Alexandra Gurgel: “Eu era gordofóbica comigo e com os outros”

A youtuber do canal Alexandrismos conta como é necessário vencer primeiro o ódio por si mesma. “Hoje eu estou liberta”, compartilha

De acordo com dados do Ministério da Saúde, 52,5% dos brasileiros estão acima do peso “ideal”. Os esforços institucionais e sociais, no entanto, não vão no sentido de acolher essa significativa parcela da população, mas de discriminá-la e estigmatizá-la.

Assim surge a gordofobia, que é o conjunto de opressões sofridas pela pessoa gorda. O preconceito muitas vezes se inicia dentro do núcleo familiar, em um misto de pressão estética e de desvalorização de quem está fora do padrão de beleza eurocêntrico.

Para além dos círculos sociais, a pessoa gorda também sofre discriminação que prejudica a carreira, a saúde e direitos como o de ir e vir pela cidade. Uma das bandeiras levantadas pela anti-gordofobia é sobre a mobilidade urbana, que constrange e exclui a população obesa com roletas, catracas, assentos e portas em tamanho reduzido.

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Consciente da importância de se discutir o tema, em prol dos direitos e da liberdade da população obesa, CLAUDIA apresentou, ao longo do mês de março, um especial sobre a gordofobia.

Nossa terceira e última entrevistada é Alexandra Gurgel, do canal Alexandrismos. Ela iniciou seu processo de autoaceitação e empoderamento há pouco mais de um ano, e já é hoje referência na discussão dos mais diversos temas que envolvem especialmente as mulheres gordas. Apesar do bom humor constante, a ativista não se furta a tocar em assuntos tão delicados quanto importantes, como a depressão e os outros transtornos psicológicos causados pela sociedade gordofóbica e machista em que vivemos.

Alexandra é uma militante do body positive: um conceito que abarca todas as pessoas, gordas e magras, mulheres e homens. Trata-se de olhar para os corpos sob um viés positivo, sem enxergar neles algo para se envergonhar, temer ou querer esconder. Aderir ao pensamento body positive é, sobretudo, se libertar e poder desenvolver livremente seu verdadeiro ser. 

 (Arquivo Pesso/Reprodução)

CLAUDIA: O vídeo mais visualizado do seu canal fala das obrigações esperadas/impostas à personalidade da pessoa gorda, como se ela sempre tivesse que ser engraçada ou simpática, por exemplo. Como você acha que isso afeta a vida e a autopercepção da pessoa gorda?
Alexandra Gurgel: Essa obrigação acaba fazendo com que a pessoa não seja quem ela é; ela se força a ser alguma coisa porque vê aquela saída. O jeito é eu me encontrar em algum desses estereótipos para conseguir ser aceita pelos outros, pelo meio em que estou, sem que o foco seja no meu corpo. É uma obrigação constante de você ter alguma qualidade que se destaque e que sobressaia ao fato de você ser gorda.

Eu acredito que isso é ensinado a todas as pessoas gordas, desde crianças. Eu não posso ser grossa, não posso ser antipática, porque já que eu não consigo emagrecer, eu sou obrigada a pelo menos me destacar em alguma coisa. Isso acaba criando outros estereótipos. Quando a pessoa é a gorda engraçada, ela é a amiga dos homens, que “não é mulher”, “é quase um homem”, sabe? Já ouvi isso várias vezes.

A minha vida foi afetada de uma forma em que eu não sabia quem eu era. Eu ficava forçando uma coisa inconscientemente e não desenvolvia quem eu era de verdade. Eu tinha que ser a pessoa rodeada de amigos, a engraçada, inteligente, carismática, criando piadas o tempo todo, porque era o que me satisfazia de alguma forma socialmente.

Por mais que possamos ser assim, a gente não sabe quem a gente é. Nós nos olhamos no espelho, no quarto sozinha, porque ninguém quis ficar com a gente na balada, nos querem só pra ser a engraçada da rodinha de amigos. Não é a primeira opção dos caras porque você é tratada como se fosse um homem, e aí você começa a chorar, e a pensar “quem eu sou?”. Por que as pessoas só me querem nesses momentos? Por que não me chamam para coisas sérias, por que eu não sou a pessoa escolhida para outras coisas? Então a pessoa acaba sendo excluída, mesmo que siga os estereótipos, saca? É um ciclo sem fim, até que você se perceba realmente e faça um movimento contrário, de se conhecer, saber quem você é e se empoderar.

