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Como evitar os conflitos entre mães e avós na educação dos filhos

A primeira geração educada com regras menos rígidas chegou à idade adulta e teve os próprios filhos. Diferentemente do esperado, o conflito entre mães e avós em relação à educação das crianças se repete. Não precisa ser assim. Especialistas orientam sobre como encontrar o equilíbrio nessa relação.

Por Giuliana Bergamo (colaboradora)
Atualizado em 28 out 2016, 08h54 - Publicado em 15 jun 2015, 06h07

Quando nascem os filhos, surge com eles uma vontade imensa de estar por perto, protegê-los e participar da rotina diária, de sermos solicitadas e ouvidas – não importa a idade que tenham. Quando chegam os netos, esse desejo, em geral, se estende a eles. E, assim, as avós não só querem acompanhar de perto seu crescimento e se derreter diante de suas gracinhas mas também dar palpites em assuntos como alimentação, educação e saúde dos pequenos. Só que nem sempre as novas mães têm disponibilidade (e mesmo interesse) para ouvir os conselhos de suas genitoras. Hoje em dia, quem tem filhos não necessariamente recorre à própria família (e muito menos à outrora valorizada sabedoria das avós) quando há dúvidas sobre a criação dos pequenos. Médicos, psicólogos, livros, professores, amigos, a babá e até o Google e as redes sociais entram na concorrência. Com frequência, esse festival de opiniões arraigadas acaba gerando um primeiro embate entre as gerações.

Para completar, a dinâmica dos relacionamentos familiares mudou, os encontros se tornaram mais informais e menos constantes. O almoço aos domingos na casa da vovó, quando o vovô sentava à cabeceira da mesa, era o primeiro a ser servido e dava a última palavra sobre os assuntos mais polêmicos, não é mais sagrado. Os parentes se veem quando podem e querem, não por obrigação. “O problema é que essa nova organização das famílias tem produzido avós carentes, que se sentem preteridas por seus filhos”, diz a psicanalista Tania Zagury, autora do recém-lançado Filhos Adultos Mimados, Pais Negligenciados – Efeitos Colaterais da Educação sem Limites (Record). O ponto de partida do livro são 102 depoimentos de representantes da geração chamada de baby boomers, nascida entre meados das décadas de 1940 e 1960. Nos relatos, a pesquisadora percebeu que havia uma dissonância entre como eles esperavam ser tratados pelos filhos e como eram efetivamente. “Resolvi, então, escrever para a nova geração de pais como uma forma de mediar e melhorar esse diálogo e, além disso, fazer um alerta para que o problema não se repita futuramente”, afirma Tania.

Em tom de bronca de mãe, ela conta a seus leitores que os boomers são uma geração revolucionária. Foram às ruas em nome da liberdade de expressão, lutaram contra ditaduras, criaram o rock, estrearam a pílula anticoncepcional e, na mesma toada, ousaram educar suas crianças de maneira muito diferente daquela como foram criados. O diálogo substituiu as regras rígidas e as ordens incontestáveis. Os olhares aterrorizantes perderam espaço para abraços e colo (mesmo quando os rebentos faziam algo de errado). O castigo e a palmada foram (quase) banidos. “Mas eles não sentem, porém, que tamanha dedicação tem voltado para eles e, por isso, lamentam”, completa. No lugar de agradecimento, o que veem é menos envolvimento com a família de origem e mais necessidade de afirmar a própria autossuficiência.

O conflito que está em curso hoje não é algo pontual e apenas contemporâneo. É resultado de um processo que começou lá atrás, ainda na Revolução Francesa, com a gradual redução da autoridade paterna. “Temos observado que o núcleo de poder nas famílias lentamente migrou para a criança. Mais do que isso: esses núcleos passaram a se organizar em torno do amor pelos filhos”, explica a pesquisadora Marcia Neder, autora de Déspotas Mirins: O Poder nas Novas Famílias (Zagodoni Editora). Faz parte desse movimento, por exemplo, a crescente (e às vezes exagerada) preocupação com a felicidade e o bem-estar dos pequenos, a ambição por tornar o ambiente doméstico sempre o mais acolhedor possível, de protegê-los a todo custo e, sobretudo, garantir que sejam muito amados – todas essas ideias inexistentes décadas atrás. “Os pais não sentiam uma obrigação particular em fazer seus filhos felizes. Torná-los obedientes e diligentes, sim; prover educação moral, definitivamente; mas a felicidade não fazia parte dessa equação”, escreveu Peter N. Stearns em seu livro Childhood in World History (“Infância na história mundial”, em tradução livre), em referência ao século 18.

