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A solidão das mulheres mais sozinhas

Veja quem são e por que (neste mundo de aparências tão livres) essas mulheres ainda sofrem tanto

Por Patrícia Zaidan - Atualizado em 28 out 2016, 06h58 - Publicado em 20 jun 2016, 16h46

Adivinhe quem ocuparia o primeiro lugar no ranking, se houvesse um “repulsômetro” para medir: 

1) O acúmulo de preconceitos contra uma pessoa 
2) O desrespeito ao seu comportamento afetivo e sexual
3) A rejeição por ela ser quem é
4) O grau de ofensas e violências sofridas 

Resposta: o asco da sociedade recairia sobre a mulher homossexual. Ela está no topo. E profundamente solitária na família, no trabalho, na escola. 

O ambiente digital reflete a reação de desprezo com muita clareza. No nosso portal MdeMulher, os vídeos A Gorda e o Gay, maravilhosamente conduzidos por Ju Romano e Lucas Castilho, têm 66% das visualizações de um outro qualquer. Já os que trazem lésbicas despencam para 12%. Os vídeos que envolvem homens homossexuais retêm a atenção de 48% da audiência até o final do conteúdo. Mas só 8% permanecem atentos ao que as lésbicas querem falar ou mostrar. Fotos de meninas se beijando quase não são curtidas; muitas vezes acabam ocultadas na página do Facebook ou recebem comentários de desaprovação e condenação sumária. 

Comecei a observar o escárnio no final dos anos 1990 ao conhecer a paulista Valéria Melki Buzin, psicóloga e ativista LGBT, que explicou: “Uma lésbica é considerada promíscua, alguém que cometerá abusos sexuais contra crianças e com quem não se deve contar jamais”. Em fevereiro passado, na conversa com Geni Núñes, 24 anos, psicóloga e feminista da nova geração, notei que quase nada mudou. Geni prepara seu trabalho de mestrado, na Universidade Federal de Santa Catarina, sobre o sofrimento psíquico de meninas lésbicas e bissexuais nas vivências domésticas “A pior coisa é a lesbofobia familiar, a incompreensão e perseguição dos pais e irmãos”, afirmou. “Os níveis de suicídio de lésbicas, bi e trans são muito elevados, se comparados ao de mulheres héteros”, lembrou. “Do grupo de risco – em termos de vitimização – que incluí os gays, elas enfrentam as mais sórdidas violências físicas e psicológicas.” Segundo a Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA), uma das violações é o “estupro corretivo”. Adota-se o coito bruto e animalesco para “corrigir” o “desvio sexual” e “ensinar” a mulher a gostar de homem.

A modalidade criminosa, fruto de misoginia e desigualdade de gênero ao quadrado, é pouco denunciada e, não raro, é praticada por uma turba de machos. Se a “sapata”, a “caminhoneira” for negra, o grau de agressões se amplifica. E se agrava, pois a mulata tipo exportação perde seu valor utilitário, foge da sua função social.
    
ARMÁRIO DE AÇO

Por que a sociedade tem se mostrado um pouco mais complacente com os garotos gays e nada com elas? 

Os gays tendem a ser leves, soltos, às vezes mais amorosos e companheiros da mãe – em relação ao restante da família hétero. Um outro motivo: o armário do menino é de vidro. Seus trejeitos, a voz afeminada ou o gosto pelas peças do vestuário da irmã vão, desde muito cedo, avisando os parentes sobre o que virá. Já o armário da menina é de aço; a família tranca e joga a chave fora. A garota não pode sair do modelo, tem que ser boa em tudo, tenaz como a mãe, suportar as dores e injustiças como as tias e anular os próprios desejos, como a matriarca do clã. Quando descobrem que a garota não cabe na fôrma feminina o mundo despenca, ela tem que fingir o que não é ou sumir da vista de todos.

