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Distúrbio alimentar: como aplicativo ajuda pacientes e seus pais

Baseada em sua própria experiência, jovem búlgara cria aplicativo para monitorar quantidade de alimentos ingeridos no dia a dia

Por Susanne Schumann Atualizado em 8 mar 2018, 03h43 - Publicado em 8 mar 2018, 00h01

Tudo começou quando Ekaterina tinha 16 anos. Começou deixando um pouquinho de comida no prato. Ela cortou a manteiga, fugia de doces e evitava todas as bebidas calóricas. Com o passar do tempo, a quantidade de alimentos que faltava em sua dieta só aumentava – até o ponto em que mal conseguia comer uma maçã sem se sentir culpada.

Ekaterina Karabasheva sempre foi a filha perfeita: amável, ia bem na escola e se saía bem em tudo a que se dedicava. No entanto, quando essa garota búlgara começou a buscar o “corpo perfeito”, ela sucumbiu: a anorexia dominou sua vida por meia década.

A jovem Ekaterina Karabasheva Kim Keibel/Reprodução

Centenas de milhares de pessoas lidam com um transtorno alimentar

Na Alemanha, as vidas de muitas centenas de milhares de pessoas são regidas por um transtorno alimentar. De acordo com o Departamento Federal de Educação em Saúde, cerca de 1,5% das mulheres e apenas 0,5% dos homens são afetados, com base apenas em casos registrados.

Contagem de calorias, fugir de certos alimentos, passar fome, obsessão com comida, sentimentos de culpa, aversão por si própria, excesso de exercícios, consumo excessivo, tomar laxantes, vômitos – a maioria das pacientes sente que sua rotina está à mercê da doença. Muitas se isolam de amigos e familiares para evitar o constrangimento de comer diante dos outros. Quem sofre desse mal pode desperdiçar anos de vida desse jeito.

Ekaterina percebeu relativamente rápido que a anorexia não resolveria sua falta de autoestima. Aos 19 anos, ela fez as primeiras tentativas para superar seu transtorno alimentar. Agora, 8 anos depois, ela recuperou o controle de sua vida, completou seus estudos, recentemente se tornou mãe e envolveu-se com projetos que, ela espera, lhe permitirão ajudar outros pacientes.

Leia mais: “Transtorno alimentar não é futilidade”

Como os pacientes estão documentando suas batalhas no Instagram

Pacientes estão documentando suas batalhas no Instagram com a hashtag #edrecovery (ED = eating disorder, ou transtorno alimentar). Já existem mais de 3 milhões de postagens com a hashtag, a maioria delas com fotos de comida. Um prato de macarrão, torradas, um balde de sorvete de Ben & Jerry’s, panquecas com Nutella, omeletes, tacos, granola – para quem não sofre desse mal, a batalha contra um transtorno alimentar deve parecer, literalmente, mel na chupeta.

Mas no início da recuperação, cada refeição é uma batalha. Tome, por exemplo, a legenda que @kams_recovery adicionou a uma foto de seu sorvete: “Vitória na recuperação! É a primeira vez, em mais de um ano, que como sorvete sem vomitar!”.

Este e os outros milhões de posts do tipo no Instagram são parte popular e fundamental de uma abordagem comportamental para o tratamento: manter um diário alimentar. Durante meses, Ekaterina documentou todas as refeições que fez. Ela manteve um registro não apenas do que comia, mas do que sentia. Ela se sentia péssima por comer um pão? Ou será que talvez tenha se sentido bem ao nutrir seu corpo? Isso foi importante porque permitiu que Ekaterina erradicasse as conexões entre comida e emoções negativas que havia desenvolvido ao longo dos anos e, por fim, dissipá-las.

Leia mais: O que eu faço com a minha compulsão alimentar?

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A ideia para o aplicativo surgiu de sua própria recuperação

Quando se tratava de seu diário alimentar, Ekaterina enfrentou um problema: será que ela se sentiria à vontade sacando um caderninho no meio da cantina ou num café da universidade para tomar nota de suas emoções na frente de todos? Foi complicado. Por conta disso, ela muitas vezes não anotava suas refeições até bem mais tarde, no fim do dia – e até lá ela já tinha esquecido o que sentiu na hora.

O Instagram apresenta uma boa alternativa. Os blogueiros de comida fazem fotos de seus pratos e depois escrevem um pouco a respeito e, dessa forma, manter um diário alimentar pode virar um elemento discreto de suas vidas cotidianas. Mas e se os pacientes não quiserem se expor publicamente? E se alguma pessoa alienada vir uma das imagens, escrever um comentário estúpido embaixo (“Uau, que sorvete enorme!”) e perturbar o paciente?

Ekaterina desenvolveu uma solução ideal, combinando o melhor do Instagram com o caderninho: o aplicativo Jourvie. Usando seus celulares, os “Guerreiros da Recuperação” podem facilmente documentar suas refeições, incluindo o estado emocional e as circunstâncias, salvá-las e discuti-las com seus terapeutas, se necessário for. Fotos também podem ser adicionadas. O aplicativo é gratuito – Ekaterina não tem interesse comercial.

Ekaterina, agora com 27 anos, disse: “Para mim, foi importante transformar as experiências negativas com esta doença em algo positivo e dar aos pacientes as ferramentas para superá-la”.

Kim Keibel/Reprodução

O aplicativo espera evitar que transtornos alimentares se desenvolvam

No ano passado, em colaboração com a AOK Nordost, Ekaterina pode desenvolver e lançar um segundo aplicativo: “Elamie”. Este aplicativo foi concebido para ajudar pais e pediatras a reconhecerem os sinais de que uma pessoa corre o risco de desenvolver um transtorno alimentar. Certos traços de personalidade – como o perfeccionismo que Ekaterina sentia – podem apontar para uma possível falta de autoestima ou transtorno alimentar.

Os pais usam o aplicativo para documentar o comportamento de seus filhos por uma semana de acordo com critérios específicos. Esses dados permitem que os médicos determinem se uma criança precisa de observação ou tratamento. “Estamos satisfeitos por podermos promover o reconhecimento precoce de transtornos alimentares junto com a AOK Nordost e os médicos. Juntos somos mais fortes!”.

Distúrbios alimentares dizem respeito a todos nós

Embora todo transtorno alimentar seja complexo e altamente pessoal à sua maneira, existem fatores em nossa sociedade que os incentivam. Sejam as modelos magrelas e que vestem calças 34 e que a mídia passou décadas vendendo como o ideal estético, seja a pressão econômica pelo desempenho ou a atenção crescente dada a fotos retocadas nas redes sociais, combinadas a uma tendência crescente de isolamento na “vida real”. A oferta excessiva de alimentos também se torna terreno fértil para o aparecimento de transtornos alimentares. Por isso mesmo, é nosso trabalho como sociedade ajudar no combate aos transtornos alimentares. Podemos fazer isso ao garantir a não segregação dos que sofrem do mal e, ao invés disso, da demonstração de respeito e confiança. Nenhuma paciente que sofre de transtorno alimentar é uma causa perdida. Todas podem vencer sua batalha contra um transtorno alimentar – assim como Ekaterina o fez.

* Por Susanne Schumann para a Brigitte

*Neste Dia da Mulher, CLAUDIA participa da ação internacional Women in Businesses For Good, da iniciativa social Sparknews, que visa
revelar inovações impactantes criadas por mulheres e seu potencial de ampliação ou replicação em outros países. #WB4G

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