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“Foi uma gravidez de muito sofrimento, em um país onde eu não tinha ninguém”

A senegalesa Ndéye deixou o seu país e o seu marido quando estava grávida da primeira filha, em busca de uma vida melhor

Por Aline Takashima (colaboradora) Atualizado em 28 out 2016, 09h59 - Publicado em 6 Maio 2016, 11h57

Neste Dia das Mães, CLAUDIA produziu três reportagens sobre mães imigrantes e refugiadas. Para sobreviver, elas fogem e arrastam toda a família, ou parte dela, em busca de segurança. Deslocam-se por conta de perseguições políticas e religiosas, violações de direitos humanos e questões econômicas. Muitas não escolhem o Brasil. Param aqui por sorte do destino. Embarcam em um navio sem saber o ponto final. Conversamos com mães que trouxeram os filhos, como a colombiana Yurani, as que deixaram os filhos, como a congolesa Sylvie e as que engravidaram no Brasil, como a senegalesa Ndéye, cuja história você lê a seguir. 
           
Deitada no colo da mãe, Mame Diarra, de 1 ano e quatro meses, abre um sorriso e mostra os dentinhos enquanto brinca com o laço estampado em sua cabeça. A senegalesa Ndéye Astou Coulibaly não queria engravidar da caçula, no ano passado. Ao contrário da primogênita, Mame Sophie, de quatro anos, a filha prometida ao marido *Moustapha, que sonhava em ter uma menina com a esposa, de 29 anos. Mame Diarra é filha de um brasileiro. Assim como a sua irmã, ela também não conhece o pai. 
Em 2012, Ndéye viajou grávida para o Brasil com o cunhado. Decidiu recomeçar a vida em outro país após a morte do pai, juíz federal e pai de oito filhos. “Minha vida era confortável até que meu pai morreu. Não tinha dinheiro. Minha história e dificuldade começam no Brasil.”

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Segundo o Comitê Nacional para os Refugiados (CONARE), 2.575 senegaleses pediram refúgio no Brasil em 2014. O órgão não aceitou nenhum pedido. É considerado refugiado quem sofre perseguições políticas e religiosas e sofre violações de direitos humanos. A razão principal do exôdo senegalês é econômica. Eles vêm ao Brasil em busca de trabalho. O último levantamento do Ministério do Trabalho e Emprego, de dois anos atrás, revela que 4.096 senegaleses possuem carteira de trabalho.
Moustapha encontraria Ndéye e a filha Mame Sophie no Brasil. Até hoje não conseguiu o visto e dinheiro para a viagem. “Foi uma gravidez de muito sofrimento em um país onde eu não tinha ninguém. Meu cunhado não cuidou de mim. Vivia com medo. Você sofre e tem uma coisa inocente na barriga, um ser humano que ama”, desabafa Ndéye. A senegalesa se divorciou há dois anos por conta das dificuldades no Brasil, brigas e a própria distância física.
Em 2014 engravidou de Mame Sophie. O pai da criança não registrou a filha. Ndéye se viu sozinha mais uma vez. “A situação era difícil desde que tive Sophie. Eu estava desempregada. Entrei em depressão. Mame Diarra estava dentro de mim, mas não podia. Eu não queria”, confidencia. À medida que a barriga crescia, o sofrimento aumentava. “E se ela passar fome e frio na rua?”, pensava. Na época, conversava sobre adoção com uma psicóloga e assistente social em um abrigo no Brás, bairro onde morava.
Na véspera do Natal de 2014, Ndéye mudou-se para a casa dos brasileiros, Leonarda e Wagner. O casal, que tentava engravidar há três anos e meio, queria adotar Mame Diarra. “Ela vai ser uma princesa. Eu prometo cuidar dela. Ela será minha filha”, dizia a babá brasileira. Leonarda acariciava a barriga da senegalesa sempre que o bebê se mexia. Ndéye sentia ciúmes dos cuidados de Leonarda com Mame Diarra.
No Brasil, 6.532 crianças aguardam a adoção, segundo o Conselho Nacional de Justiça (CNJ). O caminho até conseguir a guarda de uma criança é trabalhoso. O primeiro passo é se cadastrar como pretende à adoção, na Vara da Infância e Juventude. Ocorre que algumas pessoas registram o filho biológico de outra mãe burlando o processo legal. É a chamada adoção direta ou à brasileira, procedimento que o casal de brasileiros Leonarda e Wagner tentava efetuar. A promotora de justiça Larissa Ouriques explica que a estratégia é uma situação de risco para as crianças e as famílias . “O Ministério Público protege o processo de adoção para que a criança seja encaminhada para uma família habilitada. Essa exigência é necessária para evitar a venda e doação de órgãos, trabalho escravo e violência sexual. Dessa forma, a justiça monitora os encaminhamentos da família substituta.”

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Ndéye prometeu que não iria amamentar, mas mudou de ideia assim que viu a filha recém-nascida com o dedo na boca. “Quando ela mamou eu fiquei confiante e sem medo. Se a chuva cair em cima de mim, será em cima de todas nós. Porque o que ela mais precisa é da mãe. Sentir o meu cheiro e ficar comigo.” Leonarda ficou triste ao saber que a senegalesa iria assumir a filha, porém não imaginava que, naquele momento, estava grávida de uma menina.

Jorge Hynd
Jorge Hynd

A imigrante faz parte das 67 milhões de mães no Brasil, segundo o Instituto Data Popular. Dessas, 46% trabalham e 31% são solteiras, como a senegalesa. Quando Mame Diarra completou dois meses, Ndéye começou a vender comida típica do Senegal em marmitas. Contratou uma babá para cuidar da caçula enquanto Mame Sophie ficava na creche. Ganhava R$ 500 e pagava R$ 200 para a empregada. Ao longo dos meses, seu salário foi aumentando. Hoje recebe R$ 900. “Além desse trabalho, eu vendo bolinho de chuva e café”, revela confiante.
Para ela, as mães brasileiras são mais amorosas do que as senegalesas. Desde que os filhos brinquem dentro de casa ou no terreno, não são vigiados pelos pais no seu país.  “Aqui as mães pegam as crianças no colo, protegem e não deixam elas sozinhas. Os brasileiros gostam muito de criança. Isso me reconforta.” 
Agachada no chão e com os braços estendidos, Ndéye diz carinhosamente para Mame Diarra: “Cay cay”. Em wolof, uma das línguas do Senegal, o chamado significa “vem, vem”. A senegalesa faz questão de falar em wolof e francês com as crianças, além do português. Começou a se comunicar com as filhas nos três idiomas após o nascimento da caçula. A primogênita conversa com o pai pela internet, mas depende da senegalesa para a tradução. “Era mãe de primeira viagem quando Mame Sophie nasceu. Acabei me comunicando em português, pois convivia com muitos brasileiros”, explica. 
Ela veste uma roupa típica: conjunto estampado de saia e blusa com detalhes em laranja. O cabelo também laranja, trançado no couro cabeludo se abre em cachos finos até o meio das costas. Os olhos estão pintados de azul. A cultura do Senegal é a âncora de Ndéye, sua raíz. Pretende viajar para o país com as crianças. “Elas precisam conhecer os nossos hábitos e costumes. Devem aprender o alcorão e conhecer a família. Não esquecer quem somos.” 

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