“A fofoca é a arma dos fracos”, diz o escritor Leandro Karnal

Erudito mais pop do país, Leandro Karnal fala sobre os ex-pecados, a fofoca, a felicidade... E explica por que cita Shakespeare em seus vídeos.

Doutor em história, crítico da sociedade contemporânea, estudioso das religiões (embora ateu), Leandro Karnal é um hit no YouTube e no WhatsApp – quem nunca recebeu um vídeo ou uma frase dele pelo grupo da família? O sucesso vem de suas reflexões profundas ou seus comentários irônicos, na linha: “Hamlet não escreveria ‘kkkkkk’ nas redes sociais”. Apaixonado por Shakespeare, esse gaúcho de São Leopoldo, 53 anos, usa personagens do autor inglês para explicar as aflições da atualidade.

“Ser ou não ser, eis a questão” – célebre frase do príncipe da Dinamarca – permeia constantemente as incitações do professor da Universidade de Campinas, que precisou abrir a agenda para os inúmeros convites para conferências país afora sobre amor, ódio e crise ética na política. Suas palestras, pontuadas pela voz magnética, são cultuadas e fazem com que receba os paparicos que o público geralmente devota aos galãs da TV. O assédio parte de jovens, mulheres e celebridades, como Bruna Lombardi, Lázaro Ramos e Maria Fernanda Cândido. Talvez o traço sarcástico, quase satírico, mas adotado de forma tão sincera, seja o responsável pela conquista de mais de 500 mil seguidores só no Facebook. Autor de livros que galgaram o topo da lista dos mais vendidos, Karnal falou a CLAUDIA:

O que a obra de Shakespeare tem a ver com o mundo de hoje?
Tudo que ele escreveu é amplo e aberto. Shakespeare não discutiu só o amor em Romeu e Julieta mas também a possibilidade da paixão. O poder e o sentido da existência estão em Hamlet. O papel do dinheiro, em O Mercador de Veneza. A bobeira vaidosa da velhice, em Rei Lear. Tudo é muito contemporâneo. Somos nós que atualizamos Shakespeare. E ele dialoga conosco. Os clássicos funcionam como cidades: algumas, lindas, merecem só uma visita; outras, podemos rever todos os anos e tirar proveito. Shakespeare é uma cidade que precisamos reviver sempre.

Por que é importante aparecer feliz nas redes sociais mesmo sob crise, terrorismo e homofobia?
As coisas, em si, não são provocadoras de infelicidade. Vivemos o chamado mundo líquido, na pós-modernidade, onde perdemos a ideia da dimensão trágica da existência. Ela durou até a geração da minha avó. As fotos eram sérias, sem sorrisos ou explosões. Hoje, para conseguir emprego, ter amigos, estar presente no virtual e no real, você precisa ser otimista, dizer coisas divertidas e mostrar como sua vida é simpática. Quando isso não ocorre, interpretam que não está bem e deve ser medicado. Não que o remédio seja ruim. Mas tratar a tristeza é errado. Ela tem muita importância.

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A vida está glamourizada. Mais de 1 milhão de selfies são publicadas todos os dias. Fotografamos tudo. Por quê?
Eu é que tento tornar a vida glamourosa, mas, na verdade, ela está mais cafona e comum do que nunca. É a fraqueza do meu narciso, do meu ego, que me faz exigir dos outros o reconhecimento de que minha vida vale a pena, é legal. A rotina continua sendo feita de relações difíceis, educação de filhos – que às vezes são ingratos –, um Natal bom e outro pavoroso. Tentamos uma narrativa glamourizada. Ela, porém, não supera a angústia, maior hoje que no passado. Vejo fotos de bons restaurantes, viagens maravilhosas, famílias perfeitas e sou obrigado a pensar o óbvio: “Por que eu escolho o prato errado, minha viagem não dá certo e tenho problemas em casa?”. Na verdade, a família de todo mundo é semelhante, mas uso a narrativa do bem para mim e coloco o mal no outro. Para o filósofo Schopenhauer, essa é a forma de eu evitar minha dor.

As pessoas ouvem música, teclam no celular, comem na esteira da academia. Por que tudo ao mesmo tempo?
Perdemos o foco. Há uma diluição em um vaivém sem sentido. O budista considera a distração um dos venenos da alma. Entramos no elevador olhando mensagens, mesmo que levemos uma vida pacata. Parecer ocupado faz com que os outros nos respeitem.

Você diz que a vaidade não é mais um pecado. Ela virou virtude?

Parece-me que os sete pecados capitais foram ressignificados. Assumir-se com defeitos faz parte, hoje, de um discurso distante do desvio de caráter. Só um continua sendo vergonhoso: a inveja – apesar de sermos a civilização da inveja. O invejoso olha demais para as pessoas. Por isso, não se vê. Já a ira é a qualidade dos que têm energia e proatividade. Avareza, do bom investidor, controlador de gastos. Gula representa o que não se dobra aos ditames sociais. Luxúria virou uma boa resolução sexual. Preguiça traz a oportunidade de ócio criativo e relaxamento. O orgulho – ou a vaidade soberba – soa como autoestima. O orgulhoso, no entanto, tem um problema: a incapacidade de se avaliar. Como se considera em altíssima conta, corre o risco de errar mais. E pode ser controlado: basta elogiá-lo para fazer dele o que quiser, embora ele acredite estar no comando.

