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Desejar não é cometer nenhuma infidelidade

A escritora e colunista de CLAUDIA descreve, com seu contar característico, fatos comuns da rotina, como os segredos que as pessoas escondem. Para ela, a mulher mais linda e com mais decote não está vestida assim para conquistar um homem, mas todos.

Por Danuza Leão (colunista) Atualizado em 28 out 2016, 03h40 - Publicado em 20 ago 2014, 22h00

Dentro de cada coração há um segredo guardado, um segredo que jamais será contado à melhor amiga nem ao padre nem ao psicanalista. Não que seja algo que deva ser escondido. É algo que não poderá jamais ser dividido com ninguém: é uma coisa só nossa. Pode se tratar de um fato que aconteceu e seria um escândalo se alguém soubesse, uma linda história de amor ou apenas um delírio de imaginação, mas, dele, ninguém vai saber, nunca. Virou mania contar tudo que nos acontece. Mas as coisas mais graves, mais sérias, as que vêm lá do fundo, essas não são contadas a ninguém. 

A gente pensa que certos pensamentos só acontecem com mulheres muito bonitas e homens muito interessantes, gente que já percorreu o mundo e passou por todas as experiências. Ledo engano. Na vida da mais humilde lavadeira da periferia, podem ter acontecido coisas que fariam inveja à mais bela e elegante mulher da cidade, que, talvez por cuidar tanto de sua beleza e de sua elegância, nunca tenha perdido tempo olhando o próprio coração. Quando estiver num lugar cheio de gente, comece a prestar atenção nas pessoas. Mas uma atenção diferente, mais cuidadosa. Vai perceber que a mais escandalosamente linda de todas, aquela cujo decote vai até o umbigo e a fenda da saia vai até a cintura, não está vestida dessa maneira para verdadeiramente conquistar um homem, e sim para conquistar todos eles. E todos, nesse caso, quer dizer nenhum.

Em algum canto dessa festa, haverá uma mulher absolutamente normal, de idade indefinida, conversando com uma amiga. Uma daquelas mulheres para as quais se olha e não se pensa nada – ou, se pensa, é que namoraram, noivaram, casaram, tiveram filhos, foram fiéis e que a vida delas foi de um tédio atroz. Pois é aí que pode estar – e geralmente está – o engano. Essas mulheres costumam ter tido desejos intensos e inconfessáveis, se é que não viveram mesmo uma vida de grandes e trepidantes histórias de amor, e quanto mais castas parecerem ser, mais você duvide. Vamos deixar logo bem claro que desejar não é cometer nenhuma infidelidade. Daí que nada mais natural que isso tenha acontecido com nossas mães, nossas tias, nossas avós. 

Talvez na época pré-Freud, elas não conseguissem identificar com precisão o que estava acontecendo. Se pensarem agora sobre o medo que alguns homens lhes causavam, o pânico de ficar sozinha na sala com alguns deles e a aversão intensa que outros lhes provocavam, tudo isso visto sob uma ótica mais moderna e esclarecida, poderia ser medo não deles, mas do desejo delas próprias. Medo de se atirar no pescoço de um cunhado ou do filho do farmacêutico, que, pela idade, poderia ser seu filho. Quando estiver numa reunião de família com aquelas tias que nunca perderam uma missa em toda a sua existência, ofereça um licor a uma delas e puxe pela língua. Ela não vai dizer tudo, óbvio, até porque não sabe direito, mas não vai ser difícil para você desvendar os mistérios que se escondem naquele coração. E, se quiser ser bem pérfida, sonde a vida das outras, procure – sutilmente, claro – saber dos podres da família. Ou vai dizer que na sua nunca teve nenhum? E, quando olhar para sua avó, tão distinta, com os cabelos tão brancos, com um ar tão distante, imagine as loucuras que não devem ter passado pela cabeça dela. Ou que talvez ainda estejam passando. Eu tenho o meu segredo. E você?

Danuza Leão: Desejar não é cometer nenhuma infidelidade Danuza Leão é cronista e dona de um lirismo característico com que encara os fatos da vida cotidina. Escreveu vários livros, entre os quais “Fazendo as Malas” (Cia. das Letras) e “É Tudo Tão Simples” (Agir).

 

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