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Mãe fala da importância de ser franca sobre sua bissexualidade com o filho

"Sempre foi ensinado que a subjetividade individual deveria ser respeitada", diz Sue Ellen Nhamandu, que tem um filho de 10 anos.

Por Alice Arnoldi Atualizado em 15 jan 2020, 18h22 - Publicado em 10 Maio 2019, 13h10

Em uma sociedade em que a binariedade é duramente criticada (“ou você é isso ou aquilo, mas não os dois, ok?”), o processo de se descobrir bissexual pode ser longo e dolorido. Porém, tudo fica ainda mais desafiador quando é preciso quebrar os preconceitos que rodeiam a orientação sexual ao ter um filho. Esse é o caso de Sue Ellen Nhamandu, de 35 anos, filósofa, artista, terapeuta sexual e mãe do Pablo Miguel, de 10 anos. Atualmente, ela está grávida do segundo filho, aos 7 meses de gestação.

https://www.instagram.com/p/BxAo6cwngzF/

Sue Ellen foi apaixonada por meninos no colégio, ainda que achasse mulheres bonitas. No entanto, o cenário mudou completamente aos 15 anos, quando a melhor amiga tornou-se sua grande paixão. O que poderia ser um amor adolescente gostoso de ser vivido, a filósofa lembra com pesar. “Não aceitava a lesbianidade em mim”.

Mesmo assim, experiências desse tipo continuaram a acontecer, afinal, orientação sexual não é uma escolha. Ela simplesmente existe e há o processo de reconhecê-la. “Aos 19 anos uma amiga do trabalho me beijou no banheiro e me apaixonei por uma menina do curso de teatro”, revela a artista.

Junto com as situações que Sue Ellen viveu com figuras femininas, estar dentro do ambiente teatral também a ajudou a enfrentar os conflitos internos sobre a sexualidade.

“No teatro existiam pessoas de todos os tipos e ninguém tinha vergonha de praticar sua homossexualidade, ali entendi que eu podia ser eu. Foi quando comecei a frequentar a parada LGBTI+ e a buscar entender porque havia me auto repreendido tanto tempo”. 

A situação dentro de casa

Em meio aos conflitos internos do processo, reconhecer a própria sexualidade também costuma gerar embates dentro de casa. Essa foi a realidade de Sue Ellen, que foi bombardeada de um lado com as duras palavras da mãe sobre ela se identificar como bissexual, enquanto que o pai da artista optou pelo silêncio quanto ao assunto.

“Meu pai sempre manteve uma distância de quem se pratica desconhecedor dessa informação, mesmo quando me ouvia dizer ‘minha namorada’. Acho que a falta de repertório dele em expressar a aprovação para o diferente e o socialmente reprovado, faz com que por respeito ele se abstenha de se comunicar”, explica. 

A vontade de ser mãe

Em pleno século 21, muita gente ainda acha que família e comunidade LGBT são coisas conflitantes e Sue Ellen é um exemplo de que isso é uma grande mentira. Pablo foi fruto de uma gravidez planejada e muito festejada, tanto pela mãe quanto pelo pai do garoto – que também é bissexual.

Foi mais que [uma gravidez] planejada, foi desejada com todo meu ser”, define a artista. Ainda que possa parecer cedo, a Sue Ellen teve certeza de que queria ser mãe aos 16 anos. Só que a tentativa de engravidar só começou aos 22 anos – e o primogênito veio um ano depois.

Foi uma gestação planejada, de uma relação com meu primeiro namorado, uma relação de 10 anos, e um bebê de parto natural, na casa de parto, humanizado e com o mínimo de intervenções”. Essa preocupação de proporcionar uma vida rodeada de naturalidade também fez com que Sue Ellen amamentasse Pablo até os cinco anos de idade, para que fosse um auto-desmame “sem traumas e abandono” – como ela pontua.

Atualmente, Sue Ellen está grávida do segundo filho, que vai se chamar Henri. O pequeno é fruto de outra relação da artista – e ela afirma estar mais feliz do que nunca.

