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Confissões de uma ex-bagunceira

Para nossa colunista Marcela Leal, se há ordem dentro da cabeça, não há caos no quarto

Por Marcela Leal (colaborador) Atualizado em 22 out 2016, 20h40 - Publicado em 16 nov 2015, 11h31

Por muito tempo, fui uma pessoa bagunceira. Era uma bagunceira de quarto, desses quartos em que ninguém aguenta ficar sem tomar uma atitude e dobrar uma roupa. Não entendia bem o porquê, mas as peças meio que saíam do armário e se jogavam em cima da cama, do nada. Eu era atacada por roupas, escorregava em roupas. Eu, uma moça inocente, ficava sempre com aquela cara de: “Meu Deus! Quando foi que um furacão de intensidade cinco varreu este cômodo? Será que não tem nenhum ex-namorado perdido aí nestes escombros?”. E por mais que eu tentasse me organizar, não conseguia.

Então, um dia, comecei a fazer terapia. E durante as sessões descobri que o meu quarto nada mais era do que uma extensão da minha mente, e que, quando eu não estava bem, isso se mostrava na disposição das coisas no ambiente e elas simplesmente se emaranhavam, como as minhas ideias. Comecei a me ordenar internamente, a meditar, a olhar mais para mim mesma sem deixar isso para depois como muitas vezes fazia com a arrumação do meu quarto. Eu precisava parar de negligenciar as minhas necessidades, me respeitar mais e ordenar o caos que estava dentro de mim.

Há algum tempo atrás li a respeito de uma pesquisa que me impressionou bastante e não pude deixar de associar a minha questão com o quarto. Pesquisadores da Universidade de Stanford nos EUA abandonaram dois carros novos em bairros completamente diferentes, um num bairro pobre, onde as ruas e casas viviam sujas e sem manutenção e a criminalidade era comum e outro num bairro rico, onde tudo era muito limpo, organizado e pacífico. Como era de se esperar, o carro do bairro pobre (desorganizado) foi depredado em pouco tempo e o do bairro rico (ou organizado) passou duas semanas intacto. Porém, bastou que quebrassem apenas uma janela do carro no bairro rico para que ele fosse vandalizado e depenado em pouco tempo. Esse experimento foi chamado de “Teoria das Janelas Quebradas” e comprovou basicamente o seguinte: caos atrai caos.

Também me lembro de um experimento na Nova Zelândia onde colocaram Mozart para tocar em um shopping, o que fez diminuir a criminalidade e os incidentes em um perímetro de quatro quadras do local. As ocorrências policiais diminuíram de 77 para duas por semana. Sim, por conta da altíssima qualidade e de sua vibração, a música clássica também ordena.

Estou me ordenando aos poucos. Hoje é um prazer dormir em lençóis limpos e cheirosos num quarto organizado. Por amor a mim mesma, tomo banho e visto roupas limpas todos os dias. Por amor a mim mesma, faço um jantar incrível e abro um vinho para tomar e brindar às vezes sozinha, na cozinha, ouvindo música. Hoje, por amor a mim mesma digo NÃO quando quero dizer NÃO e não deixo que as contradições internas me desordenem. Por amor a mim mesma e ao momento da existência que vivo, por gratidão, porque eu mereço sempre, antes de tudo e de todos, fazer algo por mim mesma. Hoje eu me respeito.

De alguma forma, por conta da terapia e da meditação, consegui assimilar um pouco desse jeito ordenado de ser. Hoje, sem dúvida, o grau de drama interno e externo diminuiu bastante em mim e perto de mim. Substituí o sofrimento e desordem da minha realidade interior por felicidade e ordem, pelo menos durante a maior parte do tempo.

Marcela Leal é humorista e escreve esta coluna duas vezes por mês. Para falar com ela, clique aqui!

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