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Pesquisa explica por que pessoas ganham peso diferente comendo a mesma comida

A resposta para esse efeito diferente entre as pessoas está na flora intestinal

Por Ana Carolina Castro Atualizado em 28 out 2016, 14h38 - Publicado em 29 jan 2016, 14h04

Por que uma mesma dieta pode ter efeitos tão diferentes em cada pessoa? Muito se especulou sobre pré-disposição genética, mas a resposta está, na verdade, na vida dentro dos nossos intestinos.

Para entender esse efeito, o Weizmann Institute of Science, de Israel, está monitorando mil pessoas em detalhes, minuto a minuto, para ver exatamente como seus corpos reagem à comida – e os primeiros resultados estão reescrevendo as regras da nossa relação com a alimentação.

Quando comemos, o nível de açúcar no nosso sangue sobe – e são muito importantes para a nossa saúde tanto a velocidade com que o açúcar atinge seu pico quanto a rapidez com que nossos corpos lidam com isso e voltam ao normal. Picos constantes podem levar a diabetes tipo 2, nos fazer acumular mais gordura e aumentar o risco de outras doenças.

Por isso, tradicionalmente os alimentos foram classificados de acordo com sua capacidade de causar um pico de açúcar no sangue. Por essa lógica,  alimentos com alto valor glicêmico seriam ruins para nós, e baixos seriam bons.

A pesquisa israelense, liderada por Eran Segal e Eran Elinav, sugere que essa relação não é tão simples.

Os voluntários do estudo tiveram seus históricos familiares avaliados e receberam um implante de um pequeno monitor de glicose sob a pele.

Uma equipe de nutricionistas preparou menus especiais durante seis dias, com o objetivo de testar a reação de seu corpo a algumas refeições, misturadas a alguns dos alimentos que os participantes já estavam acostumados a consumir.

Reprodução
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A médica Saleyha Ashan participou do teste a convite da BBC. “Sou uma médica de pronto-socorro, o que certamente tem efeitos na minha dieta. Correr o dia inteiro com padrões de trabalho incomuns significa que nunca tenho um horário para comer – e, ao menos que eu seja super organizada, vivo à mercê da lanchonete do hospital”, explicou Ashan.  “Sempre me preocupei com os alimentos que como, mas mesmo assim nunca vi nenhuma mudança no meu peso, enquanto alguns amigos comem o que querem sem engordar nada. Parece que eles podem ‘quebrar todas as regras'”, afirmou.

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Outros fatores – como nível de estresse, exercício e sono – podem afetar nossa reação de glicose, então os pesquisadores a fizeram anotar tudo que ela fazia durante o dia.

Mas o mais importante foi que, como a pesquisa inicial deles sugeria que pessoas diferentes apresentavam reações diferentes ao mesmo tipo de alimentação, Ashan fez uma dupla com uma outra voluntária do mesmo sexo e da mesma idade que ela – Leila.

“Na semana seguinte, eu e Leila fizemos e comemos exatamente as mesmas coisas – fomos aos mesmos restaurantes e pesamos as refeições com cuidado para ter certeza de que eram o mais idênticas possível. Os livros de nutrição diziam que nossos corpos deveriam respondem a eles de forma semelhante. Os pesquisadores israelenses suspeitavam que isso não aconteceria.”

Ashan conta que ficou completamente surpresa quando os resultados chegaram. Os lanchinhos saudáveis que ela fazia ao longo do dia, como uvas e sushi, provocavam grandes picos de açúcar.  “Para Leila, os resultados foram muito diferentes. Enquanto macarrão era ruim para mim, era ok para ela. Iogurte era bom para mim mas ruim para ela, e nossas respostas a pão com manteiga também eram completamente opostas.”

A pesquisa inédita reveleou que o grau de variação individual é muito maior do que o esperado. Aparentemente, não existem alimentos com “alto” e baixo” nível glicêmico – isso depende totalmente de seu próprio corpo.

A próxima pergunta a ser respondida agora é: por que os corpos variam tanto?  Além da bateria de testes, Ashan e Leila também fizeram um exame de fezes e, com isso, o laboratório pôde descobrir a composição dos micróbios de cada intestino.

A resposta pode estar na nossa flora intestinal. Todos nós temos milhares de bactérias diferentes, vírus e fungos que não apenas ajudam na decomposição dos alimentos como produzem compostos que nossos corpos absorvem e que podem influenciar em quase todos os aspectos de nossas vidas, do nosso sistema imunológico a nosso metabolismo a neurotransmissores.

Ao comparar os micróbios do intestino dos centenas de voluntários do estudo a sua resposta de açúcar, Segal e Elinav conseguiram descobrir que nossos micróbios podem ser a chave para descobrir por que os picos de açúcar no sangue são tão individuais. Os químicos que eles produzem, aparentemente, controlam nossos corpos até aí.

Elinav e Segal garantiram a Ashan, porém, que ao aderir à dieta “que suas bactérias gostam”, ela conseguiria impactos mais profundos na sua saúde e bem-estar. Ao estimular a produção de uma flora intestinal mais variada, nosso corpo manteria naturalmente um peso mais saudável.

O objetivo dos pesquisadores é que em breve, qualquer pessoa, de qualquer parte do mundo, possa mandar uma amostra de fezes para que seja analisada e, sem a necessidade de um monitoramento de açúcar no sangue por uma semana, receba uma dieta personalizada que estabilize seu níveis de açúcar no sangue e melhore seus micróbios intestinais.

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