Depoimento: Mãe narra a emoção de ver livre da prisão a filha ativista do Greenpeace

A ativista gaúcha Ana Paula Maciel ficou detida na Rússia quando fazia parte de uma campanha que alertaria o mundo sobre os riscos ambientais da exploração de petróleo.

Foto: Rosangela Maciel

“Cheguei à Rússia no dia 25 de novembro. Abracei e beijei minha caçula no aeroporto de São Petersburgo com uma alegria indescritível. O que Ana Paula fez foi muito arriscado. Se ela gosta do risco, quem sou eu para dizer para ficar em casa? Mas foram longos os dois meses que ela passou na prisão, tão longe de nós. Fiquei muito ansiosa e vou contar como tudo aconteceu.

No dia 19 de setembro, um funcionário do Greenpeace me ligou avisando da detenção de Ana.

Acreditei que fosse algo passageiro, que se resolveria sem embaraços. Da primeira prisão, na cidade de Murmansk, transferiram minha filha para outra, em São Petersburgo.

Com o pagamento de fiança (o correspondente a 140 mil reais), ela se livrou das grades. Ainda não sei como serão os próximos desdobramentos e se ela terá de permanecer em solo russo aguardando o julgamento. Se for condenada, pode pegar até sete anos de prisão. Eu creio, no entanto, em sua absolvição.

Tenho uma admiração imensa por essa filha que desde o nascimento, há 31 anos, só me traz ensinamentos. Corajosa, honesta, ela se preocupa com a humanidade. Se não tivesse um coração enorme, não estaria nessa luta. Não arriscaria a própria vida para defender o meio ambiente, não se incomodaria com a poluição do mar.

Ao ser detida, era isso que estava fazendo com os outros companheiros do Greenpeace. (Trinta ativistas, entre eles a brasileira, saltaram do navio Artic Sunrise, da ONG, para botes e remaram até a plataforma da Gazprom, estatal russa de petróleo, no Ártico. Recebidos à bala pela guarda costeira, não tiveram tempo de colocar na torre de perfuração um banner com a frase “Salvem o Ártico”. A missão fazia parte da campanha que alertaria o mundo sobre os prejuízos para as águas que podem decorrer da exploração de petróleo, ainda não iniciada pela companhia.)

Depoimento: Mãe narra a emoção de ver livre da prisão a filha ativista do Greenpeace

Foto: Divulgação

No dia 19 de novembro, eu ouvi no rádio que a Ana ia responder em liberdade à acusação de pirataria e vandalismo. Tentava assimilar a notícia que acabara de escutar enquanto dirigia a minha perua, deixando as crianças na escola, como faço todos os dias na minha terra, Porto Alegre. Assim que terminei o trabalho, estacionei.

Foi o momento de maior desabafo.

O choro veio forte, era de alívio, de alegria, de emoção… Eu estava precisando daquele alento. Antes disso, deitava a cabeça no travesseiro imaginando como ela estaria. Rezava para que o meu pensamento positivo produzisse resultados.

Ana Paula dizia que estava se mantendo serena, conectada com a família. Da prisão, falou poucas vezes com a gente por telefone: precisava esperar uma fila de presos até chegar a sua vez de ligar.

Só ao ser solta, minha filha revelou que sofrera um terror psicológico no cárcere.

Deixavam a luz acesa 24 horas, o rádio o tempo todo ligado, ela não conseguia dormir. Fora da cela, só 60 minutos por dia. Ana Paula chorou lá dentro. E isso não é fraqueza. Ela é destemida, mas há o lado humano. O otimismo dela impressionava, apesar da triste rotina.

Na última carta enviada, minha filha contou que estava se dando muito bem com a sua companheira de cela. Era uma garota condenada por envolvimento com drogas, muito divertida, que lhe ensinou palavras do idioma russo e, assim, o tempo passava mais rápido. Ana Paula disse que se alimentava direitinho e que a advogada levava cigarros e chocolates para ela.

Também leu livros de Machado de Assis. Numa das correspondências, até nos animou escrevendo esta mensagem: “Não quero que ninguém fique triste por aí, não. Porque, se existem mil motivos para chorar, existe 1 milhão de outros para sorrir! Estamos vivas, celebrem a vida, a liberdade, as cores, o sol, os beija-flores. Temos tudo de mais importante nesta vida, temos umas às outras”.

De fato, formamos um time de mulheres muito unidas em casa. Quando li a cartinha, tive toda a certeza de que Ana Paula é firme mesmo. Telma, minha filha um ano mais velha, me lembrou recentemente:

Mãe, nós somos mulheres guerreiras e fortes porque você nos ensinou a ser assim“.

A caçula repetiu essa frase inúmeras vezes. Não sei se mereço o privilégio de ser tomada como espelho para as minhas gurias. É verdade que incentivei os três filhos – incluindo Rogério, o primogênito – a fazer o que desejam, a realizar seus sonhos. Eu sempre acreditei que eles precisavam viver, conhecer o mundo, descobrir o certo e o errado, andar com as próprias pernas.

E, quando algo não vai bem, estou pronta para recebê-los de volta, sem problema algum. Telma ficou grávida aos 14 anos e eu não esbravejei. Só quis conversar e ver a melhor maneira de levar aquela gravidez. Minha neta Alessandra, de 18 anos, se tornou tão preciosa quanto os filhos. Viramos amigas, conversamos de igual para igual.