CLAUDIA: O que leva uma pessoa gorda a se autodepreciar, a zombar de si mesma? 
Alexandra Gurgel:  Toda pessoa gorda que eu conheço já passou por uma situação de autodepreciação. Você cria uma barreira e às vezes nem sabe que está fazendo isso. Pra você não sofrer rejeição, você se rejeita primeiro.

Eu, por exemplo: no colégio a minha saída era ser engraçada. Porque claro que me zombavam, claro que praticavam bullying comigo, gordofobia, que eu nem sabia o que significava na época. Então eu acabava vestindo o papel de valentona, de engraçada. Eu sou uma pessoa engraçada naturalmente, mas eu me forçava mais ainda, e eu mesmo me zoava. Me apelidaram de Xandão no colégio e eu mesma me chamava de Xandão, e as pessoas pararam de me xingar porque não tinha graça, então eu vi que a saída era me depreciar.

É muito comum você falar para uma pessoa gorda que ela é linda e ela: “ah, até parece”. A pessoa tem dificuldade de aceitar elogio, porque passou a vida excluída de ser “normal”, então ela tem dificuldade de apenas ficar quieta e agradecer, porque ela não consegue acreditar nela mesma.

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CLAUDIA: Uma das coisas que achei mais bonita no seu canal foram os vídeos que incentivam o amor próprio, como a Maratona do Amor Próprio, com tantas dicas para cuidar de você mesma. Na sua trajetória, como foi a virada de chave em que você decidiu parar de lutar contra si?
Alexandra Gurgel: É engraçado falar da minha virada de chave, porque foi no Youtube. A minha ideia inicial de criar um canal era para ser autodepreciativa. Eu ia fazer coisas engraçadas, zoar o fato de ser gorda. E no terceiro vídeo do canal, Motivos para Namorar uma Gorda, eu fiz uma pesquisa. Entrei num site que fazia exatamente o que eu queria fazer: ele era de um cara gordo que se depreciava. A matéria que eu encontrei nesse site foi justamente “Motivos para amar um gordo”, e os motivos são horríveis, como “ela nunca vai te deixar, já que ninguém nunca gostou dela mesmo”.

Comecei a ler e chorar, porque me vi sendo a pessoa que pensaria aquilo tudo, mas eu era contra aquilo tudo. Chorando, eu pesquisei na internet: preconceito contra gordo. E vi a gordofobia, que eu nem sabia o que era. Então por causa do Youtube eu me desconstruí enquanto gordofóbica; eu era gordofóbica, comigo mesma e com os outros. Eu falei: peraí, eu não quero mais fazer aquilo, eu vou é lutar contra isso. Comecei a pesquisar, lutar e me empoderar nesse sentido. E eu tô falando de janeiro do ano passado.

Eu comecei a me olhar na tela e gostar mais de mim, me achar bonita, gostar do que eu estava vendo, e comecei a concordar com o que eu estava falando. Eu pensava “cara, o que eu tô falando faz sentido, vai ajudar muita gente, porque tá me ajudando”. Comecei a me ajudar. Você externalizar as coisas, se tratar, iniciar um processo de autoconhecimento, é preciosíssimo. E pra mim foi uma mudança de vida. É uma liberdade sem tamanho.

Eu gravei o Vem e se ama!, uma paródia com a música Deu onda, na praia, no final do ano passado, com um tanto de gente, gordo, magro, negro, branco, todo mundo. E depois eu sentei na cadeira, de biquíni, toda confortável, com um tanto de gente ao meu redor, e eu pensei: “Cara, em nenhum momento passou pela minha cabeça que alguém estava me olhando com julgamento. Eu estou livre. Estou liberta”. É aquela frase da Nina Simone: “liberdade pra mim é não ter medo de ser quem você é”. Eu não tenho mais medo, e é isso que eu quero levar para as pessoas, essa sensação de que você não é obrigada a nada e você pode tudo.

