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Luiza Brunet: “Não esperava ser agredida pelo homem que eu amava”

Luiza Brunet conta o que considera o pior momento de sua vida: a violência física cometida pelo marido. E promete lutar para que os homens parem de matar 13 mulheres todos os dias no Brasil

Por Patrícia Zaidan - 6 out 2016, 15h51

Em maio passado, a empresária, modelo e atriz Luiza Brunet, 54 anos, voltava de um jantar em Nova York quando foi agredida pelo empresário Lírio Parisotto, 62, com quem mantinha uma união estável fazia cinco anos. Luiza acompanhava o marido, que havia viajado a negócios. O casal aproveitara para passear. Ele comprou vinhos e se mostrava carinhoso até irem, naquela noite do dia 21, ao restaurante onde ocorreu uma discussão. Parecia ter ficado ali a discórdia. Chegando em casa, Luiza sentou-se no sofá com um cigarro na mão. O parceiro foi se trocar e voltou irritado, ofendendo-a verbalmente. Ela recebeu chutes na perna, um soco no rosto e, por fim, viu-se imobilizada no sofá. Em menos de uma semana, com a alma machucada, o olho roxo e quatro costelas quebradas, Luiza gravava sua primeira cena na novela Velho Chico, da Rede Globo. Esses detalhes estão descritos em uma ação que foi parar no Fórum Criminal da Barra Funda, em São Paulo.

Em junho, ao Ministério Público, ela denunciou o agressor, que está entre os homens mais ricos do Brasil, segundo a revista americana Forbes. Quando o escândalo se tornou público, ele escreveu uma nota lamentando “versões distorcidas”, que seriam esclarecidas “nas esferas legais”. A juíza Elaine Cristina Monteiro Cavalcante decretou uma medida protetiva impedindo que Lírio se aproxime da ex-mulher. Outra juíza, Lilian Lage Humes, aceitou a denúncia oferecida pelo promotor Bruno Gaya da Costa, e Parisotto tornou-se réu em um processo que corre em segredo de Justiça. Procurado por CLAUDIA, por meio de seu advogado, ele não se manifestou. Mas tem se defendido com a alegação de que Luiza é descontrolada e que o agredira antes.

Denunciar exige coragem, e nem sempre as vítimas conseguem. Principalmente quando o caso envolve filhos pequenos, casais famosos e desdobramentos que ferem a imagem. Luiza revela que optou por esse caminho para interromper ataques que cresciam e incentivar outras vítimas a tomarem a mesma atitude. Há quatro anos embaixadora do Instituto Avon, que combate à violência doméstica, ela quer ser uma militante ainda mais aguerrida. Quase quatro meses após o episódio, em fase de recuperação física e emocional, ela concedeu esta entrevista exclusiva:

CLAUDIA: O que serviu de estopim? Um motivo sério ou uma discussão banal?
Luiza Brunet: Um motivo bobo. Jantávamos em um restaurante com um casal e uma amiga. Uma das pessoas comentou algo, ele não gostou e se manifestou. Não concordei com ele; disse que não era exatamente aquilo que havia acontecido. Ele alterou bastante a voz, passou a falar coisas desagradáveis. Eu me calei, não queria estender a discussão.

Depois da agressão, eu me tranquei em um quarto e só saí no outro dia. O amor morreu ali.

Como foi o dia seguinte? Você antecipou a sua volta para o Brasil?
Depois da agressão, eu me tranquei em um quarto e só saí no outro dia. Passei a noite fumando, sem dormir. Liguei para uma amiga, ela me aconselhou a deixar o apartamento dele ainda de madrugada. Mas não me sentia segura, estava confusa. Pedi para minha secretária comprar uma passagem urgentemente. Assim que notei tudo quieto – ele havia saído para almoçar, fui embora. Cheguei ao aeroporto antes das 15 horas. Voei às 21. Estava tudo acabado. O amor morreu ali.

Ele alegou que você é descontrolada… 
Essa é a defesa de todo agressor. Ele torna a vítima culpada. Nada justifica a agressão a uma mulher.

Quando foi à delegacia fazer a denúncia?
Preferi ir direto ao Ministério Público. Seis dias após a agressão, eu gravei minha primeira cena na novela (interpretou Madá, dona de um bordel). Saí do estúdio sentindo dores horríveis, passei uma noite péssima. O médico que me acompanha há 25 anos tinha receitado anti-inflamatório e analgésico e pedido uma radiografia. Apareceu apenas uma costela quebrada. Como as dores não cessavam, ele quis uma tomografia computadorizada. Ela mostra fraturas na sétima, oitava, nona e décima costelas. Novos exames foram feitos no Instituto Médico Legal (IML). E, quando me senti mais segura, entrei com a representação.

Você contou aos seus filhos sobre a violência sofrida e avisou que faria uma denúncia?
Sim, isso é muito importante. Antonio tem 17 anos, e Yasmin, 28. São adultos. Meus filhos gostavam dele; viajávamos todos juntos algumas vezes. Expliquei que decidira partir para a denúncia. Yasmin ficou um pouco insegura; Antonio, decepcionado. Depois, transtornado. Ele se perturbou com a ideia de a mãe ter sido agredida por um homem – fosse ele quem fosse. Contei porque meus filhos tinham o direito de saber e para prepará-los. Não queria que fossem surpreendidos pela mídia. Eles se acalmaram e logo me apoiaram. Não tocaram mais no assunto, embora se preocupem e sempre perguntem se já estou melhor.