As primeiras crianças educadas como o centro da família, nas décadas de 1970 e 1980, são os pais de hoje. Ora, se lhes foi ensinado que seus desejos e suas necessidades eram de suma importância, que a opinião dos mais velhos poderia ser discutida, é natural que, uma vez crescidos, dessem menos valor às ideias dos próprios genitores e buscassem outras fontes de informação. Não colocar os pais no Olimpo, mas ter com eles uma relação quase de igual para igual parece coerente. O problema são os excessos. “A centralização exagerada da família em torno da criança merece muita atenção e não é boa para ninguém”, avisa Marcia Neder. Segundo ela, quem atende todo e qualquer pedido dos pequenos está, no fim das contas, confundindo amor com submissão. E, diferentemente do que espera, corre o risco de criar filhos individualistas, pouco independentes e com dificuldades de se colocar no lugar do outro. Foi, aliás, o que Tania flagrou em casos extremos de adultos que, como diz o título de seu livro, por terem sido tão mimados, agora negligenciam a atenção que dedicam aos pais. Há situações como a da mãe que descobriu que o filho não atende suas ligações quando reconhece o número de telefone dela.

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Qual a chave para não chegar a tal ponto? Como criar as crianças de hoje com afeto sem perder a autoridade ou diminuir o respeito pelos pais? Basta, segundo os especialistas, aproveitar o que de melhor as gerações passadas nos deixaram como legado de modelos de educação, sem medo de frustrar os filhos ou por eles não ser querida. Meninos e meninas merecem e devem ser amados e felizes, mas isso não significa ter seus pedidos atendidos o tempo todo. Pelo contrário: eles demandam controle, regras e ordens e ficam mais seguros quando têm adultos que os conduzem com firmeza pelo caminho que julgam ser o mais correto. “Amar uma criança profundamente é também desagradar-lhe às vezes ao impor certos limites, ao fazer valer regras claras, ao exigir respeito e, sim, obediência”, defende Marcia. “Toda boa mãe tem que ser um pouco bruxa de vez em quando.” E quanto aos avós? Bom, cabe a eles reivindicar seu espaço sem invadir a individualidade e a autonomia que tanto batalharam para incutir nos próprios filhos, que agora são pais também de crianças, que precisam ser devidamente amadas e educadas.

Sem brigas!

Especialistas dão o veredicto técnico sobre as questões que mais causam divergências entre mães e avós

1. Aleitamento

AS MÃES: Em geral, dão muita importância à amamentação e, com frequência, desejam prolongá-la até os 2 anos.

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AS AVÓS: Desde cedo aconselham a oferta de chás e água. Por volta dos 3 meses, incentivam a introdução de frutas e outros complementos, como fizeram com seus filhos.

PALAVRA DOS ESPECIALISTAS: Tanto a Organização Mundial da Saúde quanto a Sociedade Brasileira de Pediatria recomendam que o bebê seja amamentado exclusivamente no peito até os 6 meses. Só então outros alimentos ou líquidos devem ser oferecidos.

2. Peso

AS MÃES: Estão mais de olho no excesso de dobrinhas dos pequenos e tentam evitar que comam doces e comidas gordurosas.

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AS AVÓS: Acham bonito que as crianças sejam roliças e, como adoram agradar a elas, insistem para que comam bolos, balas e chocolates.

PALAVRA DOS ESPECIALISTAS: Os pediatras estão atentos ao peso das crianças. E o ideal é que elas demorem para ingerir açúcar processado – nesse ponto as mães estão certas. Mas não é preciso ser radical. Um docinho de avó, às vezes, não faz mal. Mas só às vezes.

3. Chupeta

AS MÃES: Tentam evitá-la ao máximo. Algumas nem incluem o item no enxoval dos recém-nascidos.

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AS AVÓS: São fãs da chupeta e defendem que seja apresentada ao bebê ainda na maternidade.

PALAVRA DOS ESPECIALISTAS: Estudos recentes mostram que ela pode causar problemas ortodônticos, fonoaudiológicos, respiratórios e até excesso de peso. Além disso, a necessidade de sucção pode ser resolvida com a amamentação. As avós, no entanto, têm razão quando defendem que ela acalma. Por isso, se usada com parcimônia, para o bebê sair de uma crise de choro, está liberada.

 

4. Idade para ir à escola

AS MÃES: Têm pressa em mandar seus filhos para a aula, com o objetivo de que se desenvolvam bem e rápido.

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AS AVÓS: Aconselham que as crianças fiquem em casa por mais tempo, têm medo das viroses e algumas até se oferecem para cuidar dos netos.

PALAVRA DOS ESPECIALISTAS: As avós têm razão. O bom convívio familiar dá conta do desenvolvimento infantil e ainda evita doenças em uma fase em que o sistema imunológico é imaturo. O recomendado é iniciar a escola aos 3 ou 4 anos. Sabe-se, porém, que essa às vezes é a única alternativa para que o casal possa trabalhar.

5. Tecnologia

AS MÃES: Veem com bons olhos o uso de gadgets tanto na escola como nas brincadeiras. E rotineiramente recorrem a eles para entreter as crianças.

AS AVÓS: Acreditam que há excesso no uso de dispositivos eletrônicos na rotina dos netos.

PALAVRA DOS ESPECIALISTAS: Dependendo da idade da criança e da forma como se utiliza a tecnologia, ela é salutar. Até os 3 anos, não há necessidade de estimular as brincadeiras com celulares, tablets ou computadores. A partir dessa idade, no entanto, os dispositivos podem ser até facilitadores da educação em sala de aula. 

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