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Mulher negra com cabelo pintado de loiro é apropriação cultural?

Para entender a apropriação cultural é preciso entender a violência sofrida por não-brancos ao longo da história

Por Stephanie Ribeiro - arquiteta e ativista feminista negra 21 mar 2017, 17h14 | Atualizado em 20 jan 2020, 17h55
Beyoncé e Rihanna juntas no Grammy
LOS ANGELES, CA - JANUARY 31: Singers Beyonce Knowles (L) and Rihanna (R) backstage during the 52nd Annual GRAMMY Awards held at Staples Center on January 31, 2010 in Los Angeles, California. (Photo by Larry Busacca/Getty Images) (Larry Busacca/Getty Images)
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Recentemente escrevi, aqui no MdeMulher, um artigo falando sobre o blackface praticado por Daniela Mercury e Anitta durante o Carnaval. Falei sobre branquitude, mestiçagem, e recebi muitos comentários a respeito do texto. Muita gente entendeu que o uso de peruca crespa em fantasias de carnaval por pessoas não-negras, que tentam se passar por negras usando blackface não seria um problema, já que mulheres negras como Rihanna e Beyoncé usam cabelos lisos e loiros.

Essa afirmação é uma falsa simetria – que muitas vezes pode ser uma forma de racismo inconsciente. Quando entendemos o blackface como apenas o ato de pintar o rosto/corpo de preto para representar alguém negro, estamos errados. A prática é isso e mais do que isso. No século 19, nos EUA, atores brancos não apenas pintavam o rosto, mas também redesenhavam os lábios para reafirmar a ideia de que “negros são beiçudos”. Os papeis eram cômicos e beirando o ridículo, sempre com uma visão racista sobre os traços estéticos de alguns sujeitos negros.

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Al Jolson, estrela de cinema norte-americano, fazendo blackface (Hulton Archive/Getty Images)

Não só essas figuras ocupavam os palcos, como impediam que pessoas negras de fato pudessem ter esse espaço. Tratava-se de uma prática tão comum, que tornou-se um gênero do teatro norte-americano na época. Blackface é ridicularização e exclusão de negros – não existe outro significado para essa prática.

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Até hoje, infelizmente, o blackface é usado como alternativa para interpretar uma pessoa negra sem precisar dar visibilidade para alguém realmente negro. Ou é usado em festas como uma “fantasia engraçada”. No Brasil, uma das personagens mais simbólicas desse tipo de racismo é a chamada “Nega Maluca”.

Na TV, é comum o uso e naturalização dessa manifestação racista. Marco Nanini usou blackface na novela “Eta Mundo Bom”, em 2016. O autor Walcyr Carrasco disse que esse seria mais um dos disfarces usados pelo personagem Pancrácio. Mas ninguém “se disfarça” de branco. O branco é a norma, o correto. O negro é o exótico, diferente, fora do comum.

Na Europa do século 19, pessoas negras eram exibidas em espetáculos. Ficou famoso o caso da “Vênus de Hotentote” Saartjie Baartman, do povo khoisan, mais antiga etnia humana, estabelecida na parte meridional da África. Ela foi escravizada e exposta, primeiro em Londres, depois em Paris. Presa a uma corrente, ela caminhava de quatro durante os espetáculos.

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(Reprodução/Reprodução)

Depois de morta, Saartijie foi dissecada, e tanto o esqueleto quanto o molde do corpo dela foram expostos publicamente no Museu do Homem de Paris até 1985. A ciência a usava como exemplo para mostrar o quanto o corpo da mulher negra era anormal, usando como modelo de normalidade o corpo masculino europeu.

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Até a década de 1930, na Alemanha, homens e mulheres negros ainda eram expostos em zoológicos humanos. Algumas das pessoas expostas ainda estão vivas e podem contar em primeira pessoa o que viveram. Theodor Wonja escreveu sobre isso no livro “Ser alemão e negro”:

“Eles tentavam me cheirar para verificar se eu era real e falavam comigo em um alemão básico ou se comunicavam por meio de sinais”.

Partimos de uma premissa desumanizadora em relação aos corpos e sujeitos. Blackface nunca pode ser visto como homenagem. E há, sim, equivalentes ao blackface em outros grupos. Se fala de “redface” quando se trata de povos originários (indígenas), de “yellowface” para interpretações racistas e apagamento de asiáticos, “brownface” quando o racismo na representação se refere a estereótipos de latinos, sul asiáticos e povos do Oriente Médio.

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Existe uma gama de exemplos dessas representações racistas conhecidos: No Brasil, o redface foi feito por Cláudio Heinrich em “Uga Uga”, ao interpretar o índio Tatuapu, e pela atriz Deborah Secco na minissérie “Caramuru”, ambas produções da Rede Globo.