Muitas vítimas se queixam de machistas nas delegacias e IMLs, onde, não raro, atribuem a elas a culpa pela violência. Você é uma pessoa pública. Acha que teve um tratamento diferenciado?
O IML estava meio vazio, logo fui atendida. Não vi nenhuma mulher sofrer desrespeito lá. Mas sei que ocorre. Nesse caso, ela deve denunciar o profissional e o departamento à corregedoria e ao Disque 180. Se o serviço não for bom, a vítima se abala ainda mais, vai para casa, desiste de procurar a Justiça e de se cuidar.

Quem conhece a Lei Maria da Penha, que você divulga, se sente protegida, crê que nunca será vítima. Você se surpreendeu?
Passar pela situação é terrível. Tenho todas as informações na mão. Ajudo as mulheres a reconhecer qualquer tipo de violência, seja verbal, patrimonial, psicológica ou física. Eu sabia que não podia deixar que me tratasse daquela forma. Isso agride ainda mais a psique. É um constrangimento total e difícil de descrever.

Por que deixou chegar àquele ponto?
É como o fim de um casamento. O casal vive em perfeita harmonia até que, de repente, algo ocorre, o amor deixa de existir. A mulher não percebe quando isso se dá. Ela vai se enganando e dizendo para si mesma: “É bobagem, vai passar! Talvez eu tenha provocado. Posso ter desagradado em alguma coisa”. É a armadilha que a mulher monta para si própria. 

Você chegou a acreditar que provocou a ira dele?
Nunca. E não provoquei mesmo. Sou comprometida com o casamento. Gosto de arrumar a casa, cozinhar, receber amigos. Sou parceira. E, ainda que não fosse assim, não merecia apanhar. Fiquei revoltada. No primeiro momento, tudo parece nebuloso. Eu me questionava: “Será que falo? Fico na minha? Deixo passar?”.

Alguém tentou demover você? 
Amigos dele ou do casal, empresários que a contratam, parentes? Muitos sugeriram:”Deixa disso. Vai ser ruim para ele e para você”. Mesmo tendo um certo medo, eu não baixaria a guarda. 

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Trabalhar com o olho roxo não me envergonhou, a gente tem que dar um basta à situação. Maridos e namorados matam 13 mulheres todos os dias. 

 
Medo de quê? Da reação do ex, do juízo dos outros, de perder o lado bom do casamento, da solidão?
De tudo. Do agressor se tornar mais violento. Medo de me expor com a autoestima ferida. Minha vida é certinha, jamais me envolvi em escândalos. O que faço é aberto. Tomei atitudes de risco. Por exemplo, revelei que fiz aborto porque achei importante. É proibido, as mulheres fazem de forma perigosa e muitas morrem. A lei precisa mudar. Nunca escondi nada por sentir que sou respeitada e admirada no país. E a decisão foi acertada. As pessoas se espantaram com o fato de eu ter sido agredida e não esconder. Virou uma comoção nacional, recebi solidariedade. Quer saber? Eu fiquei bastante tempo mal, sim. Mas ir trabalhar com o olho roxo, detonada no sentido psicológico, não me envergonhou. Nesta entrevista, faço meu papel de cidadã, conto pela primeira vez os detalhes. A gente tem que dar um basta à situação. Maridos e namorados matam 13 mulheres todos os dias. As pessoas não conhecem a Lei Maria da Penha. Passei a responder, no Instagram, a dezenas de perguntas, explicar o passo a passo da denúncia. E farei mais: vou dar palestras, participar de grupos, alertar as mulheres para que sejam corajosas e coerentes.

Você sofreu prejuízos? Perdeu trabalhos? Irritou-se ao ler, nas redes sociais, que queria uma indenização?
Sustento a família com o meu trabalho. Precisei desmarcar fotos e presença em eventos. Não sentia vontade de sair. Nas redes sociais, via barbaridades atingindo o meu caráter. Disseram que armei tudo para conseguir dinheiro fácil, que quebrei as costelas, dei um soco no meu olho. Coisas nojentas. Lia e deletava. Deu vontade, mas não revidei. Eram inverídicas, distantes do meu comportamento. Não valia a pena. Muitos opinavam como se estivessem do lado, vendo tudo, e concluíam: “Ela mentiu. Se fosse verdade, procuraria a polícia americana”; “Uma mulher quebrada não viaja de avião”; “Ninguém viu o olho roxo?”; “Como gravou a cena da novela, em que é jogada na parede?”. Ora, um soco não deixa roxo no dia. Fiquei com o rosto congestionado, com o olho meio fechado, vermelho. Só depois surgiu o hematoma. Eu não sabia que estava com as costelas quebradas. Tenho muita tolerância à dor. Já a cena foi gravada em partes e depois montada.