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A criação de Pablo

Em relação ao filho, Sue Ellen escolheu sempre conversar abertamente sobre o assunto. Mas, mais do que ser uma pessoa estudada sobre sexualidade e a importância de falar sinceramente sobre ela, a artista viveu uma situação extremamente delicada na infância – que a fez refletir sobre as possíveis consequências da omissão.

Eu fui violentada dos 8 aos 11 anos de idade por um tio, pastor e policial militar. O sexo sempre foi um assunto velado, um tabu em casa. E sempre foi muito claro para mim que é por conta desse tabu que as crianças são violentadas, porque é o pipi, a xoxota, e nunca fica claro o que é o que, quem pode ou não pode te tocar, como, e em quais circunstâncias. O que é consentimento. Desde que o Pablo começou a perguntar as coisas, elas foram explicadas”, pontua. 

Sue Ellen também ressalta que a importância de explicar o que é consentimento para o filho ficou ainda maior quando outras pessoas além dela e do pai começaram a fazer parte do convívio da criança. Mas mais do que aprender sobre permissão, ter figuras diferentes ao redor de Pablo fez com ele aprendesse sobre diversidade desde cedo.

Eu e o pai do Pablo tínhamos uma relação aberta, e depois poliafetiva. Assim, a convivência com os meus e minhas namoradas, bem como namoradas e namorados do pai, faziam parte do convívio dele. Ele sabia que as pessoas podiam ser hetero, ou homo, cis ou trans. Sempre foi ensinado que a subjetividade individual deveria ser respeitada”, explica.

https://www.instagram.com/p/BwGFi4dnmNR/

Os termos certos

Para Sue Ellen, é essencial que a criança seja ensinada desde cedo sobre termos que remetem à diversidade, mas com a preocupação de respeitar a idade que a criança tem.

“É importante lembrar que o Pablo usa rosa porque quer, tem cabelo longo porque quer, mas também é hetero e monogâmico porque quer. Ele sabe verbalizar sua identidade com clareza. Aos cinco anos, ele me disse: ‘mãe eu acho que sou hetero e monogâmico, parece que dá muito trabalho ter mais namorados’. Outro dia disse: ‘ah, é um amigo da minha mãe que não se identifica com o gênero biológico’.

Na criação de Pablo, a mãe também é contrária ao que chama de “bobalizar” o diálogo. “Se você usa as palavras como usaria com qualquer outra pessoa, sem bobalizar, a criança será capaz de usar conceitos complexos sim. Aos dois anos Pablo dizia palavras como “foi um alvoroço”, que ele pronunciava “foi um alrroroco.”. Não se subestima a capacidade de entendimento de uma criança – é uma forma de alienação”.

Além do diálogo, ela também acredita que é primordial levar o filho para ambientes em que a pluralidade é trabalhada, como saraus, paradas, passeatas e ocupações. Para ela, esse é o caminho para que Pablo consiga compreender a diversidade do mundo como algo normal e positivo.

Como lidar com os outros?

Mesmo que seja esperançoso ver uma criança sendo criada dentro da diversidade, para que futuramente ela não reproduza discursos e atitudes preconceituosas, essa não é a realidade da esmagadora maioria das famílias.

Ao se deparar com uma situação de homofobia, por exemplo, Sue Ellen tem o cuidado de ajudar Pablo a entender quando compensa insistir no diálogo para o crescimento do outro e quando é melhor focar na própria vida e seguir em frente. “É importante ajudar uma criança a saber deixar pra lá também, abandonar uma batalha vazia não significa perder a guerra, mas ter sabedoria para escolher que lutas que vale a pena lutar”. 

Em momentos em que é preciso se posicionar contra a descriminação que pessoas LGBTs sofrem, a fala de Sue Ellen é forte e muito pontual sobre quem ainda vive imerso no preconceito. “Eu sinto muito por essas pessoas [que discriminam LGBTs], por sua ignorância, seu amor colonizado. Sua crença, muitas vezes, que é pela coerção e violência que se educa. Porque se eles são tiranos da subjetividade do outro, também são das próprias. Viciados em serem exemplos. E peço, por favor, para que nos deixem vivos”. 

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