No que diz respeito a yellowface, o uso de técnicas para puxar os olhos de um um ator ocidental e o reforço do comportamento do que seria de um asiático foram as premissas que deram vida ao Mr Yunioshi, feito por Mickey Rooney em “Bonequinha de Luxo”.

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Para finalizar os exemplos, quando falamos de brownface devemos lembrar da novela “Caminho das Índias”, que romantizou a realidade e fez o brasileiro acreditar no indiano que tem o rosto do ator Caio Blat. Na realidade, a Índia é um dos países que está lutando contra uma onda de embranquecimento de parte da população por meio de cremes e outras técnicas estéticas.

A novela “Caminho das Índias” e também “Sol Nascente” e principalmente minisséries como José do Egito usam e abusam do que conhecemos como “whitewashing” quando a narrativa e personagens não brancos se tornam brancos nas representações:  Gandhi vira branco, os Egípcios se tornam brancos, Jesus é representado como branco de olhos azuis e Tom Cruise pode interpretar um samurai.

Mulher negra com cabelo pintado de loiro é apropriação cultural?
(Divulgação/Warner Bros.)

O resultado disso? Apagamento histórico e racismo. Não é só uma representação. O significado para cada blackface, yellowface ou whitewashing é o da manutenção da opressão e invisibilização desses povos sendo mantida.

Depois da colonização e do fetiche com olhar exótico, vem a negação, o entendimento de que tudo que pertence aos não-brancos é inferior e feio. É nesse processo que nossa estética e das outras identidades étnicas aqui citadas vão sendo colocada como fora da curva.

É por isso que alguns asiáticos tentam clarear a pele ou fazem cirurgias nos olhos. Assim como alguns negros entendem o alisamento de cabelos não como uma escolha, mas como uma necessidade de se encaixar na estética tida como branca. No fundo, as pessoas que não são brancas sofrem imposições – e isso é muito diferente da apropriação cultural.

Apropriação cultural é um fenômeno estrutural e sistêmico. Não pode ser entendido ou problematizado sob um ponto de vista particular, individual. No entanto, as consequências desse processo são sempre em nível coletivo, na estrutura: favorecimento do processo de marginalização desses grupos ou povos socialmente invisibilizados e oprimidos inconscientemente.

Em alguns casos, a apropriação cultural vai além do desrespeito às culturas alheias, invisibilizadas diante da imposição da cultura europeia e norte-americana, e se torna lucrativa. Isabel Marant, uma estilista francesa, usou na coleção verão 2015 um bordado feito pela comunidade mexicana Sant-Maria Tlahuitoltepec, da província de Oaxaca. Esse bordado é feito há 600 anos, e é um símbolo da identidade dessa comunidade.

 

A marca de Isabel Marant se apropriou do bordado, produzindo-o em larga escala, e passou a vender a peça que identificava como “tribal” pelo equivalente a R$ 1 mil. A peça original, feita pelas mulheres da comunidade, custava aproximadamente R$ 65. Os lucros adquiridos pela estilista e sua marca nem chegaram perto da comunidade.

É evidente que nem todas pessoas que compraram tais peças sabiam disso. Porém, indiretamente, favoreceram a negligência e roubo da cultura de um povo já invisibilizado, vítima de um processo terrível de colonização. Para esse povo, assim como em todas as comunidades originárias latino-americanas, a manutenção da sua identidade é mais do que estética: é uma forma de resistência.

Ao falar de apropriação cultural, estamos questionando um ramo da “árvore do racismo estrutural”, que atinge diversos povos criticados, perseguidos e massacrados por sua identidade não branca. Por trás de muitas culturas que foram sendo apropriadas ao longo dos séculos, existe uma história de imperialismo, colonialismo e genocídios.

Muita gente que desconhece todos esses fatos acredita que as reações dos grupos não brancos é radical e agressiva. Mas comparadas à violência estrutural enfrentada há séculos, quão radicais e agressivas são essas respostas?

Quando criticamos os estereótipos na representação dos negros e a apropriação cultural, estamos falando de racismo. De braços dessa estrutura que podem não matar – como mataram o imperialismo, guerras civis e genocídio. Mas que fortalecem a subordinação desses indivíduos que são sempre o outro, o erro, a não norma.

Pintar o cabelo crespo de loiro ou alisar não é apropriação cultural: é, na maioria das vezes, a tentativa de se encaixar na norma de una estética que é imposta para todas, porém só se baseia num pequeno e seleto grupo. Loiros naturais são uma pequeníssima parte da população adulta brasileira. E ser loiro – ao contrário de ser negro – não é uma identidade étnica: é apenas uma característica física.

 

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