Você se sentiu segura para entrar em Velho Chico logo após o episódio e com a face marcada?
Eu não desistiria de uma novela importante. Fiquei honrada em fazer um teste. Mas não passei. Sem nenhum problema. Então, o diretor Luiz Fernando Carvalho, que admiro, disse que, se aparecesse um papel que eu pudesse interpretar, me encaixaria. Na segunda etapa, ele me chamou. Começaria a gravar na volta dos Estados Unidos. Não contei tudo o que havia acontecido para Luiz Fernando. Falei que tinha tido um problema. Ele viu meu rosto, percebeu do que se tratava, mas não fez perguntas. A primeira cena foi agressiva: Afrânio (Antonio Fagundes) me atira na parede. Eu não estava vivendo aquilo com um homem que amava, mas com um profissional. Atores e equipe técnica foram compreensivos. A professora de prosódia ia em casa, ajudava a decorar o texto; Rubens Liborio, o supervisor de caracterização, cuidou muito para esconder as marcas. E usei uma peruca loira maior para esconder um pouco o olho. Mas, quando revejo a cena, noto o inchaço.

O que fez para o emocional não desabar?
Toquei a vida. Contei com a ajuda de profissionais, que continuam me assistindo. Agora ela está exatamente como era antes. Exatamente igual? Quase. Até hoje não voltei aos exercícios físicos. São quatro meses de recuperação. Costelas se calcificam sozinhas e com certo repouso. Não carrego peso nem faço coisas que exijam movimentos bruscos. No primeiro mês, era difícil respirar. Peguei uma gripe forte, sofri ao tossir e espirrar. 

O processo descreve uma agressão anterior, em dezembro de 2015. Seu dedo anelar da mão esquerda ficou quebrado. Não denunciou porque na época perdoou seu companheiro?
Ainda terei que fazer uma cirurgia no dedo porque houve rompimento de ligamentos. Mas perdoei. Ele era o homem por quem me apaixonara. Quando o conheci, foi doce, gentil e me conquistou.

Ele pediu desculpas?
Sim. A mulher acha que o homem vai mudar e aceita o pedido. Após as agressões, me recolhia. Eu me sentia mal. Falávamos por WhatsApp ou telefone. Ficávamos juntos porque tinha amor envolvido. É difícil criar coragem e colocar um ponto final, como só agora consegui.

Há um ciclo clássico em que o violento conquista, depois desqualifica a mulher, passa às ofensas verbais até bater. Isso ocorreu?
No começo, você é a melhor, a mais bonita. Teve isso, sim. Ele me admirou como mãe, empresária, mulher articulada e inteligente. Estávamos sempre juntos, éramos felizes. No meu caso, foi diferente: ele passou do enaltecimento para a violência física.

Você esteve em eventos com Maria da Penha. Conversou com ela depois da agressão?
Não a encontrei, mas quero abraçá-la. Toda brasileira deve muito a Maria da Penha, que terminou uma relação doentia e lutou por uma lei considerada pela ONU uma das três mais modernas do mundo. Acho que vou beijar a Maria e começar a chorar. Direi que não passei o que ela passou (um tiro nas costas a deixou paraplégica), mas sofri e sei avaliar a dor de qualquer mulher em situação de violência.

Na cerimônia de entrega do Prêmio CLAUDIA 2016, Maria da Penha foi homenageada como vencerdora hors-concours e recebeu o troféu das mãos de Luiza Brunet. Veja detalhes do encontro.

No seu livro, Luiza Brunet – Made in Brazil, você conta que se punha na frente da sua mãe para que seu pai não a matasse. Reviveu a violência que presenciava na infância? 
Sim. Naquela época não existia consciência. Muitas mulheres apanhavam, se submetiam a tudo, viviam assim até quando desse. Meu pai era ciumento, bebia e ficava violento. Minha mãe só se separou 24 anos depois do casamento. Quando aconteceu comigo, passou um flash: “Nossa! Como ela conseguiu suportar?”. Ao denunciar, curei aferida –a minha e a dela– e quebrei o mito de que é preciso aguentar calada. 

Apanhar como apanhei, aos 54 anos, foi o pior. E veio de um homem que eu amava. 

Você passou fome; foi doméstica; abusada sexualmente aos 14 anos; rompeu de forma brusca com Humberto Saad, o empresário de moda que a lançou; saiu de um casamento de 23 anos arrasada; e sofreu violência física. O que a chocou mais?
Apanhar como apanhei, aos 54 anos, foi o pior. Sustentei cinco irmãos, mãe e um pai alcoólatra por amor. O velho que abusou de mim aos 14 era um estranho. A briga com Saad, negócio: eu tinha 19 anos, era top na carreira e não queria mais ser explorada. Hoje Saad me respeita. A separação do pai de meus filhos doeu muito, porém foi a alternativa ao desgaste. Mas agora, quando queria paz e sossego, me ocorreu o mais triste. E veio de um homem que eu amava. 

O processo descreve uma lesão grave e outra leve. A penalidade é de um a três anos de prisão. Qual é a sua expectativa para o desfecho?
Espero que haja punição. Já o tamanho dela cabe à juíza decidir. Eu confio na Justiça.

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