Dúvidas e impasses entre pais separados sobre como presentear os filhos

O filho bate o pé. A mãe se nega a fazer sua vontade, mas o pai aparece com o presente: como resolver esse impasse entre pais separados?

Os filhos não podem se transformar em objetos de barganha e de competição
Foto: Getty Images

A criança pede um presente, a mãe, recém-divorciada, nega. Mas o pai, para conquistar o afeto do filho, acaba cedendo. Esta cena é muito comum entre as famílias modernas.

Sem perceber, pais e filhos se ajustam a essa relação viciada e o único vínculo acaba sendo o do pedido e da compra. A desvantagem desse acerto é que pode dificultar a compreensão de que nem sempre é possível ter o que se deseja. Além disso, o pai se arrisca a entrar em confronto com a mãe, preocupada em ensinar seus filhos a valorizar o que possuem.

Nada substitui o afeto

A psicóloga Jacy Bastos Torres Lima, uma das coordenadoras do Grupo de Orientação de Descasados (Godes), de São Paulo, diz que por trás dos brinquedos novos pode se esconder a culpa. “Eles tentam compensar o sofrimento causado aos filhos pela separação”, afirma. Para pais inábeis, presentear muitas vezes é uma forma de quebrar o gelo e cumprir a tarefa de conviver com os filhos e educá-los, ainda que por poucos dias. “O Pedro fica desajeitado quando está com as meninas. Não sabe o que fazer, aonde ir, não consegue encará-las para uma conversa séria sobre drogas ou sexo, nem mesmo perguntar como estão indo na escola. A solução que encontra é levá-las a um parque de diversão, ao cinema ou comprar presente”, explica Maria Rita.

Há ainda os que, por insegurança, ciúme ou para atingir a ex-mulher, disputam o amor dos filhos com a arma que possuem: o dinheiro. Na opinião da terapeuta familiar Anne Lise Silveira Scappaticci, de São Paulo, a principal razão que leva alguns pais a encher as crianças de presentes é a sua dificuldade de demonstrar afeto.

“É um círculo vicioso. Ele presenteia para provar seu amor e os filhos fazem os pedidos para estreitar o contato, mesmo que seja material.” Mas o brinquedo não compensa a pouca convivência, não ajuda a criança a construir um modelo masculino nem estabelece a relação de confiança indispensável ao seu crescimento. Além disso, não elimina a necessidade da presença do pai durante a adolescência, fase de busca de identidade. “O vazio provocado pela falta de alguém com quem se aconselhar reaparece logo que acaba a euforia da novidade”, explica Anne Lise.

Efeito passageiro

Os psicólogos explicam a essas mães que elas não devem se sentir ameaçadas. O prazer de receber presentes é passageiro em todas as idades. As crianças entendem que eles não substituem a presença, a atenção e o afeto.

De qualquer forma, os filhos não podem se transformar em objetos de barganha e de competição. “Ao se separar, marido e mulher continuam sendo pai e mãe. Têm de se unir para educar, impondo limites, dizendo não, servindo de modelo de homem e de mulher”, afirma a terapeuta Anne Lise.

Se a divisão de funções é equivocada – só a mãe estabelece o limite e o pai apenas proporciona diversão e prazer –, a criança sofre as consequências, segundo a psicóloga Jeny Ferraz Martins, do Godes. Mas nada é tão grave quanto envolvê-la nas discussões do ex-casal. A mulher deve se recusar a participar da competição financeira e insistir com o ex-marido para ajudá-la a poupar a criança dos conflitos da separação. “É fundamental afastar os filhos desse campo de guerra.”

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