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#NiUnaMenos: brasileira relata sobre o dia em que a Argentina parou para lutar contra o assassinato de mulheres

Nas últimas semanas, o país foi tomado por um sentimento indescritível de comoção e revolta, o motivo? A barbárie cometida contra Lucía Perez, de 16 anos, que foi dopada, estuprada, empalada e morreu na noite de 8 de outubro.

Por Débora Stevaux (colaboradora) 19 out 2016, 18h26

Nas últimas semanas, a Argentina foi tomada por um sentimento indescritível de comoção e revolta, o motivo? A barbárie cometida contra a vida de uma adolescente de 16 anos. Lucía Perez foi dopada, estuprada, empalada e morreu na noite de 8 de outubro, no pequeno município costeiro de Mar del Plata. 

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Matías Farías,  23 anos, e Juan Pablo Offidani, 41 anos, abusaram sexualmente da garota até que ela falecesse. Então, a dupla deu banho no corpo já sem vida, trocou suas roupas e a levaram até um hospital alegando que a jovem estava inconsciente após ter sofrido uma overdose. Investigadores relataram a participação de um terceiro suspeito, Alejandro Alberto Masiel, responsável por acobertar a morte.

O registro da morte de Lucía é tido como um dos feminicídios mais desumanos da história do país latino-americano. A promotora do caso, María Isabel Sánchez, não conseguiu esconder sua revolta perante o crime: “Jamais vi uma conjunção de fatos tão aberrantes”.

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Apenas no ano de 2015, a Corte Suprema de Justiça da Argentina registrou um feminicídio a cada 36 horas – o que significa que 235 vidas femininas foram ceifadas pelo simples fato de serem mulheres. A morte da jovem de 16 anos foi a faísca para que ocorressem diversas manifestações espalhadas pelo território argentino com o lema “Ni Una Menos” (“Nem Uma A Menos”, em português) 

Os protestos foram organizados por cerca de 50 coletivos e grupos feministas, mas o maior, chamado de “Miércoles Negro” (em livre tradução, “Quarta-Feira Negra”), convocou todas as habitantes a se vestirem de preto, de luto pela vida de suas semelhantes. Além disso, foi instaurada uma greve de uma hora, pouco antes do Encontro Nacional de Mulheres – que acontece anualmente – cujo maior objetivo é fazer ecoar pelos quatro cantos do território nacional o poder da voz feminina, levando adiante a máxima “Nem Uma A Menos”.

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#EstamosJuntas Milhares de pessoas – principalmente mulheres – se reúnem no Obelisco, em Buenos Aires, em protesto ao crime brutal ocorrido com a adolescente Lucía Pérez no último dia 8. A jovem de 16 anos foi sequestrada, estuprada e, por fim, assassinada em Mar del Plata, no litoral argentino. Os casos de #feminicídio no país têm crescido e todas querem um basta, por isso o ato de hoje foi chamado #niunamenos (nem uma a menos, em português). Na sequência, a marcha seguirá para a Casa Rosada – sede da presidência da republica argentina. A foto foi enviada a CLAUDIA pela brasileira @WalcquiriaChaves, que vive em Buenos Aires. "Estou muito emocionada, mas precisamos lutar!", disse a pernambucana a caminho do ato.

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Abaixo, a brasiliense de 24 anos, Sarah, que mora na capital argentina, conta um pouquinho do que está acontecendo desde o dia 8 de outubro no país: 

CLAUDIA: Por que você foi morar em Buenos Aires?
Sarah: Vim para terminar a faculdade de arquitetura e decidi ficar. Posteriormente, consegui um emprego como designer gráfica, este foi mais um motivo. 

Você já foi à Mar del Plata?
Sim, Voltei de lá ontem inclusive. Fui para participar de uma feira de desenho. Ano passado fui para participar do Encontro Nacional de Mulheres, organizado nesta cidade. Mar del Plata é uma cidade meio pacata nesta época do ano, e um lugar bem problemático aqui em relação ao machismo. O que eu notei de diferente foram muitas intervenções artísticas nas paredes. Muitas frases de luta escritas por todo lado, mas as ruas permanecem vazias.

Por que problemático em relação ao machismo?
Está surgindo um movimento neonazista bem expressivo por aqui. Mesmo que a maioria das pessoas saibam quem são essas pessoas, ninguém faz nada. O líder do movimento é bem conhecido e nunca responde legalmente pelas coisas que faz. Essas pessoas, especificamente, são extremamente anti-feministas, o que acaba por podar as nossas ações e expressões naquela região. 

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Você participou de algum protesto que ocorreu nos últimos dias? 
Não, porque estava esperando a greve geral que vai acontecer hoje, às 17h. Eu vejo que a adesão é bem grande. Em 2015, aconteceu a primeira marcha “Ni Una Menos”, e acredito que reuniu cerca de 200 mil pessoas só na capital. 

Como estão as manifestações e paralisações de hoje?
Como teremos a greve geral, muitas mulheres estão se concentrando em diversas partes da cidade. Pelas redes sociais não se vê outra coisa. Mas desde o dia 8 de outubro, quando soube-se da morte de Lucía Perez há reuniões em todas as vias, principalmente na capital e em La Plata. Há muitos grupos responsáveis pelo “Ni Una Menos”, entre eles estão as meninas da Marcha de Las Putas, Pan Y Rosas, Mujer Basura, que cuida das intervenções artísticas, Maria Quitéria, que é o de brasileiras que vivem aqui. Tirando aqueles influenciados pelos partidos políticos.

Você encontrou muita gente de luto hoje?
Todas as mulheres com quem cruzei hoje estavam de preto, na rua, no trabalho, até as apresentadoras do jornal na televisão. Jovens de 16, 20 anos, mulheres de 30 e 40. Não encontrei senhoras mais velhas, mas acho que pode até ser uma questão de desinformação porque ficamos sabendo de tudo pela Internet. É bem bonito isso aqui. Muitas das mulheres que vão aos protestos e marchas nem se consideram feministas. Muitas vezes não são de acordo com pautas como o aborto, mas mesmo assim entendem que vai além disso, que é sobre ser mulher e ter um lugar na sociedade. 

O que você sentiu quando leu sobre Lucía Pérez?
Uma tristeza enorme. Estou na militância há algum tempo e cada notícia destas parece doer mais. Não é nem um ‘poderia ser eu’, sabe? É um ‘uma menos, outra mulher’. Acho que frustração também acontece porque a gente tem que continuar indo às ruas pedindo que não nos matem, é ridículo. A maior marcha vai ser aqui pelo número de participantes. O evento usa o nome “Justicia por Lucía”, mas a marcha é “Ni Una Menos, Nos Queremos Vivas.”

Qual vai ser o trajeto?
Vamos sair do Obelisco e caminhar até a Praça de Maio. 

Você já sofreu alguma violência apenas por ser mulher na Argentina?
A mais direta aconteceu quando um cara me atacou no trem voltando pra casa, eu reagi e ele me empurrou. Rasguei minha perna entre a plataforma e o trem e fiquei com uma cicatriz. Mas isso não é tão comum, o que acontece é que os caras aqui se sentem mais livres pra te dizer coisas fortes ou te seguir na rua só porque estão a fim. No Brasil, eu sabia por onde caminhar pra evitar que gritassem ou seguissem. Aqui você pode estar passando na porta de uma escola infantil durante o dia e o cara de terno e gravata, que estava esperando o filho sair, vai gritar que te partiria no meio, sem nenhum remorso.

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