Devo levar meu filho ao terapeuta?

Os pais às vezes hesitam antes de marcar uma consulta. Mas, quando a criança sofre, é natural apelar para um especialista. O mais difícil é perceber os sinais do sofrimento não expresso em palavras.

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Há várias semanas, Théo, 5 anos, demonstra agressividade acentuada em relação aos coleguinhas do jardim-de-infância. A professora não aguenta mais dar bronca nele, pois parece que não adianta. Por fim, ela acaba chamando os pais de Théo para uma reunião e aconselha-os a levar o menino ao psiquiatra. Eles até tinham reparado na agitação do filho, mas a perspectiva de falar com um terapeuta não os deixa nada animados.

A hesitação dos pais

Apesar de a psicologia infantil ter se tornado assunto corrente, levar ofilho para se consultar com um terapeuta ainda não é um movimento natural. Em primeiro lugar, é preciso reconhecer que a criança talvez tenha um problema e que, para resolvê-lo, é necessária a ajuda de uma pessoa de fora – o que pode não ser fácil para o ego do pai ou da mãe aceitar. Depois, é preciso contar a história da família a um completo desconhecido, com todos os detalhes a respeito de coisas das quais ninguém gosta muito de falar.

Mas, como ressalta Gérard Poussin, psicólogo e professor de psicologia, na França, “ter uma conversa com um psicólogo nem sempre leva ao início de um tratamento psicoterápico”.

Consultar-se com um médico não significa obrigatoriamente estar doente. Uma consulta de controle, em caso de dúvida, permite aos pais compreenderem melhor seu filho. Além disso, quanto mais cedo um problema qualquer for tratado, maior a chance de ser solucionado com facilidade. E, com muita frequência, no caso de crianças, apenas algumas poucas sessões de terapia bastam.

A quem procurar?

Os primeiros interlocutores devem ser o pediatra ou o médico da família, principalmente para os lactentes e as crianças com menos de 3 anos, como aconselha Marie-France Le Heuzey, psiquiatra infantil. Esses profissionais são os mais aptos a aconselhar os pais e, caso haja necessidade, saberão orientá-los acerca do profissional mais adequado: psicólogo, psicanalista, especialista em psicomotricidade, ortofonista etc.

Às vezes, algum integrante da família desempenha papel importante. Pode ser o avô, o padrinho, a tia: como estão fora do núcleo familiar, talvez tenham a distância necessária para analisar melhor a situação e desvendá-la com mais facilidade. O psicólogo escolar também tem papel significativo. Disponível em muitas escolas, esse profissional recebeu formação em psicologia e, se não estiver apto a “tratar” as crianças, pelo menos vai poder orientar os pais.

A escolha de um terapeuta é sempre delicada. Então, é importante marcar reuniões com vários deles e se informar a respeito do método de trabalho de cada um. Os sentimentos da criança também são fundamentais: ela deve confiar no profissional.

Mas o que dizer a uma criança que será levada à terapia? “Em primeiro lugar, é preciso se assegurar de que ela está ciente de que alguma coisa não vai bem, que o comportamento dela mudou”, ressalta Gérard Poussin. Se esse não for o caso, deve-se ajudá-la a tomar consciência do fato: “Você briga sem parar e antes não era assim. Por isso, a professora tem de dar bronca e você fica triste. O homem com quem vamos falar só vai tentar entender, junto com você, o que mudou, e por quê” – foi o que os pais de Théo lhe explicaram.

Como é feita a terapia

Antes de qualquer trabalho terapêutico propriamente dito, o profissional se reúne com os pais e a criança para especificar os problemas e reconstruir o histórico familiar. Cada um expressa seu ponto de vista e, pelo simples fato de a família conversar na frente de uma pessoa de fora, mal-entendidos podem se dissipar – e isso também cria a oportunidade de uma reunião familiar.

Depois desses primeiros encontros, cujo número varia (em geral são dois ou três), o terapeuta propõe, se necessário, um “trabalho” com a criança. A presença do pai ou da mãe durante as sessões depende muito da idade da criança, mas também de sua vontade de ficar a sós com o terapeuta. Aos 4 anos, é mais fácil se expressar se a mamãe estiver junto; depois dos 7, geralmente ocorre o contrário. O mais comum é que a sessão seja semanal e dure entre meia hora e 45 minutos.

O conteúdo e a maneira como corre, claro, é bem diferente se o tratamento for feito com uma criança de 6 anos ou com um adolescente de 13. Mas, para o terapeuta, o objetivo é sempre o mesmo: ajudar o jovem paciente a exprimir suas dificuldades. Desenho, massinha de modelar e jogos são alguns exemplos de expressão que funcionam muito com crianças de 3 a 5 anos. É por meio dessas atividades que os pequenos se revelam e travam diálogo com o terapeuta. Dos 5 aos 7 anos, além de desenhos e jogos tradicionais, também são empregados alguns jogos de representação.

Depois dos 10 anos, só se usam desenhos e palavras. É bastante comum o terapeuta pedir à criança um pagamento simbólico – um desenho, por exemplo – para que ela compreenda bem que a terapia é um trabalho que tem como base uma troca.

Paralelamente a essas consultas, o terapeuta também pode reunir-se separadamente com os pais ou voltar a fazer sessões com toda a família em intervalos regulares para arrematar o processo. A duração total da terapia varia de acordo com a criança, as dificuldades que ela tem e, naturalmente, seu grau de cooperação.

Uma única sessão bastou para que o psicólogo compreendesse que a agitação do pequeno Théo era resultado de uma mudança de casa, sobre a qual os pais conversavam em segredo havia algumas semanas. Logo que a situação foi esclarecida, Théo retomou seu comportamento calmo.

Dê tempo ao tempo

Mesmo que os resultados demorem um pouco a aparecer, é importante deixar que o terapeuta trabalhe antes de consultar outro profissional (mais ainda se a criança se mostrar satisfeita). Isso porque, com frequência, mudanças de interlocutor fazem mais mal do que bem. “Na maior parte das vezes, a criança é mensageira de um sintoma que revela uma problemática familiar mal resolvida”, explica o psicanalista Gérard Sévérin. O objetivo da psicoterapia é tanto ajudar a criança quanto permitir à família que olhe para si mesma com outros olhos. Para isso, é preciso tempo para explorar os problemas e para que as coisas não expressadas se revelem.

Quando a criança não aceita a terapia

Será que dá para forçar um filho a ir ao terapeuta? Os pais adorariam que respondêssemos sim, já que desejam ter reconhecidos seu sofrimento, a legitimidade de sua inquietação e a necessidade de “curar” o menino ou menina. No entanto, a questão é complexa demais para ser respondida com um simples “sim” ou “não”. De acordo com Claude Halmos, psicanalista e escritora, a criança não pode fazer psicoterapia se não quiser. O profissional não pode fazer uma consulta com uma criança que se recusa a participar do processo porque o tratamento com alguém que está contrariado nunca dá certo. Para que a “cura psicológica” opere, não basta que o paciente precise da terapia: é necessário que a deseje também. Diferentemente de um remédio, que age sobre o corpo por conta própria – o antibiótico destrói os micróbios independentemente da nossa vontade -, a “cura psicológica” exige a participação ativa do paciente.