Confissões de uma ex-bagunceira

Para nossa colunista Marcela Leal, se há ordem dentro da cabeça, não há caos no quarto

Por muito tempo, fui uma pessoa bagunceira. Era uma bagunceira de quarto, desses quartos em que ninguém aguenta ficar sem tomar uma atitude e dobrar uma roupa. Não entendia bem o porquê, mas as peças meio que saíam do armário e se jogavam em cima da cama, do nada. Eu era atacada por roupas, escorregava em roupas. Eu, uma moça inocente, ficava sempre com aquela cara de: “Meu Deus! Quando foi que um furacão de intensidade cinco varreu este cômodo? Será que não tem nenhum ex-namorado perdido aí nestes escombros?”. E por mais que eu tentasse me organizar, não conseguia.

Então, um dia, comecei a fazer terapia. E durante as sessões descobri que o meu quarto nada mais era do que uma extensão da minha mente, e que, quando eu não estava bem, isso se mostrava na disposição das coisas no ambiente e elas simplesmente se emaranhavam, como as minhas ideias. Comecei a me ordenar internamente, a meditar, a olhar mais para mim mesma sem deixar isso para depois como muitas vezes fazia com a arrumação do meu quarto. Eu precisava parar de negligenciar as minhas necessidades, me respeitar mais e ordenar o caos que estava dentro de mim.

Há algum tempo atrás li a respeito de uma pesquisa que me impressionou bastante e não pude deixar de associar a minha questão com o quarto. Pesquisadores da Universidade de Stanford nos EUA abandonaram dois carros novos em bairros completamente diferentes, um num bairro pobre, onde as ruas e casas viviam sujas e sem manutenção e a criminalidade era comum e outro num bairro rico, onde tudo era muito limpo, organizado e pacífico. Como era de se esperar, o carro do bairro pobre (desorganizado) foi depredado em pouco tempo e o do bairro rico (ou organizado) passou duas semanas intacto. Porém, bastou que quebrassem apenas uma janela do carro no bairro rico para que ele fosse vandalizado e depenado em pouco tempo. Esse experimento foi chamado de “Teoria das Janelas Quebradas” e comprovou basicamente o seguinte: caos atrai caos.

Também me lembro de um experimento na Nova Zelândia onde colocaram Mozart para tocar em um shopping, o que fez diminuir a criminalidade e os incidentes em um perímetro de quatro quadras do local. As ocorrências policiais diminuíram de 77 para duas por semana. Sim, por conta da altíssima qualidade e de sua vibração, a música clássica também ordena.

Estou me ordenando aos poucos. Hoje é um prazer dormir em lençóis limpos e cheirosos num quarto organizado. Por amor a mim mesma, tomo banho e visto roupas limpas todos os dias. Por amor a mim mesma, faço um jantar incrível e abro um vinho para tomar e brindar às vezes sozinha, na cozinha, ouvindo música. Hoje, por amor a mim mesma digo NÃO quando quero dizer NÃO e não deixo que as contradições internas me desordenem. Por amor a mim mesma e ao momento da existência que vivo, por gratidão, porque eu mereço sempre, antes de tudo e de todos, fazer algo por mim mesma. Hoje eu me respeito.

De alguma forma, por conta da terapia e da meditação, consegui assimilar um pouco desse jeito ordenado de ser. Hoje, sem dúvida, o grau de drama interno e externo diminuiu bastante em mim e perto de mim. Substituí o sofrimento e desordem da minha realidade interior por felicidade e ordem, pelo menos durante a maior parte do tempo.

Marcela Leal é humorista e escreve esta coluna duas vezes por mês. Para falar com ela, clique aqui!