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É possível treinar para ser feliz, diz professor de Harvard

Há cinco pilares que, quando equilibrados, trazem a sensação de realização: o bem-estar espiritual, físico, intelectual, emocional e nos relacionamentos

Por Isabella D'Ercole 10 set 2018, 11h52

O doutor em psicologia e professor israelense Tal Ben-Shahar atendeu o telefone para esta entrevista na oficina onde esperava o reparo de um pneu furado de seu carro. Foram necessárias algumas ligações até a conexão funcionar.

O combinado era falarmos sobre felicidade e comecei o papo com uma provocação: “Vamos discutir o tema justo hoje que você teve que lidar com esse tumulto logo cedo”. Aos 48 anos, Tal, como pede para ser chamado, carrega o mérito de ter dado as duas aulas mais concorridas da história da Universidade Harvard, nos Estados Unidos (onde também se formou) – ambas explicando o caminho para ser feliz.

Divulgação/Divulgação

Tirou de letra, portanto, o pneu furado, as ligações chiadas e me respondeu, tranquilo, que seus cursos não levam apenas a uma vida satisfatória, mas tornam mais resilientes os alunos que frequentam os encontros. “Para conhecer a felicidade, a tristeza também precisa ser familiar”, lembrou o professor, que desembarca este mês em São Paulo para o Global Access Through Education (G.A.T.E.), seminário internacional sobre educação.

CLAUDIA: Há uma corrente forte atualmente que defende a busca constante pela felicidade. É possível alcançar esse estado frequente de satisfação?

Tal Ben-Shahar: Vamos começar entendendo o que é felicidade. Não é estar sempre positivo, rindo. Essa é uma expectativa irreal e que acaba levando à frustração porque é inalcançável. Não há só altos em uma vida prazerosa, mas também baixos como tristeza, decepção, inveja. Costumo dizer para meus alunos que existem apenas dois tipos de pessoa que não experimentam sentimentos negativos: os psicopatas e os mortos. Portanto, é ótimo sinal não acordar sempre naquele bom humor. Além disso, felicidade não se resume a sentimentos. Inclui ainda procurar e achar um propósito em qualquer área, seja na carreira, seja nos relacionamentos amorosos ou familiares etc.

CLAUDIA: Então a chave é não procurar a felicidade o tempo todo?

Tal Ben-Shahar:Perseguir a felicidade diretamente não é saudável. O melhor é fazer essa pesquisa de forma indireta, achar as pequenas coisas que trazem júbilo. Há cinco pilares que, quando equilibrados, trazem a sensação de realização: o bem-estar espiritual, físico, intelectual, emocional e nos relacionamentos. Em vez de querer o corpo perfeito, faz mais sentido depositar a felicidade em um exercício diário que traga deleite. Ou, no campo intelectual, em aprender algo novo todo dia, ir a uma exposição de arte, ler um livro, ver um filme. Não é o dia todo de euforia, mas aquele momento de puro prazer.

CLAUDIA: As redes sociais promovem essa falsa felicidade permanente, pois ali exibimos só o que é bom e damos a entender que não há momentos ruins. Qual o dano que isso provoca?

Tal Ben-Shahar: Eu não sou contra as redes sociais, mas acredito no uso moderado. Hoje, as pessoas estão viciadas. Há dois problemas nisso. Por um lado, você se sente inadequado o tempo todo, pois os usuários da timeline possuem um lindo sorriso, viajam, têm rotina perfeita; só você está de fora, lidando com o mundo real. De outro, as redes atrapalham justamente a vida social. As pessoas raramente se encontram hoje. E ainda não entenderam que ter mil amigos no Facebook não substitui aquele melhor amigo que frequenta sua casa. Nós, humanos, precisamos do olho no olho, do contato. Estamos solitários nessa trajetória virtual.

CLAUDIA: Você defende que o stress pode ser um fator positivo. Como?

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Tal Ben-Shahar: A reputação do stress é terrível, ele já foi citado até como um assassino silencioso. Mas a verdade é que, se encarado de outra maneira, é um estímulo e indica crescimento. Pense nesta metáfora: você vai à academia, faz exercícios e sente dor muscular no dia seguinte. Que bom! Sinal de que está evoluindo e o corpo respondendo. No stress psicológico é a mesma coisa. Se puder descansar entre os episódios mais pontuais, conseguir relaxar a cabeça e não enxergar aquilo como sentença de morte, não afetará sua vida. Claro que você não vai achar uma delícia se irritar, mas pode olhar com maturidade. “Poxa, estou estressado, mas tudo bem, vou lidar com esse fato e não me deixarei ser afetada a longo prazo.”

CLAUDIA: Devemos ensinar essa visão aos nossos filhos desde pequenos?

Tal Ben-Shahar: Os pais têm responsabilidade na criação, muito do jeito de encarar o mundo vem de casa. Mas a escola também precisa fazer sua parte. Defendo que os currículos contenham matérias para nos ajudar a levar uma vida mais feliz e recompensadora. Devemos ter não só matemática e redação mas também aulas de resiliência, de como criar e manter relações saudáveis.

CLAUDIA: Ter um ambiente familiar acolhedor e amável quando criança é um diferencial para um futuro feliz?

Tal Ben-Shahar: Não. É claro que é melhor ter uma infância protegida, mas não significa garantia de uma vida adulta plena. Temos mais controle sobre a nossa felicidade do que imaginamos. Isso é bom e ruim, pois podemos mudar as coisas e superar medos, mas também sentimos culpa pela responsabilidade.

CLAUDIA: Cursos e livros que ensinam a ser feliz funcionam de verdade?

Tal Ben-Shahar: Apenas se você estiver disposto a colocar as lições em prática. Felicidade exige comprometimento e ação.

Tal Ben-Shahar vai participar do G.A.T.E, evento internacional de educação que acontece em setembro. No dia 14, das 12h às 20h; no dia 15, das 10h às 20h; e no dia 16, das 11h às 20h.  O evento será no terceiro piso do Shopping JK Iguatemi, em São Paulo. Para se inscrever, clique aqui.

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