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Hoje e amanhã

A atriz Taís Araújo compartilha a nova rotina, medos e incertezas durante a quarentena

Por Taís Araújo* Atualizado em 5 ago 2020, 21h13 - Publicado em 3 Maio 2020, 09h00

Estou no 29º dia da quarentena. É domingo de Páscoa e também o momento mais difícil pra mim durante todo esse tempo. Não sei se é porque é Páscoa, mas acho que não. Deve ser pelo acúmulo mesmo. Até dois dias atrás estava levando tudo muito bem. Tenho dois filhos, um menino de 8 anos e uma menina de 5, um marido e um cachorro. Estamos bem e somos absolutamente privilegiados. Moramos numa casa com espaço suficiente para todos nós, temos comida na mesa, saúde. Tudo certo! Era para só agradecer a Deus, ajudar ao próximo, rezar por nós, pela população brasileira, pelo planeta e esperar passar.

Mas quem disse que tem regra? Isso aconteceria se eu não fosse gente, se um coração não batesse no meu peito. Nesse 29º dia, me sinto com medo e com saudade. Medo de que esse período difícil não passe. Saudades dos meus pais, da minha irmã, da minha família, dos meus amigos, do meu trabalho, da minha vida. Saudades de mim, da mulher que eu sou. Ou da mulher que eu era? E que mulher eu serei daqui pra frente? Bom, aprendi muitas coisas. Sei fazer de tudo dentro de uma casa: lavo banheiro, lavo cozinha, lavo roupa, lavo quintal. Faço tudo mesmo! O trabalho braçal de cuidar diretamente da casa se tornou um tipo de companheiro nesse período. Ajuda a passar o tempo e me sinto útil. Meu motor é me sentir útil, isso faz eu me sentir viva! Ao mesmo tempo, não tenho outro assunto, só penso nisso. Acordo pesquisando na internet: “Como dobrar lençol com elástico?” ou “Como tirar mancha de madeira?”, “Como limpar direito um banheiro?”, “Como tirar manchas de roupas?”. E, sinceramente, dentro desta casa esse assunto só interessa a mim. Eu me sinto até constrangida em dividi-lo com meu marido. E olha que ele divide os afazeres comigo, tá? Só que antes falávamos de cinema, autores, política, notícias… Bom, não tenho lido as notícias, optei pela alienação parcial. Acho que estarei mais saudável assim. As notícias e a contabilização de contaminações e mortes me adoecem.

Tenho tido mais tempo para estar com meus filhos, o que é ótimo e, por outro lado, desafiador. Eles têm me ensinado muito. São compreensivos, amáveis, bagunceiros, saudáveis. Quando me vejo irritada com eles, brigo, já agradecendo pela saúde de ambos (mas me deixo ficar irritada também). Temos conversado muito, e hoje eles me viram chorar, me perguntaram o por quê. Eu não quis dizer de imediato, mas depois dividi com eles a minha tristeza e os dois me acolheram. Foi lindo. Fiquei aninhada com eles e foi reconfortante. Não serei a mesma pessoa depois disso que estamos vivendo. Tenho pensado demais, chorado demais, tido raiva demais, rido de menos. Não está fácil! Talvez hoje não seja o melhor dia pra escrever esta coluna. Não estou tão otimista como de costume, é difícil até me reconhecer, mas essa pessoa também sou eu. Quando penso na situação do nosso povo e na irresponsabilidade de alguns governantes, me arrepio e choro mais um pouco. Que situação! Queria mesmo ter algo melhor pra dividir, dizer que tenho altas indicações de livros ou séries, mas só sei indicar misturas para limpar a casa. Queria falar sobre lives, mas tenho feito pouquíssimas e assistido a menos ainda. Queria dizer algo além, mas só consigo dizer: cuide-se. Meu maior desejo hoje seria dar um abraço em você que está lendo esta coluna e, olhando no seu olho, falar: “Que bom que acabou!”.

 

*Taís Araújo é atriz

 

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