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Mais uma vez, o presidente Jair Bolsonaro escancara seu desrespeito às mulheres

Fala do presidente da República não é só uma ofensa ao jornalismo e à profissional em questão, mas a todas as mulheres

Por Isabella Marinelli - Atualizado em 19 fev 2020, 00h48 - Publicado em 18 fev 2020, 16h38

O presidente da República Jair Bolsonaro, na manhã desta terça-feira (18), ofendeu a honra da jornalista Patrícia Campos Mello, do jornal Folha de S.Paulo. Na rotineira declaração à imprensa em frente ao Palácio do Planalto, usou de insinuações de cunho sexual e deboche para desmantelar a honra de uma profissional. Sem se acovardar diante de câmeras de emissoras de televisão, microfones e gravadores, disse que “ela queria dar o furo a qualquer preço” contra ele, em evidente conotação sexual. Ausente de qualquer constrangimento da fala, repetiu os mesmos termos.

Mais do que atacar a imprensa, atitude que já lhe é corriqueira, desta vez Bolsonaro questionou a honestidade de Patrícia colocando em dúvida a sua credibilidade como mulher ao levantar questionamentos relacionados à sua dignidade sexual. Não é de hoje, inclusive, que ela vem sendo perseguida pelo presidente, familiares e correligionários. A frase foi dita em referência ao depoimento de um ex-funcionário de uma agência de disparos de mensagens em massa no Whatsapp, Hans River do Rio Nascimento, durante a CPMI das Fake News do Congresso. Desde a publicação da reportagem que denunciou o esquema, de autoria dela, Patrícia é alvo de ataques virtuais.

Quando Bolsonaro ofende Patrícia, em frente à casa presidencial, diante de uma multidão de pessoas (online e offline), ele escancara seu profundo desrespeito a todas as mulheres. Patrícias, Marias, Claudias. Se o questionamento já não seria tolerado na esfera privada, ele ganha contornos ainda mais severos na esfera pública, quando sai da boca do chefe da nação, alguém que deveria defender e prezar pelo respeito aos cidadãos brasileiros.

Ninguém colocou limites em Jair Bolsonaro e seria um desserviço dizer que ele se comporta “como um moleque” e tratá-lo como tal diante de todas as chances de amadurecimento que ele teve durante seus 64 anos de idade. Ninguém colocou limites no deputado Jair Bolsonaro quando ele homenageou no Congresso Nacional o Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, torturador da ditadura militar que enfiava ratos em vaginas. Ninguém colocou limites no candidato Jair Bolsonaro quando ele disse que sua filha, mulher, foi uma “fraquejada”. Ninguém colocou limites e ele foi promovido a presidente da República.

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Este é o retrato de uma nação que tolera, perdoa e facilmente esquece dos algozes, enquanto é negligente com suas mulheres. Em outras situações, na intimidade dos lares, nas salas de escolas, em escritórios pelo país, somos diariamente humilhadas, desrespeitadas e, nas piores projeções do machismo e da misoginia, agredidas e mortas. Quem se cala diante do absurdo compactua com um sistema que nos oprime sintomaticamente e sistematicamente.

O presidente da República Bolsonaro desceu ao mais baixo nível da falta de decoro e chancelou, outra vez, o desprezo às mulheres em território nacional. Não é e nunca será admissível o que vimos em Brasília neste dia.

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