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Galera do Click: Projeto de fotografia capacita jovens com Down

Mãe de rapaz com Down, a fotógrafa Sandra Reis abre as portas do seu estúdio para ensinar fotografia pessoas com a síndrome

Por Lia Rizzo - Atualizado em 21 mar 2018, 20h16 - Publicado em 21 mar 2018, 19h06

Duas vezes por semana, a fotógrafa Sandra Reis abre as portas do estúdio que tem em sua casa, na Zona Norte de São Paulo, para receber crianças, jovens e adultos e ensinar fotografia. Ali, funciona há cinco anos o projeto Galera do Click, onde além da paixão pelos “cliques”, os alunos compartilham outra coisa em comum: um cromossomo 21 a mais que a maioria da população. Todos têm Síndrome de Down.

Sandra é mãe de Felippe, um jovem de 25 anos, que também tem Down. Quando criança, ele a acompanhava nos espetáculos de dança que ela costumava fotografar. Para distrai-lo, emprestava câmeras e começou a ensinar algumas técnicas. Percebeu surpresa, que o menino levava muito jeito e passou a estimular seu talento. E logo viu ali, um caminho para proporcionar uma inclusão mais efetiva.

A fotógrafa Sandra Reis e a Galera do Click Arquivo Pessoal/Divulgação

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“Felippe sempre esteve inserido em todos os nossos círculos e foi tratado da mesma forma que meus outros dois outros filhos. Frequentava escola, é o primeiro judoca brasileiro faixa preta com deficiência intelectual e participa inclusive de campeonatos internacionais. Mas a partir de uma certa idade, passou a sentir falta de outras coisas como namorar, estar entre seus iguais, se sentir mais pertencido”, explica.

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A turma inaugural do Galera do Click foi formada em 2013, por 20 alunos, que aprenderam técnicas de enquadramento, iluminação e foco. Para praticar, atuaram como fotógrafos e modelos na concepção do calendário “O que é especial merece ser fotografado”, com direito a lançamento e tarde de autógrafos. Formou-se uma grande comunidade. Nasceram amizades, começaram namoros, vieram programações paralelas e, no caso de alguns alunos, mais que hobby, a fotografia virou oportunidade de trabalho.

Falta de recurso ameaça futuro

Não à toa, em pouco mais de quatro anos, o projeto quadruplicou de tamanho. E há cerca de dois anos, Sandra resolveu convertê-lo em ONG para facilitar a captação de recursos. “Trabalhamos aqui com poucos equipamentos e os alunos colaboram com um valor simbólico, que cobre basicamente despesas com limpeza do estúdio e manutenção das câmeras”, explica ela, que para manter a iniciativa em funcionamento, ainda promove bazares e eventos beneficentes. O espaço, porém, começou a ficar pequeno. E a falta de recursos ameaça seu futuro.

Para tentar manter a Galera do Click, a fotógrafa tem apostado na colaboração de voluntários que chegam a ela não apenas por solidariedade ao projeto, mas em busca de inclusão real e acolhimento, pais ou cuidadores que querem oferecer mais que as terapias necessárias ao desenvolvimento dos filhos. Como é o caso da diretora de fotografia Mariana Vieira Elek Machado, mãe de Elena, de 2 anos e meio, e Ulisses, de um ano e dois meses, que tem síndrome de Down.

Mariana Vieira Elek com o filho Ulisses Arquivo Pessoal/Reprodução

“Soube do projeto por meio de uma amiga, logo que meu filho nasceu. Mas quando conheci pessoalmente, há algumas semanas, fiquei emocionada. Mais que um novo caminho, o projeto da Sandra é uma luz. É uma experiência real que mostra que para aprender, essas pessoas, crianças ou adultos, só precisam de espaço e oportunidade”.

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Para apoiar o trabalho da ONG, Mariana desenvolveu um vídeo de divulgação. E passou a acionar sua rede de amigos e a do marido, Cassiano Elek Machado.

Dia internacional chama atenção para síndrome

Em virtude de a síndrome ser causada por uma falha no processo de divisão celular do embrião, que em vez de se dividir e formar um par, traz três cromossomos “21” em pessoas que têm Down, o dia 21 de março foi estabelecido como dia internacional da causa em 2006. A ideia partiu da organização Down Syndrome International com a finalidade de dar visibilidade ao tema e reduzir preconceitos e a disseminação de informações incorretas. Algo extremamente necessário, no cenário de insensibilidade e intolerância com o “diferente” em que vivemos atualmente.

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