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“Espero que esses homens tenham uma filha”, diz vítima de estupro coletivo

Demora na coleta de exames, troca de delegacia responsável pelo caso e a vítima que segue culpabilizada.

Por Gabriela Kimura Atualizado em 21 jan 2020, 09h39 - Publicado em 30 Maio 2016, 08h37

A jovem carioca de 16 anos, que foi abusada por 33 homens na última quarta-feira (25) no Morro de Jacarepaguá (RJ), ainda vai enfrentar muito mais desafios antes de conseguir superar o traumático evento. No Fantástico desse domingo (29), foi possível ver as barreiras e como a cultura do estupro perpetua na sociedade.

A perícia realizada no vídeo divulgado por diferentes contas no Twitter e o colhimento do exame de corpo de delito terá um resultado, possivelmente, diferente do esperado pela população indignada. Isso porque ambos só foram realizados quatro dias após o crime, o que dificulta precisar com exatidão o emprego de violência no caso. No caso, ela estava desaparecida – e não tinha como ir à delegacia imediatamente após o ocorrido, além de ter sido drogada.

>>> Leia também: Cultura do estupro: antes de dizer que não existe, entenda o que significa 

O Chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro, Fernando Veloso, contou no programa que não é possível identificar evidências de sangue nas imagens divulgadas, mas que a equipe ainda trabalha para chegar à conclusão final do laudo. “Eles [os peritos] já estão antecipando, alinhando algumas conclusões quanto ao emprego de violência, quanto à coleta de espermatozoides, quanto às práticas sexuais que possam ter sido praticadas com ela ou não. Então, o laudo vai trazer algumas respostas que, de certa  forma, vão contrariar o senso comum que vem sendo formado por pessoas que sequer assistiram ao vídeo”, declarou Veloso.

Além disso, na sexta-feira (27) foi comunicada à imprensa a mudança de coordenação do caso. O então responsável era o delegado Alessandro Thiers, da Delegacia de Repressão aos Crimes de Informática (DRCI), que foi acusado pela advogada de defesa da jovem, Eloísa Samy, de constranger a vítima durante o depoimento e entrou com pedido de afastamento de Alessandro do caso.

Agora o caso está com a delegada Cristiana Bento, titular da Delegacia da Criança e Adolescente Vítima (DCAV), que está analisando as informações e avaliando a necessidade de retomar ou alterar os procedimentos já realizados. “Se houver alguma dúvida, vamos ter que requisitar a oitiva dela e ver uma forma de novamente ouvi-la. Mas eu acredito que não será necessário. Preciso analisar cada termo de declaração tomado. Estou vendo parágrafo por parágrafo e vou dar uma resposta. Vocês podem confiar”, afirmou a delegada durante a coletiva.

A vítima segue no Programa de Proteção A Crianças e Adolescentes Ameaçados de Morte (PPCAM), em um local seguro que não foi divulgado. Após a exposição nas redes sociais, ela diz compreender o motivo de muitas mulheres evitarem delegacias em casos de abuso sexual. “O próprio delegado me culpou. Quando eu fui à delegacia eu não me senti à vontade em nenhum momento. Eu acho que é por isso que muitas mulheres não fazem denúncias. Tentaram me incriminar, como se eu tivesse culpa por ser estuprada”, contou ao Fantástico.

Mulheres do país todo se mobilizaram em manifestações e apoio à jovem dentro e fora das redes sociais, que fizeram toda a diferença para ela. Ao final da entrevista, afirma que a única coisa que deseja para seus estupradores é “que eles tenham uma filha”. Nós desejamos justiça.

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