Clique e assine Claudia a partir de R$ 8,90/mês

Editora de CLAUDIA relata experiência com o método Abramović

Luara Calvi Anic, editora de CLAUDIA, conta como foi ficar em silêncio na performance da artista sérvia

Por Luara Calvi Anic - Atualizado em 28 out 2016, 12h54 - Publicado em 11 mar 2015, 11h16

Desde os anos 1970, Marina Abramović extrapola os próprios limites e passa horas, e até dias, focada em uma única performance. Em nome de sua arte, ela já morou dentro de uma galeria por 12 dias, sem comida e em silêncio, atravessou a Muralha da China para selar o fim de um relacionamento, penteou os cabelos repetidas vezes até quase sangrar o couro cabeludo. É, no mínimo, corajosa. E, cá entre nós, é também preciso um pouco de coragem, roupas confortáveis e alimentação balanceada para participar do Método Abramović. A experiência original leva duas horas e meia. A versão reduzida, apresentada para jornalistas, da qual participei, durou uma hora e meia. Éramos cerca de 50 pessoas. Logo na entrada da instalação os chamados facilitadores, guias vestidos com macacões cinza, pediram silêncio e indicaram armários onde deveríamos guardar nossos pertences, inclusive (e especialmente) o celular. “A tecnologia tira tudo de nós. Eu proponho uma pausa”, disse Marina em entrevista coletiva nesse mesmo dia. Em seguida, entramos em uma sala com três TVs. Vestida de jaleco branco Marina apareceu no vídeo propondo um aquecimento de 30 minutos. Com pausas entre os exercícios, ela ia dando instruções: “Esfregue as mãos, massageie as pálpebras, o nariz, as orelhas, diga ‘ahhhhhhh’ com a língua para fora. Balance os pés, a cabeça, o corpo todo. Abra as narinas com os dedos, respire fundo. Segure a respiração pelo tempo que aguentar e solte (nesse momento um homem cambaleou e foi auxiliado por um facilitador). Dê leves socos no tórax e ‘acorde seu coração'”. Em seguida, fizemos uma fila para colocar fones de ouvidos que vedavam quase 100% do som. O silêncio, tão raro nas grandes cidades, caiu bem. Pude perceber a minha respiração e também o coração batendo. Os facilitadores dificultaram nossa vida ao indicar – já que não podíamos ouvir – que caminhássemos muito devagar até a primeira ala da instalação. Andamos tão lentamente que deu tempo de olhar bem para o telhado do Sesc Pompeia. Lembrei de Lina Bo Bardi, arquiteta que transformou aquela antiga fábrica em espaço cultural, e fiquei tentando memorizar marca e modelo daquele maravilhoso fone de ouvido. Redações são muito barulhentas. Com o fone da Marina Abramović eu seria uma jornalista muito mais concentrada. Em marcha lenta, passamos por três alas diferentes e permanecemos cerca de 20 minutos em cada uma delas. Na primeira, deitamos sem colchão e sem travesseiro em uma cama de madeira com um grande cristal preso à cabeceira. Pude admirar o telhado do Sesc com mais apuro e sentir a lombar doendo. Na segunda, permanecemos em pé, de frente para um totem com três cristais distribuídos na altura da testa, umbigo e genitais – os chacras, ou pontos de energia, segundo filosofias orientais. Ao longo de sua carreira Marina passou temporadas em tribos aborígenes, conviveu com monges tibetanos e até com xamãs brasileiros. ‘Aprendi e vi muita coisa com essas civilizações. Escolhi as que eram mais fáceis de passar para o público e criei o método que apresento agora’, disse Marina. Na terceira ala, ficamos sentados, ora olhando para uma parede branca, ora de frente para outro visitante. Exatamente como na performance A Artista está Presente, em que Marina passou 752 horas no Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMa) encarando desconhecidos que sentavam à sua frente. Ao final, devolvemos os fones e os facilitadores indicaram a saída. Foi bom ficar esse tempo sem celular, sem falar e ouvindo apenas minha respiração. Afinal, é justamente essa a moral da história: livrar-se de distrações, do telhado da Lina Bo Bardi, e ficar ali consigo mesma.

Acompanhe o site terracomunal.sescsp.org.br e verifique a disponibilidade de vagas para participar do Método Abramović . Uma parte da exposição, chamada de Objetos Transitórios para Uso Humano, traz esculturas por meio das quais os visitantes poderão ter um contato mais breve com o Método Abramović. Vale a visita!

 

Publicidade