A representatividade feminina na mídia ainda tem muito a avançar

Em evento inédito, CLAUDIA reuniu personalidades influentes de diversas áreas da comunicação para discutir representatividade feminina

Entre mais de 3 mil comerciais exibidos na tevê brasileira ao longo de uma semana em julho passado, apenas 26% dos protagonistas eram mulheres. O estudo, realizado pela diretora de planejamento da agência Heads Propaganda, Carla Alzamora, ainda aponta que, entre essas personagens, 84% eram brancas e 62% tinham cabelo liso.

Outro levantamento, da Universidade de Cambridge, sobre as Olimpíadas do Rio de Janeiro, mostrou que 79% dos jornalistas que fizeram a cobertura eram homens. Constatou, ainda, que, quando se trata de atletas mulheres, aspectos da vida pessoal são mais exaltados que os méritos esportivos.

Por fim, uma investigação da estatística americana Amber Thomas demonstrou que, nos dez filmes de maior sucesso do ano passado, as atrizes foram responsáveis por apenas 27% das falas.

Estatísticas assim mostram como a equidade de gênero ainda é uma realidade distante na mídia, e quem sai perdendo somos todas nós: menos representatividade em notícias, anúncios, filmes, novelas. Quando falamos de negras e transexuais, o abismo é ainda maior. Foi para discutir essas questões que, no dia 7 de março, CLAUDIA reuniu no Hotel Tivoli Mofarrej, em São Paulo, um time de 19 debatedoras no evento Mulheres na Mídia

Entre as convidadas, cerca de 250 executivas das principais agências e veículos brasileiros, que assistiram atentas às discussões propostas em cinco painéis, ao longo de todo um dia – transmitidas ao vivo, pelo Facebook, contabilizando mais de 230 mil visualizações. Confira a seguir destaques do que rolou em cada um deles. (Para assistir ao conteúdo na íntegra, acesse nosso canal no YouTube.) 

Os homens dominam o hard news e as opiniões?

Sheila Magalhães, Thaís Oyama e Malu Gaspar debateram sobre a falta de representatividade feminina em cargos expressivos do jornalismo

Sheila Magalhães, Thaís Oyama e Malu Gaspar debateram sobre a falta de representatividade feminina em cargos expressivos do jornalismo (Mariana Pekin/CLAUDIA)

Mediado pela editora de atualidades de CLAUDIA, Patrícia Zaidan, o primeiro painel do dia contou com Sheila Magalhães, editora executiva da rádio Band News FM, Malu Gaspar, repórter especial da revista Piauí, e Thaís Oyama, redatora-chefe de VEJA.

Magalhães, que apresenta um programa diário ao lado de um colega do sexo masculino, contou: “Em geral, quando ele dá uma opinião no ar, ela é bem aceita. Já eu, se dou a mesma opinião, principalmente se uso um tom de voz mais firme, recebo mensagens do tipo: ‘Você está histérica?’, ‘Não dormiu bem?’ ’’.

Ela também falou do diferente impacto das interrupções, prática natural em programas ao vivo. “Quando ele me interrompe para corrigir uma informação, o público entende que está tudo bem. Se faço o mesmo, a resposta é diferente: ‘Que chata!’, o ouvinte comenta. A saída é persistir, continuar opinando, não se intimidar.”

Gaspar, que destacou casos de assédio sofridos ao longo de sua carreira, acredita que essa mudança já está acontecendo. “Não só nós, jornalistas, mas as mulheres estão mais preparadas, hoje, para lidar com situações desse tipo”, disse. “A saída é pela educação, tanto dos meninos como das meninas”, destacou Oyama.


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Representatividade no universo digital

Stephanie Ribeiro, Alexandra Loras, Fernanda Cerávolo e Fiamma Zarife debateram a importância da diversidade nos meios digitais

Stephanie Ribeiro, Alexandra Loras, Fernanda Cerávolo e Fiamma Zarife debateram a importância da diversidade nos meios digitais (Mariana Pekin/CLAUDIA)

Quando se viu como única aluna negra na faculdade de arquitetura, Stephanie Ribeiro começou a postar nas redes sociais sobre o assunto. Ela tinha 18 anos e, para sua surpresa, os textos que relatavam situações banais do seu cotidiano, como o fato de não encontrar coletivos de arquitetas negras, reverberaram negativamente. “Continuei a publicar. O essencial é que se quebre a hegemonia nos espaços de poder”, sentencia.

Persistência também é a estratégia da ativista Alexandra Loras: “Não apago os comentários dos haters. É importante deixar lá porque aí todos veem como o racismo existe”. Ainda assim, Fiamma Zarife, diretora-geral do Twitter no Brasil, afirma que é preciso coibir os ataques nas plataformas digitais. “Lançamos, recentemente, uma série de ferramentas para que os usuários tenham uma experiência mais segura. É possível silenciar um perfil que tenha cometido algum tipo de abuso ou uma hashtag que dissemine o ódio”, explica.

Para Fernanda Cerávolo, à frente do YouTube Brasil, deve-se assumir as rédeas e preparar crianças e jovens para a diversidade: “Sem ela, não há criatividade, as empresas morrem, perdem até o valor na Bolsa (de valores)”.


