Nunca foi tão difícil viver

Nossa editora e colunista Liliane Prata fala dessa sensação recorrente para tantas pessoas: não é fácil ter nascido nesta época...

Estou editando uma matéria sobre antidepressivos, prevista para entrar na CLAUDIA de fevereiro. No texto, há alguns números alarmantes como este: segundo a Organização Mundial da Saúde, 1 em cada 20 pessoas no planeta tem depressão, a maioria mulheres. Especialistas falam sobre as causas para o aumento da doença, divididas entre a genética e o ambiente em que vivemos.

Fiquei pensando nisto: no ambiente em que vivemos. Em quem somos neste ambiente. E em quem éramos antigamente, antes do surto não só da depressão, mas dessa angústia sem nome que não é patológica, mas que, parece, tornou-se crônica.

Comparar a época em que vivemos com as passadas e chegar à conclusão de que o passado é que era bom é uma armadilha – sabemos bem. É fácil reclamar do que vivenciamos e idealizar aquilo que só conhecemos pelos livros. Além disso, todos os períodos têm seus problemas, suas dificuldades, suas bagunças. Como ter saudade da Idade Média, de pessoas condenadas por nada indo para a fogueira em praça pública, de ser mulher em uma época em que as mulheres praticamente não tinham direitos civis em nenhum lugar do globo?

Eu sei, eu sei. Mas…

Mas é que, refletindo sobre tudo isso, acabou vindo à tona uma parte de mim que não quer saber de raciocínio histórico e ponderação. Uma parte malcriada e pessimista, que se choca ao constatar as bizarrices dos nossos tempos. Exclusivas dos nossos tempos. Exclusivas não de uma geração agrupada por idade, mas agrupada pelo imediatismo, pelo mal-estar generalizado, pela superficialidade e, claro, pelo vício em internet – não a internet em si, que possibilita coisas que adoro, como, por exemplo, publicar este texto que escrevi hoje mesmo, interagir com os leitores… Estou falando do vício.

Estou falando, na verdade, destes tempos em que vivemos. Estou falando daquilo que todo mundo sabe.

Estou falando de um tempo em que, geralmente, quando uma pessoa está falando com outra, está pensando em outra coisa. E, quando está fazendo essa outra coisa, pode apostar: é grande a chance de ela já estar, mais uma vez, com a cabeça em outra coisa.

Estou falando de um tempo em que crianças têm colesterol alto e hipertensão, em que jovens adultos de 30 anos morrem de ataque de coração e em que ovos falsificados são comercializados e o peixe e as verduras, com seu mercúrio e seus agrotóxicos, nem sempre são sinônimos de comida saudável.

Estou falando de um tempo em que as pessoas mal se olham no elevador, no metrô e no ponto de ônibus, porque estão grudadas na tela. Às vezes, parece que o olho no olho virou uma manobra muito íntima, meio invasiva.

Estou falando de um tempo em que tanta gente desenvolveu uma obsessão tão grande pelo dinheiro, pelo consumismo, pela aparência, pela juventude e pela fama que, às vezes, fico pensando: não é melhor pegar minha filha, de 4 anos, e me mudar para uma cidade pequena e isolada (e que não tenha sinal de wi-fi), antes que seja tarde demais para ela?

Afinal, estou falando de um tempo em que, entre uma tarefa e outra, a gente se pega fantasiando lugares pequenos, isolados e, acima de tudo, simples. Lá não tem hospital? Não tem escola boa? Em duas semanas lá, eu seria invadida por um tédio sem fim? Talvez, talvez, mas o que a minha cabeça quer, nesses devaneios, é se apegar a uma esperança, ainda que idealizada, de descansar um pouco, de desligar.

Estou falando de um tempo em que, celular na mão, as pessoas estão preocupadas em receber curtidas nos seus posts e aflitas porque não conseguem absorver toda a informação que pipoca nas suas telas.

Falando em informação, estou falando de um tempo em que a gente lê notícias como “existe um bordel de orangotangos na Tailândia, onde as fêmeas são escravizadas sexualmente por humanos” e “criança é presa e violentada pelo pai dos 5 aos 15 anos no porão de casa”… E precisa lidar internamente com isso.

(Se você morasse numa tribo indígena no século 16, a quantas notícias ruins e bizarras teria acesso ao longo da sua vida? Você não faria ideia do que estava acontecendo do outro lado do mundo.)

Estou falando de um tempo em que a gente já sabe que Deus morreu, ou, pelo menos, aquele Deus barbudo e ingênuo que ouvia os pedidos dos humanos como se fosse um Papai Noel para adultos. Sobraram: um Deus autoritário e obsoleto que ainda inspira guerras e cabeças decapitadas, ou nada de Deus (e aí sobra vazio existencial e um sem-número de fenômenos não explicados pela ciência) ou então um pós-moderno-Deus-energia, sem forma (que é o Deus em que acredito, mas que não entendo direito e que até hoje não consegui explicar satisfatoriamente para a minha filha).

Estou falando de um tempo em que a gente conhece tanto e tem tanta informação que não sabe o que fazer com todo esse conhecimento e essa informação. Afinal…

Se a gente sabe tanto, como admitir que, no nosso peito, ainda bate essa angústia que não sabemos administrar?

Se a gente tem tanta informação, como é que a humanidade ainda segue sem aprender o básico: respeitar os direitos uns dos outros, não cometer nenhuma atrocidade, não atentar contra os direitos humanos?

É um tempo com pouco espaço para inocência, ingenuidade e limites. Escorre exagero e cinismo para onde quer que se olhe: o amante comenta “Belo casal!” na foto da mulher com seu marido, pessoas compartilham na timeline notícias que lemos com os olhos, mas que nem sempre conseguimos digerir com a alma, e todos estão apressados, ansiosos, nervosos, preocupados, caóticos, perguntando-se como suportar tudo o que lateja na cabeça e no peito.

Não importa muito se você tem quinze, trinta ou sessenta anos, o que importa é se está vivo hoje, neste tempo, ou, ao menos, neste espaço temporal-cultural a que estou me referindo. Se está tão imerso e, ao mesmo tempo, cansado destas loucuras que, apesar de saber que a nostalgia não leva a lugar algum e que sim, todo período da história da humanidade teve seus problemas… Você se pega pensando: não importa, tenho certeza absoluta que nunca foi tão difícil viver. 

Liliane Prata é editora de CLAUDIA e escreve esta coluna aqui no site toda quarta-feira. Para falar com ela, clique aqui!

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