CLAUDIA: Outro desafio que pode ser enfrentado é a convivência e proximidade com pessoas que não são gordas – o famoso caso da “amiga magra” – e que nem sempre são sensíveis, empáticas ou informadas sobre a gordofobia. Como lidar com isso, considerando os sentimentos e as relações envolvidas?
Alexandra Gurgel: Uma pessoa magra chegar para mim e falar que tá gorda, é sacanagem, não é legal. Antes de eu me empoderar, eu ouvia isso e falava “não, miga, você tá bonita, que isso, gorda sou eu, olha o meu tamanho”. Mas agora, na segunda fase da minha vida, em que estou vivendo de verdade, me aceitando, amando, liberta de tudo isso, se acontecer eu vou falar: cara, você tá falando isso por quê? Você sabe que eu sou gorda, muito mais gorda que você, você quer que eu te elogie? O que você tá querendo com sua fala? Às vezes a pessoa nem percebe que fala isso. Porque lidamos com uma pressão estética também, que é uma ramificação da gordofobia para as pessoas magras, pessoas que estão próximas do padrão. Mas tem que conversar com a pessoa. É um desafio realmente.

Família também está no meio disso. Você tem que chegar pra família e falar: o que você está falando está me desrespeitando, eu sou assim e você está indo contra quem eu sou, então vamos maneirar no papo? Você quer entender meu lado, quer entender o que é gordofobia, quer entender o que eu sofro? Se a pessoa não quiser entender, não estiver afim, acabou, não tem como continuar.

Eu tive muito problema com a minha família, principalmente com a minha mãe, que não aceitava o fato de eu ser gorda e de me empoderar enquanto gorda. Recentemente eu fiz uma tatuagem de uma mulher gorda pelada no meu braço, que no caso sou eu mesma, com o peito de fora, e minha mãe falou: Alexandra, eu não acredito que você tatuou uma gorda no braço, ainda mais pelada. Quer dizer que você vai ser gorda pra sempre? Eu pensei e falei: Qual o problema?

A partir do momento que a pessoa está faltando respeito com você, está te oprimindo, você fala com ela e ela continua, um beijo e um abraço. Eu falo muito isso também sobre pessoas tóxicas. Uma das maiores dicas que eu dou para quem está no processo de empoderamento, de autoaceitação e de amor próprio, é você rever quem está ao seu redor, quem está com você, incluindo família. É difícil, porque muitas vezes as nossas amigas mais próximas estão na nossa vida há muito tempo. E família pode ser que você tenha que morar junto, não possa se afastar totalmente. Mas podem ser pessoas que estão nos oprimindo, que não estão conseguindo entender o nosso processo, a nossa vida, e é preciso se afastar.

Você vai se sentir sozinha no início, vai querer voltar com aquela amizade… Mas vai ver que quando você está nesse processo, outras pessoas vão aparecendo, porque você vai ter uma outra vida, se relacionar de outra forma com outras pessoas. Ter uma rede de apoio, ter pessoas ao seu redor que te elevam a autoestima, que conversam com você, sendo gordas ou magras, homens ou mulheres, que vão te ajudar, é uma coisa que não tem preço. Elas não precisam concordar, mas elas te respeitam, elas são empáticas.

 (Arquivo Pessoal/Reprodução)

CLAUDIA: A solidão da mulher gorda também é um tema abordado por você. O que gera essa solidão e como vencê-la? 
Alexandra Gurgel: A mulher gorda é uma mulher solitária. Nós somos construídos numa sociedade patriarcal, machista, que ensina pra gente o que é de menina e o que é de menino, como cada um tem que ser, então a mulher tem que ser daquela forma: delicada, magra, bonita, para agradar o homem. No final das contas é isso, infelizmente.

Desde pequena a gente aprende que a gente não pode comer muito pra não ficar gorda, “você quer ficar igual aquela pessoa?”. Isso vem desde a nossa infância. Eu cresci achando que tudo que eu fazia era errado, e que eu deveria fazer alguma coisa para mudar.

Quando eu não mudo, quando sou uma pessoa fracassada por não ter o padrão estético instaurado na sociedade, eu me excluo. Dependendo a gente até tenta, eu já tentei. A gente passa por dietas restritivas, cirurgias bariátricas, lipoaspiração – como eu já fiz –, a gente toma remédio, entra em anorexia, bulimia – como também já aconteceu comigo –, a gente faz de tudo para se encaixar naquilo e não encaixa. Aí a gente se sente fracassada. Mas nós não somos fracassadas.

O meu vídeo da solidão da mulher gorda teve muito ódio, homens entrando no canal só para dar dislike no vídeo e comentando coisas horríveis. Uma pessoa comentou que “meu sonho é matar uma mulher gorda, mas como eu não posso fazê-lo, pelo menos eu vou humilhá-la”. Coisas desse nível bem baixo. “Emagrece que resolve”. Não é “emagrece que resolve”; emagrecer não vai resolver tudo que já sofri, tudo que já passei. Boa parte da minha vida eu passei achando que o dia que eu emagrecesse eu seria feliz de verdade; o dia que eu emagrecesse eu ia encontrar um homem para a minha vida; ia ser respeitada pelas pessoas, ia ser desejada na balada, ia poder usar um biquíni.

