Filhos que não aceitam uma mudança para o exterior: deixá-los com os avós é a solução?

A diferença de gerações faz os avós tratarem os netos com condescendência. Pense bem antes de aceitar que seus filhos morem com eles por não aceitarem mudar de cidade ou país.

Foto: Getty Images

Meu marido recebeu uma ótima proposta para trabalhar no exterior, mas meus filhos, de 11 e 14 anos, se recusam a mudar. Deixá-los com os avós é uma alternativa? (Pergunta enviada por leitora)

À primeira vista, entregar os filhos aos avós parece a solução perfeita. Seus adolescentes estariam bem cuidados e manteriam as atividades e o grupo de amigos. Os avós não seriam privados da convivência com os netos. E você e seu marido pilotariam a situação à distância, com o bônus de encarar o reinício de vida em outro país sem preocupações com os garotos. Na realidade, porém, é grande o risco de conflitos e prejuízos ao desenvolvimento deles.

Para começar, a relação com os avós tende a se desestabilizar rapidamente. Afinal, hospedar os netos em casa de vez em quando é bem diferente de tê-los como moradores. Haja energia para acordar cedo, mandar para a escola, dar carona, apartar brigas, arrumar a bagunça e tudo o que vem a reboque do convívio com um adolescente! Sem falar na pressão de tomar decisões e assumir a responsabilidade pela formação deles. Pior se os pais decidirem “teleguiar” a educação dos garotos. Aí, os avós provavelmente não farão direito nem aquilo em que acreditam nem o que os filhos esperam… e os netos irão manipular ambos.

Os adolescentes, por sua vez, seriam privados do confronto de opiniões e valores com os pais, fundamental para aprender a resolver conflitos, respeitar diferenças e afirmar convicções. Com os avós, esse capítulo fica de fora e cria-se uma condescendência em nome da “diferença de gerações”. A sensação de abandono é outro dano. No futuro, eles vão esquecer que quiseram ficar e cobrar a ausência dos pais. A situação pode até derivar para acusações e condutas de risco, como forma de chamar a atenção.

Manter a família unida evita essa bomba de efeito retardado. Chame os dois para uma conversa e explique que prevalecerá a decisão de vocês, pais, sobre mudar ou não. Reconheça que é natural ficarem chateados por se afastarem dos amigos, mas lembre a eles que, lá, também vão se enturmar e poderão alimentar os relacionamentos atuais por meio das redes sociais. Mostre que, às vezes, a realidade impõe caminhos que não coincidem com o que desejamos e que a experiência de morar no exterior, embora assuste, é enriquecedora e traz possibilidades de boas surpresas.

Se quiser (e puder) evitar uma ruptura brusca, você e seu marido podem ir na frente, para procurar casa e escola, e eles alguns meses depois. Não crie falsas expectativas, na linha do “se não gostar, quem sabe a gente dá um jeito”. É preferível ser sincera e enfrentar a cara virada, típica deadolescentes, com a certeza de ter feito a melhor escolha para vocês e para eles.

Fonte: Elizabeth Brandão, psicóloga clínica e professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
 

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