A advogada maranhense Soraya Abdalla, 51 anos, criou sua Yasmin, 26, com laçarotes rosa em uma família árabe de tradições conservadoras. A filha chamou para uma conversa séria, anunciou ter uma namorada. “Uma bomba caiu em cima de mim”, contou Soraya, que tem ainda um filho. Sua admiração pela autenticidade e coragem de Yasmin, jornalista e estudante de ciências sociais, não deixou que o estranhamento durasse mais de 6 meses. Já está tudo entendido entre elas. 
Soraya traduziu a dificuldade das mães em admitir a homossexulidade das mulheres. “A gente aceita tudo do filho. Assim como o pai digere melhor o que ocorre com a sua menina. Acho que projetei em Yasmin coisas que desejei e não consegui construir.  Imaginava que os sonhos dela fossem similares aos meus. A menina é a imagem e semelhança da mãe. Queria que ela me desse os netos mais queridos e próximos e, no fundo, torcia para que encontrasse um marido que desse proteção a ela.”
Mais um lado interessante desnudado por Soraya: o bloqueio relacionado ao sexo. “Amo Yasmin e Raissa. Preparei um quarto para elas, recebo ambas como um casal feliz, mas ainda sinto desconforto em imaginar como se dá a relação sexual. Há muita fantasia e tabus enormes, que as famílias precisam vencer.” Por isso, Soraya se tornou defensora de casais que se beijam em público e são escrachados pelos incomodados. “Por que não podem amar como nós, os heterossexuais?” Essa é, de fato, mais uma privação de direito, uma forma de marginalizar o diferente.

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Quando tragédias como o massacre de Orlando acontecem, é bom lembrar que não é hora de abaixar a cabeça: é hora de lutar mais! Convidamos a Yasmin e mais mulheres para dividir os pensamentos delas com vocês. Em comum, a ideia de que NADA justifica a violência. Vem com a gente! #violenciaNUNCA

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LÉSBICAS SÃO FEIAS

Nenhuma mulher nasce pronta para ser mãe de gay, mãe de lésbica. Elas sofrem junto. Ana Lúcia Sousa, empresária, 51 anos, considera um aprendizado solitário. Ela se tornou parceira de Jessica Tauane, 25 anos, a famosa youtuber, criadora do Canal das Bee. Queria acompanhar todas as palestras que a cibermilitante faz, mas elas são inúmeras (uma por dia, em média), em colégios de freira, TEDx, organismos internacionais, ongs e salas lotadas do Sesc, de várias cidades. “Aceitei de cara a realidade da minha filha. Meu problema é o medo”, confidenciou. “Ela tem inimigos invisíveis. Sofro só de imaginar que alguém pode chegar e dar a notícia: ‘Mataram a Jessica’. Minha menina é muito preciosa, e o ódio aos homossexuais vem crescendo. Contra as garotas ficou ainda pior.” A empresária repetiu o pensamento geral que não é pronunciado: “Como uma menina pode passar da submissão à transgressão?”; “Quem essa sapata pensa que é para dar prazer a outra mulher?”. Para Ana Lúcia, o macho se sente esvaziado e diminuído quando vê que uma mulher desempenha o papel que ele julga ser sua exclusividade – e, às vezes, faz isso até melhor. Ana Lúcia estabelece ainda uma comparação semântica: “A palavra lésbica soa mal, é carregada de feiura, parece lesma, dá um nojinho. Já gay remete a corpo bonito, homem charmoso, cheiroso, significa alegria”. Com essa visão, ela acolhe trans, bi e homossexuais. “Gosto de conversar com elas, dar o colo e o carinho que não têm.”

Se há, como disse a mãe de Jessica, uma aversão crescente, não se pode esquecer que aos poucos a resistência anda se fortalecendo. Em maio, a Parada do Orgulho Gay de São Paulo trouxe no trio elétrico das Mães Pela Diversidade um número grande de familiares. Muitos deram entrevistas; e eles se reúnem para fazer militância. A cada ano aumenta o número de cartórios que convertem a união estável de lésbicas em casamento e juízes que assinam a adoção de crianças por duas mulheres que se querem. 

Quem ainda oculta da timeline a foto de duas amantes se beijando está demorando a rever o preconceito. E não deveria esperar ser mãe de gay ou de lésbica para, finalmente, entender que o amor dos outros não merece o ódio de ninguém.

#ViolênciaNunca

O M/Trends convidou algumas mulheres para darem seus depoimentos sobre as dificuldades que elas enfrentam para poderem ser quem são e amarem quem bem entendem. Em comum, todas concordam que nenhuma violência se justifica, e que o amor é livre demais para quererem impor tantas regras. Assista aos vídeos aqui!

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