“Minha filha e eu vimos de perto a maior crise humanitária desde o fim da 2ª Guerra”

A paulista Kety Shapazian, 49 anos, passou dois meses com Gabriela, 16, na ilha grega de Lesvos, ajudando refugiados.Ela conta como essa experiência mudou a vida das duas.

“Vi minha filha, Gabriela, virar adulta na minha frente nessa viagem. Sabia que um dia ela trabalharia ajudando as pessoas, mas não que começaria tão cedo. Quando chegamos à Grécia, em dezembro do ano passado, ela era uma adolescente de 16 anos que queria auxiliar refugiados sírios e afegãos a desembarcar em segurança na Ilha de Lesvos. Dois meses depois, havia se tornado uma jovem mulher.

Nós duas decidimos passar uma temporada como voluntárias no ponto de apoio da praia de Skala Sikaminias, a porta de entrada dos refugiados na Europa. A costa norte da ilha fica a apenas 10 quilômetros por mar da Turquia. Essa distância é percorrida diariamente em botes por pessoas em fuga de guerras como as provocadas pelo Estado Islâmico, na Síria, e pelo Talibã, no Afeganistão. Estávamos na linha de frente da maior crise humanitária desde o fim da Segunda Guerra.

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Kety e Gabriela

Sempre acompanhei de perto os conflitos do Oriente Médio. No início de 2011, quando irrompeu a Primavera Árabe no Egito, descobri que pelo Twitter era possível repassar informações de pessoas locais para grandes veículos de comunicação. Assim, comecei um intenso trabalho de ativismo online. O sofrimento dos sírios me toca muito. Em 2015, no ápice da crise dos refugiados na Europa, decidi que precisava fazer mais. O primeiro empurrão veio da Gabi, que disparou: ‘Mãe, compra uma passagem e vai’. Muita gente falava que essa tragédia não era minha, mas acredito que dramas como esse dizem respeito ao mundo inteiro. Hoje, 60% dos refugiados que chegam à Europa são mulheres e crianças. E há 10 mil menores desaparecidos – estão em redes de pedofilia, de tráfico de pessoas e de órgãos.

Durante a organização da viagem, a Gabi se envolveu de tal maneira que acabou querendo ir junto. Minha mãe e minha irmã colaboraram no financiamento  de passagens e estadia. Portanto, posso dizer que essa jornada foi uma força-tarefa de mulheres sensibilizadas, dispostas a agir para ajudar outras mulheres. E tenho certeza de que foi a experiência de nossa vida.
 
De frente para o conflito
A polícia grega não intervém no resgate dos refugiados, tampouco as grandes instituições. Quase todo o amparo que as pessoas que chegaram à Europa em 2015 – mais de 1 milhão – receberam veio de civis, como eu e a Gabi. Os voluntários montaram toda a logística de recepção após a travessia, que, infelizmente, é ilegal: os refugiados são proibidos de pegar a balsa da Turquia para a Grécia.

Ficamos no ponto de apoio de um grupo anarquista chamado Plátanos, uma iniciativa de moradores de Atenas. Assim que um barco aparece no horizonte, grupos de voluntários com médicos e salva-vidas o interceptam para evitar o naufrágio. Esse é um momento bem delicado. As embarcações não são seguras e a travessia é realizada por coiotes, que colocam 80 pessoas em barcos para 20, vendem coletes salva-vidas falsificados e chegam a cobrar pelas doações humanitárias, que são distribuídas gratuitamente em terra. 

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Coletes descartados pelos refugiados

O Mar Egeu é congelante, e os refugiados aportam exaustos e encharcados, sob risco de hipotermia. Há crianças desacompanhadas, idosos, pessoas com deficiência e grávidas. Muitas vezes eles não sabem onde estão. Alguns me perguntavam: ‘Aqui é a Europa?’ Teve o caso de uma menina de 4 anos e um menino de 9 que chegaram sozinhos, trazendo um bilhete na mochila com vários números de telefone. A mãe das crianças estava em Atenas esperando que a sorte e estranhos conduzissem os dois até ela.

Após o desembarque, levávamos todos para vestiários, onde podiam tomar banho e receber roupas secas doadas por pessoas do mundo inteiro. Depois, servíamos uma refeição – a mesa era arrumada da melhor maneira para que eles se sentissem como se fossem nossos convidados. Essa etapa é apenas uma fração da jornada que esses refugiados enfrentam até encontrar lugares onde possam recomeçar a vida. Seus sonhos são sempre os mesmos: estudar, trabalhar, ter uma casa e um dia voltar para ajudar na reconstrução de seu país. 

Eu me perguntava se a Gabriela estava pronta para ver toda aquela tragédia – eu mesma não estava. Descobri que não há preparação possível: você só precisa dar o seu melhor. Passamos por muita coisa. Vi uma mulher que morreu de hipotermia ser retirada de um barco, por exemplo. Um dia um bote virava e havia muita tristeza, mas logo em seguida uma família desembarcava a salvo e era uma alegria imensa. Eles ficavam radiantes, agradecendo e querendo tirar fotos para registrar que estavam vivos.

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O que eu já sabia sobre o drama dos refugiados se materializou em Lesvos. Se antes eu lia os relatos pelas redes sociais, na Grécia pude tocar nessas pessoas, abraçá-las e escutar suas histórias. Quando voltamos, criamos um projeto chamado Flores para os Refugiados. Eu vendo arranjos florais feitos por mim e pela Gabi em praças e semáforos de São Paulo – nos fins de semana fico no Armazém da Cidade, espaço de eventos localizado no bairro da Vila Madalena. O dinheiro é todo revertido para a causa. Além disso, amparamos algumas famílias que se instalaram na cidade e estou escrevendo um livro infantil sobre a crise humanitária que se passa na Ilha de Lesvos.

A Gabi, por sua vez, voltou sozinha para a Grécia durante as férias de julho. Ela trabalhou em um campo de refugiados perto da cidade de Tessalônica, em ocupações anarquistas do porto de Atenas e em Lesvos. Além disso, apadrinhou uma criança síria por meio do fundo de ajuda Noah. Os moradores de Skala também continuam com o trabalho humanitário e o reconhecimento é grande: neste ano, foram indicados ao Prêmio Nobel da Paz.

Tivemos toda a sorte do mundo por conseguir ajudar e receber todo esse amor em troca. Não acredito em destino, mas percebi que eu tinha que estar lá. E uma das minhas grandes missões era levar a Gabi, que se transformou em uma mulher inspiradora.” 

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