Mulheres que trabalham na Fórmula 1 revelam importantes lições para a carreira

Conheça como vivem as pioneiras que ocupam postos-chave no masculino e disputado mundo da categoria mais popular do automobilismo - e aproveite suas dicas!

Felipe Massa nos treinos do GP dos Estados Unidos
Foto: Getty Images

Cena ainda rara na Fórmula 1, a mais famosa categoria do automobilismo: no GP do Bahrein, em abril, a engenheira eletrônica Gill Jones surgiu sob os holofotes como a representante da Red Bull – onde atua desde 2005 e hoje é chefe de setor – para receber o troféu de equipe vencedora. Foi saudada como a primeira mulher a subir em um pódio na F1. Tudo bem que, em 1986, a esposa de Frank Williams, criador da escuderia que leva seu nome, Virginia, já tinha feito isso. Mas somente para substituir o marido, que havia ficado paraplégico meses antes em um acidente. Já Gill estava lá pela carreira que escolheu e o bom trabalho realizado.

O episódio virou notícia no mundo. Embora a presença feminina em postos-chave da F1 ainda seja ultramodesta – o que explica o alvoroço –, mulheres já começam a deixar sua marca na modalidade. A austríaca Monisha Kaltenborn, CEO da Sauber Motorsports e chefe de equipe da Sauber, é a primeira em tal cargo. Claire, filha de Frank, conseguiu atuar no automobilismo sem a ajuda (e contra a vontade) do pai. Hoje é chefe adjunta da Williams, que tem uma piloto de desenvolvimento, Susie Wolff.

O GP do Brasil, que acontece no dia 24 de novembro, tem a engenheira eletrônica Claudia Ito como um dos braços fortes da sua organização. CLAUDIA conversou com todas essas pioneiras sobre preconceito, conquistas, sucesso, felicidade pessoal, cotidiano e equilíbrio. De quebra, elas ainda revelam lições que julgam ser úteis para qualquer carreira. “Eu acredito no talento individual. Quero ser julgada pelos meus méritos, não como uma mulher”, avisa Claire.

Monisha Kaltenborn

Chefe da equipe Sauber

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Foto: Getty Images

A primeira mulher a chefiar uma equipe em 63 anos de campeonato tem sob seu comando as centenas de funcionários da fábrica da Sauber, na Suíça, e outras dezenas de pessoas nas pistas. “Nos fins de semana de corrida, sou responsável por mecânicos, engenheiros, pilotos, todos os envolvidos”, explica Monisha, que recebeu CLAUDIA no GP de Mônaco, considerado o mais glamouroso. Mas isso tem pouco a ver com essa mulher discreta, que sempre veste uniforme e mantém o cabelo preso em um rabo de cavalo. Apenas às vezes ela se permite uma graça sutil, como o par de galochas floridas da marca Hunter usado no chuvoso GP da Grã-Bretanha de 2012. Aos 42 anos, formada em direito, a austríaca é casada com um advogado e mãe de duas crianças, de 8 e 11 anos. À época da união, em 1999, nem imaginava que um dia sua rotina seria pular de país em país levando carros de corrida, algo que só passou a fazer em 2010. “Acho que meus filhos lidam bem com isso”, diz, acrescentando a seguir que o segredo é planejamento. “Se sei que vou viajar na terça e eles têm um trabalho para entregar na sexta, faço com que deixem tudo pronto uma semana antes, enquanto estou em casa. Eles nem sempre gostam, mas é um bom jeito de ensinar organização a eles.”

Lições:

1. CONQUISTE: “É errado esperar que as pessoas a respeitem só porque assumiu um cargo. Você estará sempre sendo julgada pelo que faz e conquistará respeito com as decisões que tomar.”

2. AGARRE: “Há dez anos, não imaginava estar aqui. As coisas vão acontecendo e você deve decidir se abraça as oportunidades ou deixa passar.”

Claudia Ito

Diretora executiva do GP Brasil

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Embora nunca tenha sido uma fã inveterada, a engenheira eletrônica diz que sempre gostou de Fórmula 1. Aos 45 anos, 22 na organização do GP do Brasil, passou por praticamente todas as áreas até assumir a direção executiva, tornando-se o braço direito de Tamas Rohonyi, promotor da prova. Ama o fato de seu trabalho envolver ciclos curtos: “É tudo muito rápido. Depois de um ano, o GP acontece e já podemos tirar conclusões sobre o que fazer para que seja ainda melhor no ano seguinte”. Como no caso de Monisha, a história de Claudia com a F1 envolveu agarrar as oportunidades, ainda que isso apresentasse risco. “A cada vez que eu mudava de área na organização do GP, precisava lidar com assuntos totalmente diferentes dos que estava acostumada.” Claudia Ito tem uma filha de 10 anos e, sempre que pode, a leva ao trabalho para que a menina “entenda o que a mãe faz”. “Mas minha filha já me conheceu assim”, brinca. Separada, se casou de novo há três anos. Seu segredo para conciliar a rotina profissional corrida, o relacionamento e a maternidade? “Você precisa ter ao seu lado alguém que a compreenda. Sempre que me pego angustiada, meu marido me acalma e diz que entende o piano que carrego. Essa parceria é fundamental.”

