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A tristeza e solidão de estar infectada e não poder abraçar quem ama

Paula Cristina Dias, de 31 anos, descobriu que está com Covid-19 e compartilha os desafios emocionais de morar com o marido, mas ter que se manter isolada

Por Colaborou: Gabriela Maraccini - Atualizado em 6 abr 2020, 15h30 - Publicado em 6 abr 2020, 14h00

Paula Cristina Dias, 31 anos, se vê em um momento delicado, de muita angústia e receio. Na última quinta-feira (2), ela foi testada positivamente para o Covid-19. Morando em Foz do Iguaçu, no Paraná, com seu marido, Joefferson Cosme da Silva, 29 anos, que não está com sintomas da doença, ela tem que se manter isolada dele. Mesmo estando angustiada e com medo, ela não pode abraçá-lo. “Você fica mais vulnerável, carente, com medo de morrer. Tudo o que você mais precisa é daquele abraço, daquele afeto, e você não pode ter.” Em entrevista a CLAUDIA, Paula compartilha seus medos, receios, mas também a sua determinação para superar o momento difícil e sair dele mais forte.

“Eu estava de férias e viajei para Jamaica, um local bacana, com praias, bebi muito, comi muito, me diverti bastante. Saí de Foz do Iguaçu no dia 14 de março, fui para São Paulo e peguei o avião de lá. Foi bem no início do surto aqui no Brasil. Depois de dois, três dias, começaram os burburinhos dos casos aqui no Brasil e isso meio que acabou com a minha viagem, porque eu comecei a ficar preocupada com a minha família. Até então, lá estava tudo tranquilo.

A companhia aérea cancelou meu voo. Eu iria fazer uma conexão em Lima, no Peru. Meu voo estava marcado para voltar no dia 22 de março e foi remarcado para o dia 2 de abril. E eu fiquei bem preocupada, pensando que teria que ficar longe da minha família. Procurei o pessoal do hotel para tentar estender a minha diária por alguns dias, mas eles também falaram que não podiam me garantir mais dois dias de estadia, porque o hotel provavelmente iria fechar, já que estavam fechando as fronteiras.

Então, me bateu o desespero. Pensei ‘E agora, o que fazer? Eu vou pra rua?’. Comecei a ver reportagens de pessoas no Peru que não tinham lugar para ficar, que estavam dormindo no aeroporto. Como na Jamaica tem muito turista americano, pensei que eles também teriam que voltar para os Estados Unidos. Então procurei amigos de lá para saber se o aeroporto não tinha sido fechado e se tinha voo saindo para o Brasil e, para a minha surpresa, fiquei sabendo que sim.

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Comprei a passagem de última hora e antecipei a minha volta para o dia 21. O voo fazia uma conexão em Nova Iorque e, de lá, eu conseguiria chegar ao Brasil. Eu não sei se fui infectada na viagem ou nos Estados Unidos, porque cheguei em Nova Iorque bem no auge e fiquei cinco horas no aeroporto de lá, depois mais cinco horas no de Guarulhos, em São Paulo, e, de lá, consegui comprar mais um voo para Cascavel, que é a duas horas de Foz do Iguaçu. Foi assim que eu consegui chegar em casa.

Arquivo Pessoal/Divulgação

Cheguei em 22 de março e no dia seguinte, uma segunda-feira, eu comecei a sentir os sintomas. Primeiro tive coriza no meu nariz e achei que seria só uma gripe, que a minha imunidade tinha caído porque fiquei 36 horas viajando. Só que no outro dia eu comecei a ter febre, dor no corpo e fiquei preocupada. No outro dia, perdi o paladar e o olfato. Fui atrás de fazer o exame. Agendei em um posto que montaram aqui em Foz. Na ocasião, o médico me tranquilizou dizendo que talvez seria uma gripe apenas e me passou alguns remédios com corticoide. Fui para casa me sentindo melhor, mas depois os sintomas voltaram mais fortes.

Parei de tomar o corticoide, pois vi que poderia causar efeitos contrários para o coronavírus. No domingo, dia 29, eu comecei a ter falta de ar. Quando eu respirava fundo, doía a minha garganta. Meu nariz não tinha mais coriza e eu tossia muito, tinha coceira na garganta e tive até diarreia, por um dia. A dor no corpo começou a ser diferente, a cabeça ficava mais pesada e os ombros também. Você fica muito para baixo.

