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Cynthia de Almeida: A questão é achar o ponto de equilíbrio

Nossa colunista fala sobre a maneira como lidamos com a raiva no ambiente corporativo, defendendo que é possível extravasar sentimentos negativos sem que o objetivo seja ferir alguém.

Por Cynthia de Almeida Atualizado em 26 out 2016, 11h07 - Publicado em 6 out 2014, 22h00
Cynthia de Almeida: A questão é achar o ponto de equilíbrio

“Profissionais capazes de manifestar hostilidade se saíram melhor”
Foto: Getty Images

Desde que o mundo corporativo passou por uma faxina de civilidade e o assédio moral e o bullying por parte de chefes ou colegas começaram a ser punidos com demissões, uma estranha calma parece reinar nos ambientes de trabalho. Estranha porque nem sempre é real ou realista. Com receio de que qualquer demonstração de indignação em tom mais exaltado seja confundida com um comportamento predador inadmissível, as pessoas estariam reprimindo “sentimentos negativos” no exercício de suas funções e forjando uma atmosfera artificial sem vigor que seria prejudicial aos resultados.

Essa análise polêmica foi trazida na reunião anual da Academy of Managent, entidade americana que conecta líderes empresariais e estudiosos acadêmicos. O nome do simpósio é atemorizante: “Em Defesa da Raiva”. Mas a intenção da discussão é boa. O objetivo ali não era promover o retorno do chefe sem limites e dos acessos de fúria nos escritórios, mas analisar, com base em resultado de estudos neurocomportamentais, o lado bom de extravasar os chamados sentimentos negativos – tão normais tanto na vida pessoal como na profissional. Pesquisas revelam que se expressar de forma inflamada – ou, para usar um jargão empresarial, “estressar um ponto” sem meias-palavras – pode levar a resultados mais sólidos do que os de quem é leniente e omisso só para evitar conflitos.

O argumento parece bom, e estudos apresentados no encontro mostraram que profissionais capazes de manifestar sentimentos de sofrimento e hostilidade se saíram melhor do que aqueles que os suprimiram. A questão é achar o ponto exato de equilíbrio. Se a “defesa da raiva” for mal entendida e mal aplicada, corremos o risco de um retrocesso enorme nas relações profissionais. Quem acredita que chefes sanguíneos são os que mais conseguem ganhos de produtividade costuma cair na armadilha de usar como exemplo pessoas brilhantes com atitude tirana que criaram empresas vitoriosas.

Com seu conhecido destempero, beirando a insanidade, Steve Jobs é o mais citado por quem defende o assédio moral como receita de sucesso. Esquecem-se de que não foram seus achaques – e sim seu gênio visionário – que fizeram o mito Jobs. O criador da Apple não é o único pavio curto a virar referência da conduta inadequada que funciona. Todos eles, porém, são exceções: pessoas excepcionalmente inteligentes costumam ter temperamento difícil, mas são mais raras do que chefes medíocres e raivosos que inspiram terror. Qualquer um que já tenha convivido com um gestor inspirador e seu avesso, o chefe estúpido, sabe a diferença entre uma sessão de humilhação e uma bronca bem aplicada. Como é complicado para os RHs definirem com normas de conduta onde termina a “raiva positiva” e começa a fúria nefasta, melhor evitar ambas.

É possível, eu acredito, entre pessoas inteligentes e times seguros, extravasar sentimentos negativos ou ter discussões exaltadas sem que o objetivo seja ferir alguém ou tornar a vida das equipes um inferno. Os japoneses, contidos pela própria natureza, criaram as sessões artificiais de discussões inflamadas sobre um problema que está acontecendo. Quando o assunto é grave, empresas como a Honda convocam os times para uma reunião de bate-boca, na qual é permitido falar livremente e ter explosões de raiva sem culpa. Esgotada a questão, todos voltam para sua estação de trabalho, educados e amáveis, como sempre. É a raiva “positiva” com hora e lugar marcados. Será que o “raivódromo” japonês funcionaria por aqui? 

Cynthia de Almeida é jornalista e estudiosa do comportamento feminino.

Cynthia de Almeida: A questão é achar o ponto de equilíbrio Cynthia de Almeida é jornalista e estudiosa do comportamento feminino. Com passagens por várias redações da Editora Abril, está constantemente em busca de novas formas de investigar e entender a mulher contemporânea.
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