Desenvolvimento de contraceptivo masculino mais uma vez em cheque

Estudos mostram que é seguro e eficaz, mas ele esbarra nos interesses de grandes empresas farmacêuticas, as quais lucram muito com as pílulas femininas

Há mais de um século, profissionais tentam lançar contraceptivos masculinos no mercado, mas o impulso final vem de uma startup universitária da Índia. Sujoy Guha, engenheiro biomédico de 76 anos, inventou um novo método de contracepção para homens que pode revolucionar o mercado mundial.

Porém, o maior desafio de Guha é encontrar uma empresa que queira vender o produto, já que o espaço para venda desse tipo de contraceptivo no grande mercado farmacêutico é bem pequeno.

Segundo reportagem do Independent, esse novo método tem potencial suficiente para diminuir a venda de contraceptivos femininos quase pela metade no mercado mundial, além de interferir também nas vendas anuais de camisinhas – ambos negócios são dominados por grandes empresas farmacêuticas, como Bayer e Pfizer. Dessa forma, ficam claros os motivos pelos quais não há interesse por parte dessa indústria no produto de Sujoy Guha.

A técnica desenvolvida pelo engenheiro biomédico consiste em um gel que seria injetado nos canais de circulação de esperma, no escroto. Esse gel carrega uma carga positiva que atua como “para-choque” para os espermas negativamente carregados, fazendo com que a cabeça e a cauda sejam danificadas, o que os faria ficar inférteis. Comparado com outros métodos, o injetável é menos danoso, não tem efeitos colaterais significantes e é mais eficiente.

Em contrapartida, os estudos acerca dos contraceptivos hormonais para homens, que ganharam mais força em 2008 com a parceria da fundação Bill & Melinda Gates e das Nações Unidas, foram interrompidos pouco depois dos testes de segurança.

Os pesquisadores notaram que havia uma frequência “relativamente alta” de variações de humor, o que provocou grande tumulto na mídia por conta dos efeitos colaterais serem parecidos com os que as mulheres apresentam quando tomam pílula – e ninguém questiona seu uso por parte delas.

Leia mais: Anticoncepcionais masculinos estão a um passo de se tornarem realidade

“O fato de grandes companhias serem lideradas por homens brancos de meia idade tem grande impacto nessas decisões”, afirma Herjan Coelingh Bennink, professor de ginecologia, em entrevista ao Independent. Ele ainda completa: “se essas empresas fossem lideradas por mulheres, a história seria diferente”.

O método de Sujoy Guha é conhecido como reversible inhibition of sperm under guidance (inibição reversível do esperma sob orientação, em inglês), ou Risug, e pode ser revertido quando aplicada uma segunda dose para eliminar o gel. Além disso, tem eficácia similar ao de camisinhas na prevenção de gravidez (98%) e pode durar até 13 anos.

Guha licenciou a tecnologia para a Fundação Parsemus, uma organização sem fins lucrativos com base nos Estados Unidos, o que ajudará a difundir o produto para mercados fora da Índia. Segundo e-mail de Elaine Lissner, a criadora da Fundação, para o Independent, a Parsemus está trabalhando na sua própria versão, chamada Vasalgel, e planeja produzir e distribuir para comunidades mais humildes a 10-20 dólares e para mercados mais ricos a 400-600 dólares.

A Fundação, que fica em Berkeley, Califórnia, procura por doações para financiar testes em humanos já no próximo ano, depois de estudos realizados em macacos serem publicados e mostrarem que o Vasalgel foi eficiente na prevenção da gravidez.

As patentes de Sujoy Guha já expiraram há tempos e ele não verá nenhum ganho financeiro caso sua invenção ganhe o mundo, ainda assim, ele não desiste do projeto. “Por que só as mulheres tem de carregar esse fardo? Deve haver uma parceria equilibrada”, diz o engenheiro biomédico.