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Brasil, 500 mil mortos de Covid-19: filha perde pai e mãe e descobre gravidez

Em 8 meses, Denise Pereira perdeu 2 tios, uma prima e os pais após o diagnóstico de Covid-19. Ela fala sobre luto e aconselha quem está passando pelo mesmo

Por Denise Pereira 19 jun 2021, 14h48

Hoje, no dia que o Brasil bate o triste marco de 500 mil mortos para a Covid-19, começamos uma série de depoimentos de pessoas que tiveram suas vidas profundamente afetadas pela pandemia. São homens e mulheres que perderam pessoas queridas, que viram seus futuros transformados e que sobreviveram à doença nefasta que alterou o rumo da humanidade.

Leia as palavras de Denise Pereira, que perdeu cinco familiares.

“No dia 27 de maio do ano passado, dois tios maternos morreram de Covid-19. Em agosto, minha prima, filha de um deles e que lutava contra um câncer, também foi infectada pelo novo coronavírus e morreu.

Três meses depois, quando minha mãe, a dona Ana, começou a sentir dor nas costas e febre, não imaginava que a história ia se repetir em nossa família, já que ela não sentia falta de ar e nem tossia. Ainda assim, fomos ao médico. Chegamos na clínica do convênio dela, às 17h, mas fomos atendidas bem tarde, 23h.

Após uma confusão de informações no atendimento, ela não fez raio-x do pulmão, o que prejudicou muito no tratamento. Já comecei a desanimar nesse transtorno e chorei muito com a confirmação de que ela estava com Covid-19.

Com a transferência dela para o hospital, me falaram que eu não eu ia ver mais minha mãe. Você não imagina que pode ser a última vez e, no meu caso, realmente foi.

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Da esquerda para a direita: Noé, pai de Denise, Denise, Vitor Hugo, marido dela, e dona Ana, sua mãe. Acervo pessoal/Reprodução

A cada boletim médico por telefone, ficava mais machucada com as atualizações. Nossa despedida aconteceu nesse caos. O vírus nos tira muita coisa, mas o que mais machuca é não ter direito ao luto. Não vi o corpo da minha mãe, enterrei um caixão.

Sem chão, encontrei forças para seguir com o apoio do meu marido Vitor, da minha sobrinha Kamilly e do meu sobrinho Eduardo, que era neto da minha mãe. Nós dois combinamos de não chorar para tentar passar força um ao outro.

Além deles, outros familiares e amigos foram essenciais nesse processo. Na empresa, também tive suporte de pessoas que nem conhecia pessoalmente, como o meu gerente e outros colegas de trabalho. Isso fez toda a diferença.

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Durante esse processo, tive mais um baque. Em dezembro, entrei na casa do meu pai e o encontrei morto. Ele teve Covid-19 em novembro, mas era assintomático. Até hoje, ainda não temos certeza sobre qual foi a causa da morte dele.

Força para seguir

Um dia depois do enterro, passei muito mal e resolvi fazer um teste de gravidez, que deu positivo. Minha ficha não caía, por isso fiz vários. Todos positivos. No dia seguinte, na virada do ano, contei para o meu marido e familiares.

O Vitor Miguel veio para me dar força, mas eu chorava muito e tinha medo dele não resistir, porque eu não conseguia comer. Novamente, a minha rede de apoio foi essencial. Uma tia me ofereceu apoio psicológico e também encontrei um grupo de terapia.

Nenhuma dor é maior do que a outra, mas foi importante conhecer pessoas com histórias parecidas com a minha e até mais desafiadoras.

Tive que procurar paz e fazer conexões, principalmente com a minha prima, que também perdeu o pai dela em maio. Continua não sendo fácil, mas nos damos apoio incondicional.

Olho para o meu filho na barriga e penso que tenho que ser forte, assim como meus pais e meus tios me ensinaram. Por mais que seja muito difícil, não dá para se entregar. Para quem está na luta ou passou pelo luto agora, não desista. As pessoas que se foram ou estão internadas querem que a gente siga da melhor forma possível.

Para quem tem oportunidade, se proteja e não se apegue à governo ou partido. A vacina é a chance de ter ao seu lado um parente ou amigo. Se você tem uma oportunidade de vida, agarre com todas as forças. Meus pais não tiveram esse tempo e essa chance, que temos agora.

Sonhos eternizados

Precisei adiar meu casamento, que eu e meu marido planejamos tanto e era um dos maiores sonhos dos meus pais. A festa ainda não aconteceu, mas eles conseguiram participar da cerimônia no civil, em junho. Minha mãe que gravou tudo e dá para ouvir ela e meu pai falando de cada detalhe.

Eles foram as testemunhas mais queridas. Com certeza, aquele dia foi um momento especial, que eles guardaram com muito carinho. Nos despedimos com a concretização de algo que eles queriam muito.”

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