Lições:

1. EQUILIBRE: “Muitas mulheres que atuam em postos de comando em um meio mais masculino tentam ser agressivas. Isso não é necessário: basta ser firme, o que é diferente de agressividade.”

2. MODERE: “Acho necessário ter tranquilidade para chegar aos poucos e entender exatamente cada área antes de pensar em fazer mudanças.”

Claire Williams

Chefe adjunta da Williams

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A Williams corre para ser a segunda equipe da F1 a ter uma mulher no comando. Claire Williams, 37 anos, é filha de Frank Williams, que fundou a escuderia, em 1977. No início do ano, ela assumiu o posto de chefe adjunta. “Fomos um time muito vencedor no passado (são nove títulos do Mundial de Construtores e sete de Pilotos), mas não estamos em uma fase boa e é minha responsabilidade garantir que sigamos progredindo”, afirma Claire assim que se acomoda em seu escritório no motorhome do time pelo qual Ayrton Senna corria em 1993 ao sofrer o acidente fatal. Senna, aliás, é fonte de inspiração. “Quando correu aqui, eu era novinha e tinha uma paixonite adolescente. Lembro uma frase dele que me marcou. Falava em determinação e realizar sonhos com trabalho duro.” Para entrar na Williams, ela precisou vencer a resistência do pai, que sabia das dificuldades da rotina de GPs e não a queria ali. Em 2000, cavou seu primeiro emprego no automobilismo: assessora de imprensa do circuito de Silverstone, na Inglaterra, seu país natal. Em dois anos, estava na Williams, que diz ser sua prioridade hoje. Mas, solteira, Claire namora um engenheiro de provas da equipe e admite que prioridades podem mudar.

Lições:

1. AMPLIE: “Em posição de liderança, é preciso se preparar para ser multitarefa. Ao mesmo tempo que toco a área tecnológica, do desempenho dos carros, devo lidar com a parte política do esporte.”

2. PRIORIZE: “A F-1 é mais que um trabalho, é um estilo de vida. Se eu mesma não fixar limites, posso chegar aos 50 largada num canto. Haverá o dia em que ter uma família será muito importante.”

Susie Wolff

Piloto de desenvolvimento da Williams 

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Foto: Getty Images

Dos cerca de 840 pilotos que participaram de alguma prova em mais de 60 temporadas de F1, apenas cinco eram mulheres. Corredora de kart desde os 8 anos, Susie Wolff, 30, cresceu nas pistas e possui uma meta: ser a sexta mulher a disputar uma prova de F-1. Em 2003, já foi a primeira a chegar a uma final no prêmio de Melhor Jovem Piloto do Ano da Grã-Bretanha. Na cerimônia, eram seis finalistas, que subiram ao palco onde Jackie Stewart, tricampeão mundial de F-1, tinha incumbência de apresentá-los. “Ele chamou os cinco primeiros nomes e disse: ‘Acho que está faltando um!’ Obviamente, deve ter pensado que eu era uma hostess: a única mulher em uma fila de meninos, e de vestido”. À época com 20 anos, ela deu um passo à frente e soltou: “Sou eu, o sexto piloto, e meu nome é Susie Stoddart”. Depois, a hoje piloto de desenvolvimento da Williams correu em outras categorias de base, até fechar com a Mercedes-Benz para disputar o campeonato alemão DTM, categoria similar à Stock Car brasileira. Foi aí que conheceu o agora marido, Toto Wolff, ex-piloto, acionista da Williams e diretor da Mercedes. “É mais fácil quando os dois compartilham as mesmas paixões.”

Lições:

1. VALORIZE-SE: “Sempre enfrentei preconceito por ser mulher. No fim das contas, é trabalho e, se não for suficientemente boa, você não fica.”

2. ALIE-SE: “Todas nós, mulheres, temos os mesmos desafios pela frente. Então, devemos nos unir, não nos jogarmos umas contra as outras.”