Como lidar com o celular nas escolas?

As instituições decidiram encarar o uso do aparelho em sala de aula. E as iniciativas passam longe da simples proibição.

Se nós, adultos, vira e mexe exageramos no uso do celular, a atração pela tecnologia é ainda mais grave em crianças e adolescentes, que têm o imediatismo e a dificuldade de autocontrole como características típicas da idade. “Dependendo do tempo de exposição, a utilização do aparelho pode afetar áreas responsáveis pelo raciocínio lógico, controle dos impulsos, memória e desenvolvimento da atenção”, diz o psicólogo Cristiano Nabuco, coordenador do Grupo de Dependência Tecnológica do Programa dos Transtornos do Impulso do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP. Não por acaso, no estado de São Paulo, uma lei proíbe os celulares nas escolas desde 2007. Brasil afora, existem regulamentações semelhantes no Rio de Janeiro, Paraná, Ceará, Rio Grande do Sul, em Minas Gerais e Pernambuco, entre outros estados.

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Nem sempre a proibição é respeitada, mas não se trata só disso: as instituições decidiram que não podem se fechar à tecnologia, sob o risco de se distanciar do mundo dos alunos e perder o interesse deles de vez. “Essas leis são um grande equívoco, pois partem do princípio de que é melhor proibir que educar. Hoje, até o discurso dos professores tem mudado, e eles já acham que dá para incorporar o aparelho”, afirma a educadora Luciana Allan, diretora do Instituto Crescer, em São Paulo. “Costumo brincar dizendo que não havia acidentes de avião no século 18 porque ele não tinha sido inventado. E ele não foi proibido quando acidentes começaram a ocorrer”, conta Renato Júdice, diretor do Colégio Elvira Brandão, que tem 112 anos de existência na capital paulista e, cada vez mais, vem se abrindo a iniciativas que incluem os celulares. “Precisamos aprender a usar a tecnologia e a conviver com ela em sala de aula.”

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(vejaa/ThinkStock)

JOGOS E RESTRIÇÕES
No Elvira Brandão, o uso pedagógico do celular se dá a partir do 6º ano em atividades como criar e testar aplicativos e produzir e editar vídeos e fotografias. No ensino médio, os jovens podem deixar o aparelho em cima da mesa, no modo vibratório, e são orientados a usá-lo com responsabilidade. A ideia é dar autonomia para irem se acostumando com as normas do mundo adulto por meio da vivência e da reflexão sobre as consequências de suas decisões. “Estamos dividindo a responsabilidade com eles porque acreditamos no aluno como protagonista. Saber quando usar, porque pode atrapalhar o coletivo ou o colega, também é uma aprendizagem”, pondera Júdice.

No igualmente centenário Colégio Dante Alighieri, também paulistano, há um comitê gestor formado por estudantes que, com a mediação de um professor, se reúne toda semana para discutir questões ligadas à tecnologia. O smartphone é pauta frequente nesses debates, que tratam de redes sociais e privacidade, entre outros temas. Como no Elvira Brandão, a partir do 6º ano, os alunos os utilizam em atividades pedagógicas e, no ensino médio, podem deixá-lo em cima da mesa. Entre os menores, o uso não é estimulado nem vetado. “Respeitamos a decisão dos responsáveis que preferem dar o aparelho, mas orientamos a explicar à criança o porquê dessa opção”, diz a professora Valdenice Minatel, coordenadora-geral de tecnologia.

Na Escola Municipal Dona Lula, em Curitiba, que atende alunos do 1º ao 5º ano, os professores usam os celulares para registrar práticas pedagógicas em fotos e vídeos. “O próximo passo é incorporar o smartphone em atividades pontuais, previstas no planejamento”, diz a professora Elizabete Aparecida Sola. Outro ponto de atenção da escola diz respeito à utilização responsável do aparelho. Uma vez, um aluno tirou uma foto de uma colega sem autorização e a menina ficou chateada. “Com o cuidado de não coagi-lo, explicamos que ele tinha exposto a menina e que aquele tipo de atitude tem consequências. Ele se desculpou”, diz Sola. A conversa terminou com uma série de combinados sobre o aparelho.

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(dolgachov/ThinkStock)

“Os celulares já estão presentes na rotina de todos. Usá-los em sala é uma estratégia de engajar o aluno em um processo de aprendizagem estimulante, que vincula os conteúdos curriculares a atividades e questões do cotidiano”, defende Carla Minozzo, da Fundação Vanzolini. A instituição é uma das idealizadoras do projeto Escola com Celular, que organizou uma formação para professores de diversas disciplinas das redes municipais de São Vicente e Caraguatatuba, no litoral paulista, com o objetivo de ajudá-los a inserir dispositivos móveis nas aulas. A tecnologia, afinal, está posta no mundo contemporâneo, e seu uso nas mais variadas esferas só tende a aumentar. Na escola, em casa e em outros ambientes, utilizá-la é uma questão de bom senso e criatividade.

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