Dia das Mulheres Negras, Julho das Pretas: o tributo a Sueli Carneiro

As lutas vitoriosas dessa mulher: o racismo virou crime, as delegacias contra o preconceito foram criadas e os negros passaram a contar com cotas para entrar na universidade

A filósofa e doutora em educação SUELI CARNEIRO, paulistana de 65 anos, se envolveu com quase todas as lutas dos pretos e pardos da nação, realizadas nas últimas quatro décadas. Seu nome está associado à criação da lei que criminaliza o racismo, à instalação das delegacias que combatem a intolerância e à chegada dos negros ao ensino superior por meio de cotas. Sempre quis entrevistá-la. Mas a autora dos principais textos acadêmicos sobre negras e feminismo não queria falar comigo. Tentou de todas as formas evitar nossa conversa. O tema era liderança. Em fevereiro de 2015, Sueli acabou me recebendo no Geledés Instituto da Mulher Negra. O nome da ong fundada por ela em São Paulo reverencia o poder feminino das deusas, na cultura ioruba.

Já no começo da conversa – quando perguntei por que rechaçava a palavra liderança –, a filósofa foi implacável: “A liderança, como está consagrada no imaginário, não dá conta de um processo de construção coletivo, da busca de afirmação política das mulheres negras. Nesse processo, cumpro um papel inspirada em muitas que me antecederam, como Lélia Gonzalez”. 

Eu ia perguntando se Lélia havia sido a primeira no mundo acadêmico, e ela devolveu de forma pesada: “Não tem a primeira… Vocês jornalistas funcionam muito com essas ideias, a primeira isso, a primeira aquilo, a liderança… Essa é uma concepção muito individualista, muito capitalista, muito reducionista, entendeu?! O movimento social é uma coisa maior do que isso, então, não dá pra gente conversar se insistir nessas simplificações, que eu, filosoficamente, contesto. Você entendeu? Eu não posso lidar com esses chavões, entendeu?” 

O JORNALISMO TEM MUITO DE SEDUÇÃO
A estagiária Gabriela Abreu, que transcrevia a gravação, parou nesse ponto e me perguntou: “Como você conseguiu continuar a conversa? Sueli estava agressiva…” Expliquei a Gabi, que se ela não fosse uma mulher assertiva e direta no soco não teria chegado aonde chegou, não seria referência internacional, nem amada pelas jovens negras que se autoafirmam mirando em Sueli. E fazia muito sentido ela andar farta com o reducionismo da imprensa. Mais uma coisa: era eu quem queria a entrevista. Não Sueli. Estava nos domínios dela. Tinha que entrar com jeito, pedindo licença naquela tarde quente, véspera de Carnaval. 

 LUIZA MAHIM
Acho que a seduzi quando citei Luiza Mahin – a negra que participou ativamente da Revolta dos Malês (1835), em Salvador, e atuou em outros levantes de escravos. A história é tão covarde com Luiza, que não se dá ao trabalho de confirmar: Luiza existiu? É um mito? Ou simplesmente a mãe do abolicionista Luiz Gama, poeta e advogado que lutou pela liberdade e independência dos negros? Sueli – como eu – acredita no feito da destemida negra do Golfo da Guiné, presa várias vezes e açoitada outras tantas. Conversamos um pouco sobre esse ícone contra o racismo. Nesse momento, pude dizer a Sueli que não só o jornalismo, mas a academia, o país, os historiadores eram reducionistas. 

SALVE, MANDELA!
Fã do sul-africano Nelson Mandela, filha de um ferroviário e de uma dona de casa, Sueli contou que causava estranheza por onde passava. Foi a única negra no curso de filosofia da Universidade de São Paulo (USP), nos anos 1970, e no feminismo. Até a sua chegada, as condutoras do movimento no Brasil nunca davam o microfone para uma preta falar das suas dificuldades específicas. Sueli enegreceu o feminismo. Disse: “Não pedimos licença a ninguém. As lideranças brancas não tinham notado sequer que, para se tornarem autônomas, contaram com a subserviência. Conquistaram liberdade porque havia alguém cuidando do filho delas em casa. A negra foi o suporte da emancipação da branca.”
    
DISCURSO NO SUPREMO
O tom adotado por ela sempre inspirou meninas e mulheres e instigou outros negros a somarem na desconstrução “da mais bela fábula brasileira de relações raciais”. Sueli sustentou que a lenda sobre a cordialidade manteve a aparência de uma coexistência democrática entre brancos e negros. Mas, na verdade, confinou os de pele escura “nos patamares inferiores da nossa sociedade”.
Sua atuação emblemática no Supremo Tribunal Federal, em 2010, nunca saiu da minha cabeça. O partido Democratas (DEM) tentava acabar com as cotas para negros nas universidades e Sueli, que está na origem dessa ação afirmativa, fez ali uma defesa brilhante. “As cotas permanecem e são um divisor de águas. A etiqueta que governava as relações raciais acabou no momento em que passamos a defender as cotas. Nunca vi tanta gente vir a público, enfurecida, contra esse direito”, lembrou Sueli, que acabou derrubando a farsa  ao mostrar que o Brasil era – ainda é – um país estupidamente racista. Vergonhosamente branco.

Para ela, a ascensão e afirmação de um negro não dependem só de esforço individual. “Não se supera o preconceito sem uma política pública que permita a conquista econômica”, defendeu. O resultado das cotas: os negros estão produzindo saber, criando teses de mestrado, doutorado, tomando parte da sociedade com voz ativa e protagonismo. Imagine como estarão nas próximas décadas! Isso é a verdadeira revolução.
    
E SUELI ME ACOLHEU
Dez dias depois da entrevista que começou tensa, CLAUDIA foi para a banca. A filósofa me mandou este email: “Cara Patrícia. Acabo de ler a reportagem e escrevo para lhe agradecer a generosidade, cuidado e respeito na abordagem. Ah! se tod@s jornalistas fossem iguais a você. Simplesmente teríamos um outro país! Grata, Sueli Carneiro” 
A autora de tantos livros, teses e mais de 200 artigos, mulher que aprendeu tudo na marra, empurrando a porta para poder entrar, passava à minha memória também como uma pessoa extremamente acolhedora. 

Por tudo isso, neste #DiaDasMulheresNegras, neste #JulhodasPretas ressalto a corajosa biografia de Sueli Carneiro, a mulher que está ajudando a empurrar o país para melhor. A ela, minha homenagem:

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