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Isto não é amor

Um affair só é divertido quando não o confundimos com um relacionamento amoroso. Para nossa editora e colunista Liliane Prata, é importante definirmos para nós mesmas o que não é amor

Por Liliane Prata Atualizado em 28 out 2016, 10h21 - Publicado em 3 fev 2016, 18h25

Todo mundo fica mal-humorado às vezes ou tem um dia ruim no trabalho. Mas tem gente que surpreende quando está de bom humor. Quando está com as emoções mais ou menos sob controle (mais ou menos, né, porque não vamos exigir muito dos colegas seres humanos). Quando temos um chefe assim, é muito desgastante. Quando temos um parente assim, morremos de preguiça de visitá-lo. E, quando é o nosso parceiro amoroso que é assim, é…

Espera.

Amoroso? Amor? Sei não.

Na faculdade, eu e meus colegas sempre comentávamos que as discussões de filosofia que duravam mais de dez minutos acabavam virando discussões de linguística. Com as relações amorosas, é a mesma coisa. Para não nos perdermos no meio do caminho, o melhor é decidirmos que palavras significam o quê quando o assunto é amor. E mau humor permanente não é a única característica que compromete o vocábulo  há outras coisas em jogo. Com vocês, o meu dicionário amoroso:

Se eu me sinto pisando em um campo minado a cada vez que tenho uma novidade para contar, um plano para dividir, uma notícia para dar, e fico tensa como se estivesse para entrar não nos braços do meu amado, mas na reunião mais complicada do ano… Se qualquer coisinha vira uma discussão complicada e interminável… Para mim, não é amor.

Se eu nunca sei quando posso contar com ele, porque ele desaparece sem mais nem menos e de repente volta como se nada tivesse acontecido, não é amor.

Se ele não tem a menor preocupação ou cuidado comigo quando estou triste, não é amor.

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Se a comunicação não flui, é truncada, difícil e cheia de acusações, não é amor.

Se os olhos dele não se alegram com o brilho dos meus quando algo de bom me acontece – se, ao contrário, algo bom que me acontece é motivo para que ele se sinta por baixo e comece uma verdadeira competição comigo para ver quem é o melhor… Não é amor.

Se, na maior parte do tempo, eu me sinto mais em queda livre do que flutuando, não é amor.

Se o outro costuma descontar em mim seus momentos ruins, seus problemas mal resolvidos e sua dificuldade em lidar com as pequenas e grandes frustrações da vida, então o sentimento envolvido não é amor. Eu é que faço isso? Bem, eu não o amo. 

Aliás, se eu me sinto mais insegura, nervosa, tensa, angustiada ou simplesmente infeliz quando me separo dele e vou cuidar das minhas coisas, o que está dentro de mim não é amor.

Pode até ser um affair, vai. Os affairs, às vezes, fazem a gente sofrer – são bons, ao mesmo tempo que são ruins. Como a paixão. Como os tórridos romances de verão – que podem, inclusive, brotar na primavera, no verão ou no outono. Pode ser uma paixonite fugaz. Em todos esses casos, o sexo (incrível) e os altos e baixos (viciantes) acabam fazendo a gente relevar os defeitos e as imaturidades do outro  e as nossas próprias. Quem nunca?

Mas, se confundirmos com amor, tudo desanda e perde a graça. Porque aí, em vez de affair, de caso, de paixonite sofrida, mas interessante, sexual e visceral… Aí temos simplesmente um romance da pior qualidade, um engodo, um relacionamento tóxico, um namoro que não nos acrescenta, só nos suga, um casamento triste, uma versão distorcida do sonho de encontrar alguém bacana, uma tentativa de companheirismo falha, falsa e sofrida. Amor é que não é. 
 
Não confundamos as coisas: é difícil definir o amor. Mas é bem mais fácil reconhecer o que o amor não é.

Liliane Prata é editora de CLAUDIA e assina esta coluna toda quarta-feira. Para falar com ela, clique aqui!

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