Os cachorros sabem tudo sobre amor

Nossa editora Liliane Prata fala sobre a dificuldade de aceitar o amor quando nunca se foi amado

Tenho um amigo que, há alguns anos, saiu para comprar pão e voltou com um cachorro. É que, na porta da padaria, ele se compadeceu com um cãozinho abandonado. Não que o cachorro fosse daquele tipo fofo, irresistível – pelo contrário. Era magrelinho e não exatamente simpático.

– Me disseram na padaria que ele apanhava do dono – ele explicou, me servindo um café em sua casa. – Um senhor que morava a duas quadras daqui. Ele se mudou e deixou o cachorro na rua. Fiquei com dó.
– Coitadinho – respondi, chamando o cachorrinho para perto de mim.
– NÃO TOCA NELE, Lili.
– ?
– Ele morde. Olha aqui – ele disse, me mostrando um machucado no pulso. – Nossa relação é assim: dou comida, ele aceita, dou um lugarzinho para dormir, ele aceita. Mas não passa disso.
– Vai ver ele não foi com a sua cara! Vem cá, cachorri…
– GRRRRR – rosnou o cachorro.
– Ele tem personalidade. Ou vai ver ele ficou assim por causa do antigo dono.

Hipótese comprovada. Visitei esse meu amigo novamente só um ano depois, mais ou menos. E o cachorro parecia outro cachorro, juro. Foi me cheirando quando entrei, como os cachorros costumam fazer – na primeira vez, ele tinha se escondido assim que botei meus pés na sala. E, em vez de rosnar quando ofereci carinho, aceitou de bom grado, todo dengoso.

– Como você conquistou esse cachorro, hein, Rafinha? – perguntei.
– Ah, fui me aproximando aos poucos. E, devagarzinho, ele foi me deixando entrar na vida dele. Agora ele confia em mim, sabe que não vou bater nele…

Lembrei do personagem Sem Pernas, do livro Capitães da Areia, do Jorge Amado. Ainda menino, ele apanhou da polícia e sofreu todo tipo de hostilidade. Então, ele foi abordado por uma senhora que sonhava com um filhinho. Ela se encantou por ele, lhe deu um quarto, banho, roupa, jantar feito na hora, cafuné e, acima de tudo, um olhar generoso, cuidadoso, de alguém que estava presente, que queria estar ali. Então, ele esperou que ela dormisse, se levantou, roubou a casa dela e voltou para a rua.

Das certezas mais simples da vida: é fácil deixar o amor entrar no nosso peito. Basta ter sido amado. Caso contrário… Os muros de um coração tomado pela raiva, rancor e medo não são facilmente escalados. A gente recusa o amor, boicota, finge que não é com a gente, trata mal a pessoa para testar os sentimentos dela, se refugia em relacionamentos tóxicos, morre de medo de relações harmônicas… Ou simplesmente rosna e se esconde embaixo do sofá, no caso dos cachorros.

Vida, vida. Alguém que nunca se sentiu querido, ao ser amado pela primeira vez, tinha de tudo para comemorar e desfrutar. Mas não é assim tão simples. Sorte de quem, como o cachorro do meu amigo, sofreu nesta vida, mas nasceu com coração de memória fraca.      

Liliane Prata é editora de CLAUDIA e escreve esta coluna toda quarta-feira. Para falar com ela, clique aqui!

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