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Grávida de mim

Às vésperas da cirurgia de mastectomia, Ana Cortat compartilha a jornada para curar muito mais que um câncer de mama e se preencher de si mesma

Por Ana Cortat
14 fev 2024, 12h04

Não sei se isso acontece com todas as pessoas que vivem o câncer de mama, mas comecei a contar os dias para minha mastectomia. Hoje, faltam 6 dias. No início, quando tudo começou e visualizei esse momento, pensei que seria uma cirurgia do tipo outras que já fiz. Mais uma anestesia geral e eu acordaria livre do tumor e, quem sabe, com “seios melhores”, como disse uma amiga.

Cinco meses depois de um tratamento que não provocou nenhuma redução no tamanho do tumor e de aprendermos mais, os médicos pediram que eu me prepare para acordar sem minha mama esquerda e para viver sem ela por algum tempo. É pouco provável que algo diferente disso aconteça.  Como normalmente são minhas vivências, uma coisa levou a outra e o pedido dos médicos se transformou em  uma viagem  que eu nunca tinha imaginado fazer antes.

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No meu caso, a decisão de não reconstrução imediata da mama tem a ver com o risco de encapsulamento que pode ser provocado pela radioterapia que vai começar logo depois da cirurgia – o encapsulamento pode ocorrer entre 20 a 30% dos casos – e pelo risco de necrose em decorrência das características do meu procedimento.

Casa Clã + Mama incentivou a união de forças na prevenção do câncer de mama
Ana Cortat, vice-presidente executiva da Agência Soko, fundadora da Hybrid Collab e ativista em causas raciais, de gênero e LGBTQIAPN+ (Mayra Azzi/Reprodução)

No Brasil, muitas mulheres vivem sem uma ou sem as duas mamas. Apesar da existência de uma  lei que obriga a reconstrução da mama após a mastectomia, milhares de mulheres estão em fila de espera aguardando o procedimento e muitas outras escolhem não fazê-lo por razões que não consegui compreender totalmente ainda, procurei mas as pesquisas que encontrei não eram sobre o nosso país.  O que está claro é que a mutilação da mama é considerada um fator de risco psicológico e psiquiátrico grave para a mulher porque, por diversas razões que incluem a construção social, este órgão é considerado um símbolo visível e definidor do que é ser uma mulher.

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A mama não é um órgão vital, mas podemos viver felizes sem ela? Podemos andar pelo mundo nos sentindo fortes, bonitas, femininas e desejáveis com apenas uma mama ou sem nenhuma delas?  Sem ela, deixamos de ser uma mulher?

Ainda não vivi e talvez não chegue a vivenciar a volta da anestesia sem minha mama esquerda mas seguir a orientação dos médicos e me preparar para este momento me fez entender que a reconstrução imediata provavelmente me levaria a não perceber muitos vazios.  Pelo menos de forma imediata, eu não me sentiria invadida pela ausência dos espaços simbólicos ocupados por esse órgão que carregamos no peito a vida toda.  A mama é alimento, sustento, proteção, beleza, amor, sedução,  prazer, sexo.  A mama é feminino e masculino. Não à toa, cânceres habitam nossas mamas homem e mulher desde sempre. Mas, no feminino, a mama também é fetiche, objeto, tabu, pornografia. Se acontecer, acordar sem uma das minhas mamas vai sim me afetar porque o vazio que vai se revelar vai tornar muitas coisas presentes. Coisas que virão de fora e de dentro acessando meus apegos à forma, ao aparente, ao visível, ao olhar do outro.

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Dia desses, uma amiga me convidou a ponderar sobre a possibilidade de tudo isso que tenho vivido ser uma agressão ao meu feminino, algo que ela pensou por saber que,  além da mama que agora vai me deixar, vivi a partida dos meus ovários há 1 ano e meio e do meu útero há 2 meses . Claro que aceitei o convite e, mais uma vez, pensei muito, o suficiente para concluir que não, o que estou vivendo não é uma agressão ao meu feminino, é uma resposta a décadas de agressão. Uma consciência que surge enquanto me convida a me reconhecer e celebrar mulher sem aquilo que aprendemos a acreditar que, sozinho, nos define.

Os médicos pediram que eu me preparasse para a mastectomia e sinto que me preparei para uma vida inteira. Volta e meia eu acredito que essa jornada é pra curar muito mais que um câncer. Aos quase 59 anos estou aqui,  sem hormônio, sem ovário e sem útero, mas totalmente grávida de mim.

Ana Cortat, vice-presidente executiva da Agência Soko, fundadora da Hybrid Collab e ativista em causas raciais, de gênero e LGBTQIAPN+, escreveu esse texto em 8 de fevereiro de 2024, após realizar a sessão de fotos com a artista Maria Ribeiro.

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