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Uma velha me ensina o pacto com a vida

Recordista mundial de natação aos 90 anos, Nora Rónai diz: “Quem teme a velhice antecipa o seu fim”. Nossa editora, provocada por ela, perdeu o medo do Alzheimer

Por Patrícia Zaidan Atualizado em 28 out 2016, 12h51 - Publicado em 23 out 2015, 19h02

Por que me encantei com esta mulher?

Conheci Nora Rónai esta semana. Que figura! Tem 91 anos e meio, é italiana, arquiteta aposentada, fugitiva do nazismo, carioca por escolha, e gaba-se de ter começado a competir aos 69 anos. Campeã de natação várias vezes, é recordista mundial dos 100 metros nado borboleta, na categoria máster, com um tempo de 3 minutos e 51 segundos, quando a marca classificatória é 7’15’’.  Trocando em miúdos é uma flecha na água.

Morena (porque não sai da piscina), olhos azuis, tem uma fala tão envolvente que fez a plateia inteira rir e se emocionar ao longo de sua palestra no X Fórum de Longevidade Bradesco Seguros. Não sou de me impressionar com feitos mirabolantes de velhos. A sociedade incita isso. Ela o execra e finge que o inclui quando ele se traveste de jovem, é excêntrico, dá piruetas, namora ninfetas etc.

Nora até saltou de paraquedas com a neta Bia. Mas está longe de fazer concessões ou de barganhar para ser aceita e amada. “Topei saltar porque estou me aproximando do fim e queria saber como era”, disse. Ela se sentiu um pássaro vendo tudo de cima, nadou na atmosfera, apesar do pouco ar que entrava pelas suas narinas. Isso a fez chegar ao chão um tanto tonta, assim como a neta. “A diferença é que Bia se refez em 15 minutos, eu demorei 3 horas”, contou. “Eu me esqueci que sou velha e nem lembrei de consultar, antes, a minha médica. Mas valeu a pena, a sensação é de estar suspensa, sem necessidade de pisar no chão”. Bravo!

A arquiteta lançou um livro para crianças e está produzindo outras 800 páginas: “Com caneta BIC. Computador sempre dá pau.” Ela me fisgou completamente quando afirmou: “As pessoas têm horror de envelhecer”. E temos mesmo. A todo instante tentamos exercitar o cérebro para ele não perecer, azeitamos as juntas, os músculos, os passos, para não parar nunca. Melhor isso que chegar rota aos 90 ou 100. Dizem que vamos viver muito mais, ganhamos 30 anos com a medicina tecnológica. Então que seja com lucidez. Mas incomoda saber que são frágeis a autonomia, o brilho, o raciocínio e as lembranças de quem somos.

Combinei com um amigo muito especial que não vamos nos perder de vista, um protegerá o outro. Ele me fez prometer o seguinte: se morrer primeiro, eu terei que cuidar para que não haja velório. Não quer lágrimas sobre seu corpo nem reconhecimentos póstumos. Já eu, o fiz jurar que arrumará um jeito de abreviar minha vida, se, como meu pai, eu me surpreender confusa, melancólica e totalmente alheia. Nem haverá necessidade de médico para o diagnóstico: conheço bem os caprichos do Alzheimer. As suas presas têm postura parecida, mãos nervosas, depois semifechadas; a boca faz angustiantes trejeitos.  E (que terrível!) o olhar fica entre o sombrio e rude. Meu pai era um amante da vida, poeta, comunicador, jornalista de texto sensível, um inquieto descumpridor das regras sem sentido… enfim, era também  o afeto em pessoa. Como todos os cativos do Alzheimer, aos 54 anos passou a fitar, ao longe, uma espécie de escuridão sem fim. Hermético em sua incapacidade. Eu não quero.

Ali ouvindo a palestra, algo me disse que pertenço à falange de Nora Rónai – e meu amigo querido talvez não precise cortar o último fio que me prenderá à Terra. A resposta que a recordista dá a quem teme envelhecer vem depois de uma provocação: “Qual era a tristeza que você tinha na época de Napoleão?” O interlocutor fica na reticência. Ela explica: “Antes de nascer não estávamos aqui e nada nos perturbava.” Ora, não devo sofrer pela velhice que desconheço e não está aqui.  Minha urgência inexplicável é beber o hoje, trocar com os amigos à minha volta, fazer este trabalho que você lê e me traz tanta alegria. Não é slogan: a vida é já! Do amanhã, eu nada sei. É função da velhice me alcançar. Não vou, eu, correr atrás dela.

Saí do teatro onde ouvi a nadadora com enorme leveza. Pronta para brigar até o fim pelo desejo, pelo direito à experiência; farei o que aguçar a curiosidade. E pretendo me arriscar muito. Como Nora. O pacto está feito. Muito obrigada, minha querida.

Patrícia Zaidan é editora de CLAUDIA e escreve esta coluna toda sexta-feira. Para falar com ela, clique aqui!

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