O que mais me assustou foi ver as notícias sobre o coronavírus. Só tinha notícia de morte e isso foi me deixando bem mal. Agora, eu continuo vendo jornais e acompanhando as notícias, mas não vejo nada sobre mortes. Me apavorei quando fui fazer o exame e vi a falta de conhecimento dos médicos, a falta de preparo deles. Eles tinham dificuldade de preencher os formulários. É uma doença nova, então eles não têm conhecimento sobre ela. Isso assusta. Além do receio que todos têm de chegar perto de você. Você se sente muito isolada. Todo mundo fica com medo de você.

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Procurei trabalhar muito o meu psicológico. Antes, eu comecei a me afundar nesse pensamento de “eu vou morrer”, mas trabalhei a minha mente para pensar em coisas positivas. O resultado do exame chegou ontem, dia 2 de abril, e eu fiquei sabendo que eu estava realmente com Covid-19. Meu marido, apesar de ter tido contato comigo, não pode fazer o teste porque não viajou comigo e nem está apresentando sintomas. Agora temos que seguir restrições, ter menos contato, ficar distantes um do outro, não compartilhar objetos, talheres, toalhas. Eu fico no quarto, ele na sala. Ficamos até mais do que dois metros de distância um do outro, porque ele tem problema respiratório, tem rinite. A nossa maior preocupação é com ele. Ele que estava indo ao mercado e à farmácia. Agora ele não sai de casa mais para nada, porque pode estar assintomático e pode transmitir para as pessoas.

Arquivo Pessoal/Divulgação

A parte mais difícil é a emocional. Nesse período, você fica mais vulnerável, com mais carência, com medo de morrer, com medo de tudo. É o momento que você mais precisaria daquele abraço, daquele afeto. E não pode, né? É um momento em que você tem que ficar sozinha. Você e Deus. Eu não tenho como contar com meu marido, pois ele pode ficar doente. Eu não quero que ele se sacrifique sendo que ele pode ser infectado. Ter que ficar afastada, isolada, sozinha mesmo, é o maior desafio.

Ele, até o resultado do exame, estava bem forte, esperançoso de que não seria coronavírus. Agora ele tá meio triste. Mas estou tentando fortalecê-lo, avisando que vai ficar tudo bem. Outro medo nosso é em relação ao nosso trabalho. Estamos de home office, mas não estamos vendendo. A cidade está toda parada. Nenhum comércio está aberto. Estamos preocupados com o tempo em que vamos ficar sem fazer as nossas atividades. Mas estamos nos ajudando psicologicamente. Ele me ajuda e eu o ajudo nesse sentido.

Eu tento não me entregar à doença. Tem dias que eu quero ficar na cama, mas me levanto, todo banho e vou fazer alguma coisa. Não posso me entregar. Acredito que a melhora tem muito a ver com o psicológico. Estou melhorando dos sintomas desde que trabalhei a minha mente de forma positiva.

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Então, queria dizer às mulheres que estão passando pelo mesmo que eu para elas terem bastante força, pensamento muito positivo. Nós somos fortes e a única certeza que temos é que tudo isso vai passar. É um momento que temos que nos cuidar, quem tem mais força tem que se manter forte e transmitir essa força para a família, para nossos amigos e ter a certeza de que sairemos dessa bem mais fortes do que éramos antes e sabendo valorizar a nossa vida, a nossa saúde e a nossa família.

É um momento que temos que levar a sério. Não são só os grupos de risco que precisam se cuidar. Eu nunca tive problema de saúde, não estou na idade de risco e, mesmo assim, eu senti sintomas muitos fortes. Por um momento eu fiquei com medo de morrer. Temos que nos cuidar, não só por nós, mas pelas outras pessoas. Pelas pessoas do grupo de risco, pelos idosos. Temos que ficar em casa. Eu sei que não é fácil, mas é o melhor caminho. Ficando em casa, você está ajudando. Se previnam, se cuidem, sigam as orientações que é o melhor remédio.”

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