossa personalidade. Aprender como ir se desvencilhando delas com outras mulheres também é parte desse processo de construção. Ser feminina é ser resistente, forte, solidária. Ser feminina é ser o que você é – seja o que for -, é ser também o que você enxerga nas mulheres que te rodeiam.

Se você é uma mulher de personalidade forte, irritadiça, mandona: imagina descobrir que o feminino pode ser isso também? Imagina que conforto pode ser descobrir que a sua personalidade é o jeito certo? Porque não tem jeito certo para ser mulher, tem só o seu jeito, o meu jeito, o nosso jeito e o que a gente pode vir a ser. 

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