Essa maneira de reagir com calma, mesmo diante de situações tensas e tristes, como a prisão de Ana Paula, eu aprendi de um jeito inusitado: buscando o inverso. Na juventude, sofri muito com minha mãe, uma mulher rígida, que cobrava demais, enxergava pecado em tudo. Eu a via julgar as pessoas o tempo inteiro. Cresci querendo ser o oposto. Ela acabou me ensinando, sem perceber, tudo o que eu não devia fazer.

O telefone da minha casa não parou de tocar durante este período. Eram jornalistas do mundo todo.

Disse a eles que meu coração estava cheio de esperanças, já podia imaginar minha filha voltando a Porto Alegre. Até começamos a planejar um churrasco com cervejada para receber Ana Paula. Meus filhos e parentes também estão ansiosos pela festa. Vai ser uma homenagem à coragem dela.

Respeitei todas as escolhas que Ana Paula fez. Desde muito pequena, defendia a vida, os animais, cuidava de passarinhos. Nas brincadeiras de casinha, com os irmãos e os primos, escolhia ser o bicho de estimação da família. Encarnar o papel de mamãe ou filhinha não lhe interessava. Na adolescência, garantiu que faria parte do Greenpeace. Ao prestar vestibular de biologia, já havia decidido. Quando, em 2006, quis virar voluntária da organização, eu não me opus. Pelo contrário, fui com ela de madrugada até o cais Mauá.

Ela se apresentou e foi selecionada para auxiliar na cozinha do navio da ONG. É claro que eu fiquei com o coração apertado, mas não disse nada nem pedi para ela pensar melhor. A missão que abraçaria, embora pacífica, era cercada de riscos – porque contraria os interesses de pessoas poderosas que priorizam o lucro e se esquecem do ambiente.

Naquele momento, percebi que minha guria tinha se tornado adulta e ia para o mundo.

Mas eu mesma a tinha preparado para isso. E logo fiquei bem: se ela estava feliz, eu também deveria ficar. Ana Paula trabalhava por seis horas lavando louças e limpando banheiros e ia para a faculdade à noite. Tem uma força de vontade invejável. E assumir uma faxina nunca foi problema para ela.

Ensinei que todo tipo de trabalho gratifica, tem suas qualidades, e que nada do que é honesto humilha. Além de ver importância em tudo o que faz, nunca foi uma menina consumista ou materialista. Encarava uma missão singela e outra mais nobre da mesma forma. É travessa, mas muito idealista. Uma semana depois da estreia, a cozinheira do navio se afastou, e o capitão chamou minha filha para a vaga.

Ela trancou a faculdade e zarpou. Primeiro para Fortaleza, depois para Manaus, Santarém, Caribe… seis meses sem ganhar nada. De volta, terminou a universidade e retornou ao Greenpeace. Como marinheira, até passou a mandar dinheiro para casa. Ficava três meses embarcada e três em terra. Em 2007, conheceu um italiano e se casou. Moravam em Portugal; ela continuava viajando. Em 2012, se separou e retomou o Brasil como base. A cada dia se aperfeiçoa no trabalho. Em julho, Ana fez um curso de mergulho no México e de lá seguiu para a missão atual.

Quatorze dias antes da prisão, Ana Paula, na Noruega, postou no Facebook, com bom humor: “Vamos navegar outra vez na segunda

Eu não perguntei nada. Há muito tempo aprendi a ser discreta e a entendê-la. Eu respeitei a decisão de Ana de se mostrar à TV, atrás das grades, com um sorriso enorme e um cartaz na mão, que dizia: “Prisão ilegal é vergonha para a Rússia”. Aquela atitude até poderia piorar sua situação, mas ela não desiste de expressar o que acha justo. No final de tudo, sei que valeu a pena. A ação dos ativistas do Greenpeace na plataforma russa de petróleo fez o mundo conhecer o problema que atingirá o Ártico.

Quando surgiu a ideia de ir vê-la na prisão, Ana Paula não aceitou de imediato.

Declarou, depois, que não queria que eu a visse atrás das grades de ferro. Na verdade, eu também tinha receio de ir e de abalar o psicológico dela: a despedida, no meu retorno ao Brasil, poderia ser sofrida. Apesar disso, escrevi relatando meu desejo e pedindo para ela ser sincera, dizendo se gostaria de receber a minha visita. A resposta demorou, eu pensei que ela nem se manifestaria mais. A comunicação era demorada: o Itamaraty recebia a carta, repassava para as autoridades russas, que liam, traduziam e entregavam para os advogados darem a ela.

Minha filha, então, respondeu que eu deveria ir e ainda levar Alessandra. Mesmo naquele sufoco, numa cela apertada e fria, ela pensou no nosso bem-estar: disse que nós iríamos adorar a cidade, que conheceríamos a neve, a aurora boreal. Ela ainda se preocupou em nos incentivar a fazer um passeio turístico… Essa guria é de fato muito especial. Quero que carregue sempre com ela, por onde for em missão, o meu grande amor. E que saiba o tamanho do orgulho que sinto em ver a luta dela.”