Disfunção do assoalho pélvico: causas, diagnóstico e tratamento

Especialista à frente do 1º centro especializado no assunto em SP explica porque o problema é comum em gestantes e como evitar seu aparecimento

O assoalho pélvico, como o próprio nome sugere, corresponde ao conjunto de músculos e ligamentos, localizados entre o osso púbis e cóccix, responsáveis por “fechar” e sustentar a parte inferior da pelve, conhecida popularmente pelo nome de bacia.

O períneo, como também é chamado por especialistas, possui a importante função de suportar os órgãos internos do corpo feminino que estão na região da bacia, como o útero, a bexiga e o ânus, além de envolver os orifícios da uretra, vagina e ânus e permitir a passagem controlada da urina e fezes. Além de favorecer a saída do bebê do corpo da mãe no momento em que dará à luz.

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A importância dessa estrutura é ainda maior durante a gestação, pois ela deve ser capaz de sustentar o tamanho e o peso do bebê que crescerá bastante durante os 9 meses de gestação dentro do útero da mãe. Porém, é extremamente comum que essa região seja sobrecarregada a partir do segundo ou terceiro trimestre da gravidez e comece a dar sinais de que está se enfraquecendo. Alguns dos sintomas mais comuns são a incontinência urinária, acúmulo de gases que saem involuntariamente e desconforto ao urinar ou defecar.

O Dr. Carlos Del Roy, chefe do Centro de Assoalho Pélvico do Hospital e Maternidade Santa Joana, criado há 5 meses especialmente para atender pacientes nessas condições, explica o porquê do surgimento do problema: “O assoalho pélvico, estrutura muscular que sustenta não somente os órgãos da região da bacia, como todas as outras estruturas da parte superior do corpo humano, sofre um processo de relaxamento para facilitar a passagem do bebê durante o parto.”

Quais são os agravantes?

Além da gravidez, que proporciona mudanças significativas no assoalho pélvico, outros fatores podem desencadear o problema, tais como a obesidade — o sobrepeso durante a gestação aumenta consideravelmente o risco de aparição do problema —, além de lesões em decorrência do parto ou de cirurgias realizadas na região e menopausa, pois os hormônios femininos possuem papel fundamental na lubrificação da vagina e na produção de colágeno.

Outro aspecto que também deve ser levado em consideração é a propensão hereditária, conforme esclarece o médico: “Se a mulher possui casos na família em que acometeram a mãe ou a avó, é importante que ela redobre a atenção, pois as chances de desenvolver o problema aumentam significativamente.”

Quais outros sinais além da incontinência urinária merecem maior atenção?

Outra queixa recorrente em mulheres que apresentam o enfraquecimento do assoalho pélvico é a perda de flatus, como é chamado cientificamente por especialistas o gases que se formam no instestino. “A incontinência urinária é extremamente comum na gravidez não somente pela disfunção do conjunto de músculos, mas também porque o crescimento do bebê faz pressão na região, isso ocorre em praticamente toda e qualquer gestação”, pontua o Dr. Carlos.

Além disso, outras queixas comuns de mulheres que sofrem da condição costumam ser dores e desconforto durante a relação sexual, constipação. “O problema pode ser mais grave em mulheres que já possuem algum episódio de incontinência antes mesmo de engravidarem”, acrescenta o médico.

O organismo feminino demora, em média, um intervalo de 40 a 90 dias para voltar ao que era antes do processo de gestação. “E isso inclui, também, o assoalho pélvico, que após sofrer um processo de relaxamento, vai se contraindo até assumir sua forma normal”, explica o Dr. Carlos, que completa: “Mas isso pode variar muito de mulher para mulher, por exemplo, há pacientes que se queixam que, ao tossir, pular ou fazer qualquer movimento brusco com a bexiga um pouco mais cheia, relatam sofrer um escape, mesmo tendo dado à luz há um ano.”

Bola na vagina ou “bexiga caída”

Esse é o nome popular para um problema chamado de prolapso genital, que pode ser caracterizado como a queda da parede vaginal em decorrência do enfraquecimento da região, que causa mudança nos lugares dos órgãos da região pélvica como a bexiga, o útero, o reto, uretra e intestino delgado. O problema, geralmente, é subdividido por especialistas em quatro graus, de acordo com sua gravidade. Nos casos mais sérios, as mulheres se queixam do aparecimento, literalmente, de uma bola na vagina, o que acaba por justificar o seu nome.

Além do imenso desconforto, a dor de grande intensidade também são sintomas recorrentes que afetam diretamente a qualidade de vida das mulheres. “Isso geralmente acontece com mulheres mais velhas, ou seja, com mais de quarenta anos e provoca uma sensação de saliência recorrente na região vaginal e pode acarretar outros problemas caso não seja diagnosticado e tratado adequadamente”, diz.

Tratamento, cirurgia e prevenção

À frente de uma equipe de cinco médicos e duas fisioterapeutas, todos graduados pela Universidade Paulista de Medicina, o Dr. Carlos acredita que a chave para o sucesso é, além da prevenção, o tratamento acolhedor que o centro recém-criado oferece para as pacientes que estão com o problema. “Muitas delas têm vergonha de falar, e pode não parecer, mas afeta muito a qualidade de vida delas, algumas só vestem roupas pretas e evitam sair de casa ou passar longos períodos fora por conta da incontinência urinária”, pontua.

O tratamento disponível hoje, basicamente, se concentra em sessões de fisioterapia que costumam apresentar melhora significativa do quadro em 75% dos casos. Entretanto, de acordo com a gravidade do problema e as queixas da paciente, a cirurgia pode ser indicada. “Se trata de um procedimento que pode ser feito sem nenhuma incisão, ou seja, pelo canal da vagina, ou com um cortinho no monte de vênus para colocar um sling (palavra em inglês que significa cinta usada para dar nome ao anteparo de material sintético) ao redor da uretra. Porque o problema da incontinência urinária não está relacionado à bexiga, mas sim à uretra, que é o canal por onde ela passa, para proporcionar maior sustentação”, conta.

O Dr. Carlos também reitera que, embora muito importante e eficaz, a maioria das mulheres não têm muita aderência à fisioterapia. “É um trabalho totalmente personalizado de exercícios para o fortalecimento da região, de acordo com as limitações e condições de cada paciente, mas grande parte das pacientes não consegue cumprir os horários ou simplesmente prefere que o problema seja resolvido de uma forma mais rápida.”

O diagnóstico é feito através de dois exames disponibilizados às mulheres pelo Centro: o primeiro se chama urodinâmica e é realizado não somente para analisar a urina, mas todo o processo, como a paciente enche e esvazia a bexiga e o ultrassom em 3D do assoalho pélvico para identificar as possíveis lesões. “Além disso, é feito uma série de perguntas para a mulher e a partir disso um lado é formulado para que a paciente disponibilize de alternativas para realizar as várias formas de tratamento, levando em consideração o que ela se sente mais confortável e segura para dar início”, conta.

O médico também ressalta que o fortalecimento do assoalho pélvico deve ser um assunto tratado, desde a primeira infância por professores de educação física. “Não é porque os problemas tendem a aparecer com mais frequência na gravidez que as mulheres só devem começar a prestar atenção nesse período. É fundamental que isso seja uma preocupação de todas, porque diz respeito à saúde e ao bem estar feminino. Mulheres que praticam vôlei, arremesso ou levantamento de peso, têm nove vezes mais chances de desenvolver o problema, por isso precisam de um acompanhamento especial”, finaliza o doutor.

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