A gente tem que se perguntar o porquê das coisas. Por que sempre foi assim? Por que eu tenho que aceitar isso? Por que não pode ser diferente? Por que eu tenho que emagrecer para ser igual, para ser aceita? Começar a se questionar é muito importante.

Pra você vencer a solidão, primeiro: é só você que pode fazer isso por você mesma. É só você que pode iniciar o processo, que pode começar a se empoderar, porque o empoderamento é quando você se vê na sociedade e você se aceita nela. A partir do momento que você se livra da gordofobia e do ódio contra você mesma, você entende que você é um ser humano como todos os outros, que merece ser amado, aceito, porque isso é o mínimo. Pra você receber e poder dar amor aos outros, primeiro tem que ter dentro de você.

Vencer a gordofobia, a solidão, é entender toda essa construção, todo esse cenário, e lutar. E isso vai se expandindo pros outros, para as pessoas que estão com você, pros lugares que você vai, pras pessoas que te seguem no Instagram, pra tudo. Você prefere passar a vida inteira se odiando, solitária, ou passar a vida inteira lutando para ser quem você é, se empoderando cada dia mais?

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CLAUDIA: Para além de minar a autoestima e autopercepção, a gordofobia também é estrutural. Como você a vê agir?
Alexandra Gurgel: A partir do momento em que a pessoa gorda não é contratada porque é gorda, que existe um corte no sistema de concurso público para pessoas com IMC acima de 40, que eu não consigo passar na catraca de ônibus, que eu não consigo sentar na cadeira do avião, isso se torna um problema estrutural. A pessoa é vista como doente, como uma pessoa que não tem saúde. Ninguém quer saber do exame de sangue da Gisele Bundchen, de uma pessoa magra, mas a pessoa gorda pode estar andando na rua e alguém está pensando que ela é doente por ser gorda.

Eu tenho uma amiga que tem que fazer exames e não cabe na máquina de ressonância magnética. Ela tem que fazer exame de sangue em pé, porque não cabe na cadeira. Ela tem que fazer um exame pro joelho, e não tem hospital que aceite o corpo dela, então ela tem que fazer no haras, onde cavalo faz exame. Uma pessoa gorda não é aceita nem pelo obstetra. Ela não é aceita nos hospitais públicos! Não tem maca para pessoa obesa ter filho.

Essa amiga me contou que quando quebrou o pé, não tinha cadeira de rodas para obeso. Aí arrumaram uma cadeira de rodas para ela; a cadeira de rodas não entrava no hospital. Do que adianta? Se é doente, como é que você não consegue tratar o doente?

Como a gente luta contra isso? É a gente pesquisar, falar, ir atrás, se reunir, se unir. Ainda é um movimento que é muito desunido. Cadê a marcha de pessoas gordas na porta dos hospitais, com a menina gorda que não tem maca? Cadê as pessoas se reunindo para lutar pelos seus direitos? As pessoas tem que saber que gordofobia é crime.

 (Arquivo Pessoal/)

CLAUDIA: A gordofobia pode gerar quadros de depressão, ansiedade e stress nas pessoas que sofrem a discriminação. Seu canal aderiu à campanha do Setembro Amarelo – campanha de prevenção ao suicídio. Quais são as conscientizações importantes acerca desse tema?
Alexandra Gurgel: A conscientização necessária é entender que a gordofobia também mata. Olha tudo isso que está em volta da pessoa. As pessoas não tem noção do quanto as palavras podem ferir. Do quanto você não poder fazer uma coisa normal na sociedade, que é ir numa loja comprar uma roupa, fere. De como você não ser aceita pelas pessoas que você tem interesse, ou de não ser aceita num local de praia, de balada, ser mal vista, ser vista com olhos tortos, machuca.

A conscientização é necessária, entender a solidão, tudo que a gente passa, de onde vem tudo isso, e pelo menos ter empatia com a causa, com as pessoas. Eu fiz aquele vídeo porque eu já passei por isso, e também porque muitas pessoas me procuraram dizendo que não tinham mais motivo para viver. Eu precisei falar de alguma forma, de uma forma branda e leve sobre esse assunto, porque é um assunto muito delicado, difícil de falar… mas tem que ser dito.