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O papel das mulheres no entretenimento

Vera Egito e Taís Araújo lamentaram a falta de mulheres negras nas produções cinematográficas e televisivas e ressaltaram a necessidade de mudança

Vera Egito e Taís Araújo lamentaram a falta de mulheres negras nas produções cinematográficas e televisivas e ressaltaram a necessidade de mudança (Mariana Pekin/CLAUDIA)

“Quantos Moonlight foram produzidos e nem ficamos sabendo?”, pergunta Taís Araújo sobre o filme premiado no Oscar, que retrata a trajetória de um jovem negro gay. Daniela Mignani, diretora do GNT, e a cineasta Vera Egito concordaram que a falta de representatividade na TV e no cinema é gritante.

A pesquisa A Cara do Cinema Nacional, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, com base nos lançamentos de maior bilheteria entre 2002 e 2012, constatou que 84% dos filmes foram dirigidos por homens brancos; 13%, por mulheres brancas; 2%, por homens negros. Nenhum por negra.

Maria Clara Spinelli, Daniela Mignani e Patricia Kamitsuji falaram sobre a importância de os veículos de comunicação jogarem luz sobre certos temas

Maria Clara Spinelli, Daniela Mignani e Patricia Kamitsuji falaram sobre a importância de os veículos de comunicação jogarem luz sobre certos temas (Mariana Pekin/CLAUDIA)

E falta sutileza ao retratar a diversidade, como destacou Maria Clara Spinelli: “Quando se referem a mim nas matérias, escrevem: ‘A atriz transexual Maria Clara…’ Ora, minha profissão é atriz, não transexual”.

“A ignorância é a raiz e o pilar do que acontece na sociedade”, pontuou Mignani. “Quando colocamos no ar a série Liberdade de Gênero, entendemos que aquilo é educar, é fazer com que a parcela raivosa da população que diz que estamos contra ‘a família tradicional’ perceba o outro.”

É essencial a atenção das que têm poder de decisão no entretenimento, alertou Patricia Kamitsuji, diretora-geral da Fox Warner Brasil. Só assim essa barreira será superada. 


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A publicidade e o reforço de estereótipos

 Laura Chiavone, Carla Alzamora, Joanna Monteiro e Gal Barradas relataram o quanto o ambiente da publicidade continua machista

 Laura Chiavone, Carla Alzamora, Joanna Monteiro e Gal Barradas relataram o quanto o ambiente da publicidade continua machista (Mariana Pekin/CLAUDIA)

“A publicidade nas mais diversas mídias perpetua os estereótipos de gênero e a objetificação da mulher”, afirmou a redatora-chefe de CLAUDIA, Bel Moherdaui, abrindo o quarto painel do dia. As publicitárias, além de minoria nas agências, costumam ser excluídas das decisões – e mais de 50% contabilizam ao menos um episódio de assédio na carreira, como confirmou Laura Chiavone, chief strategy officer da Tribal Worldwide New York.

Não é de estranhar, portanto, que tantas peças tenham teor machista. “Todos os clientes sabem do nosso posicionamento, mas cada um está numa fase diferente desse processo e é preciso dialogar”, atentou Carla Alzamora, diretora de planejamento da Heads Propaganda, primeira agência brasileira a se tornar signatária dos princípios de empoderamento das mulheres da ONU.

“A publicidade reflete o que acontece na cultura”, pondera Joanna Monteiro, diretora de criação da agência FCB Brasil. Para ajudar a mudar isso, a francesa BETC, da qual Gal Barradas é copresidente no Brasil, adotou uma política mundial de ter pares de CEOs (sempre uma mulher e um homem) em seus escritórios regionais e na presidência do grupo. Sem dúvida, um bom caminho.   


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Para as mulheres, a aparência conta tanto quanto para os homens?

Daniela Schmitz, Cynthia de Almeida e Daniela Cachich debateram sobre o quanto a sociedade ainda dá mais valor à aparência das mulheres do que ao conteúdo

Daniela Schmitz, Cynthia de Almeida e Daniela Cachich debateram sobre o quanto a sociedade ainda dá mais valor à aparência das mulheres do que ao conteúdo (Mariana Pekin/CLAUDIA)

Cynthia de Almeida, consultora editorial e colunista de CLAUDIA, observou que o guarda-roupa feminino é mais avaliado (e criticado) do que o masculino. “Não existe liberdade: quem se veste mal é julgada, mas aquela que perde muito tempo pensando na produção pode parecer frívola… É um mundo difícil, este nosso.”

Daniela Cachich, vice-presidente de marketing da PepsiCo Brasil Foods, concordou. “Aos 20 anos, eu olhava uma mulher na cadeira onde estou hoje e via alguém que não casara, que abdicava da vida pessoal, não tinha filhos e se vestia como homem. Era a única forma de se mostrar competente. Eu achava isso tão errado! Por que uma mulher precisa abrir mão disso tudo e da maneira como gosta de se vestir para fazer sucesso?”, questionou. “Hoje, por outro lado, o perfil de se arrumar, de ser vaidosa, também é criticado. Acho que vale a reflexão.”

Daniela Schmitz, vice-presidente da agência Edelman Significa, pontuou: “Nossa cultura dá mais valor à aparência das mulheres do que a seu conteúdo. Ainda vivemos em uma sociedade com muitas contradições. A mudança tem que acontecer”. Como profissionais ou consumidoras, precisamos ficar atentas.


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