É preciso saber pedir no mundo corporativo

Nossa colunista Cynthia de Almeida alerta: o mundo corporativo não fala e não ouve a linguagem de sinais. Por isso, peça o que quer

Eu me lembro da expressão de desapontamento da garota de olhos faiscantes que entrou na minha sala e questionou: “Por que você não me escalou para essa cobertura que eu queria tanto e preferiu passar para outro repórter?” Levei um susto. Não sabia, por um instante, o que responder: por que mesmo eu não havia dado a tal pauta para aquela repórter brilhante? Aí me lembrei: porque não fazia a menor ideia de que ela a “queria tanto”. E o “outro repórter” viera até mim na véspera especialmente para me pedir para fazer o trabalho. Respondi: “Ele me pediu”. Os olhos da garota faiscaram um pouco mais, desapontados. E ela ainda ficou ali argumentando que tinha certeza de que eu sabia que ela queria, que já demonstrara muitas vezes que aquele era o tipo de assunto com o qual se identificava, que merecia, que não era justo etc. e tal.

Mesmo assim, admitiu, não pediu. E não levou. E eu conto essa historinha dos meus tempos de diretora de redação para começar este ano com a série “coisas que as mulheres devem aprender a fazer na carreira”. Saber pedir é uma delas. Básica. O ponto zero da negociação, a partir do qual tudo o que queremos pode se tornar realidade.

O episódio com a repórter não foi o único da minha carreira. Para falar a verdade, enquanto aquela jovem me dizia que eu deveria saber o que acreditava ter deixado subentendido, eu pensava em mim e em quantas vezes agira da mesma forma. Em quantas vezes eu, muitas colegas e tantas mulheres que conheço praticaram, sem sucesso, a linguagem dos sinais e tiveram suas expectativas frustradas. O mundo corporativo não fala e não ouve a linguagem dos sinais. Parece óbvio, mas é difícil para as mulheres lidar com tamanha obviedade.

Por quê? O que nos impede de pedir com todas as palavras aquilo que queremos? Há muitas questões envolvidas nesse comportamento, e duas estudiosas do assunto, Linda Babcock e Sara Laschever, autoras de obras sobre a arte de negociar para as mulheres, acusam, para início de conversa, a nossa “implacável voz interior”. Na introdução do livro Ask For It – How Women Can Use the Power of Negotiation to Get What They Really Want (em tradução livre, “Peça – como as mulheres podem usar o poder de negociação para conseguir o que realmente querem”), elas reproduzem exemplos de frases que ouvimos desse ser intransigente que nos habita: “Você tem certeza de que é tão boa como pensa que é?” Ou: “Você não está satisfeita com o que já tem, precisa querer mais?” E ainda: “Cuidado, não seja insistente”.
Fica mais fácil responder para nós mesmas quando tomamos consciência da necessidade de pedir. Comece por praticar: “Sim, sou tão boa quanto me acho”, “Sim, quero mais do que já tenho”, “Não, não estou sendo chata ou inconveniente”.
Venceu a voz interior? Agora respire fundo e comece a praticar outra regra fundamental para quem faz um pedido: a capacidade de ouvir não. É muitas vezes por não suportar a ideia da resposta negativa que evitamos pedir. Não é fácil, ninguém gosta, mas, como tudo na vida, é treino, preparo, consciência. Se formos abatidas pelo não, jamais chegaremos ao sim. Requer uma boa dose de humildade, mas principalmente força e sabedoria. Aproveito para pedir: tente.

 

Cynthia de Almeida é colunista de CLAUDIA e escreve sobre carreira aqui no site toda terça-feira. Mande sua dúvida para ela!