Qual a diferença entre a inveja e a cobiça? Existe uma inveja boa?
A cobiça é a vontade de ter o que o outro tem e pode ser positiva: para falar inglês perfeitamente, como ele, vou estudar. Já a inveja é a tristeza pela felicidade do outro. É não tolerar a alegria e o prazer de viver que ele demonstra. Não há mais valor na humildade. Aceitamos qualquer elogio. Autoestima é indispensável? Todos dizem que você tem que gostar de si mesmo. Ora, algumas pessoas não são “gostáveis”, não incorporam valores. Se você os tem, não se trata de exaltá-los, e sim de tomar consciência deles. O sucesso está associado à afirmação da vaidade. “Eu posso!” Essa é uma das coisas que critico na teologia do empreendedorismo. Há uma leitura religiosa de que empreender resolve tudo. Ali, os pilares são: “Você pode, consegue, basta querer”. Nem sempre o querer é suficiente. O esforço faz toda a diferença, embora não seja igual nem produza o mesmo resultado para todos. Como toda autoajuda, a valorização da autoestima leva a crer que querer é poder. Isso faria do ser humano um deus. Mas, para o homem, o querer é apenas o início da ação. E pode terminar em nada.

Há, então, uma manipulação dos autores de autoajuda?
A autoajuda é a filosofia possível para certas pessoas. É difícil saber se o “conselho a ti mesmo”, de Sócrates, é muito diferente de um livro desses. Mas a boa filosofia incomoda, não tranquiliza, tira da zona de conforto. Sócrates manda questionar. A autoajuda leva a aceitar. Ela quer agradar ao consumidor, e não à pessoa.

Em Felicidade ou Morte, escrito em parceria com Clóvis de Barros Filho, podemos entender que a felicidade se tornou uma obrigação?
Sim. As pessoas perderam a dimensão da importância da infelicidade como efeito comparativo. Só posso saber se sou feliz com base na comparação. Há um imenso ganho em períodos de solidão. Eles iluminam minha vida porque estabelecem o único lugar que eu sou eu, de fato. Não é que a solidão seja boa em si. Estar acompanhado também nem sempre é bom. Desconfio de quem não consegue ficar só. Gosto de pessoas que transitam entre a ilha social e a da solidão.

Em seu livro A Detração – Breve Ensaio sobre o Maldizer, você afirma que falar mal do outro é universal. Por quê?
Somos inseguros. A primeira coisa para aumentar minha segurança é me juntar a você e achar um inimigo comum. Falamos mal de um terceiro e criamos uma aliança. O inimigo nos une. Se conto algo em segredo, eu me aproximo: estou lhe dando uma revelação e, ao mesmo tempo, criando um foco comum de maledicência. A fofoca é também a arma dos fracos, autodefesa. Uma pessoa bem-sucedida, bonita, rica e feliz – se é que ela existe – certamente não é fofoqueira. A detração é fruto da amargura, da vontade de buscar no outro um defeito: “Fulana é inteligente, mas não é casada”. Ao acusar alguém por um comportamento sexual específico, revelo minha dor, falo de mim, dos meus medos, do que me incomoda e é, enfim, o que desejo.

O homem não sabe como agradar à mulher: se paga a conta, abre a porta… Podemos dizer que está perdido?
Se dou meu casaco à minha companheira no frio, mostro que sou mais forte. Segundo a biologia, as mulheres são mais resistentes às infecções. A gentileza é um bem. Homens e mulheres devem ser gentis. Mas é preciso conhecer a pessoa para não exercer isso com paternalismo. Cavalheirismo não é ruim se a amabilidade é recíproca. Só não deve ser usado para exibir superioridade. A pessoa deve perguntar à outra se abrir a porta lhe agrada. A questão é não pensar na caixinha do gênero: supor que, sendo mulher, ela é frágil.

A mulher, em geral, lida mal com o fracasso de um parceiro. Em tempos de desemprego e perdas, como ela pode ajudá-lo?
É difícil continuar admirando alguém que, além de desempregado, reclama sem parar. Observe: revelamos mais de nós sob o fracasso. O sucesso funciona como máscara, faz a pessoa virar outra. Nós, porém, preferimos nos relacionar com o olho no ibope do outro, no dinheiro, nos bens. Há uma cena linda em O Diabo Veste Prada. A malvada-mor (vivida por Meryl Streep) está desconstruída em um hotel, com a maquiagem borrada, usando um roupão. Sua assistente entra e, finalmente, vê uma mulher à beira do divórcio e quase perdendo o emprego. Só aí a malvada foi ela mesma.

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