Coluna da Liliane Prata: Nós, os malucos-normais (ou eu, a maluca do chá preto)

Nossa editora Liliane Prata conta o que aprendeu com sua busca frustrada por uma simples xícara de chá preto

Tenho um pouco de preguiça de gente normal que fica se chamando de maluca, num mundo com tanto maluco de verdade, mas, ao mesmo tempo, eu mesma sou uma dessas pessoas normais que ficam se chamando de maluca (em minha defesa, ouço com bastante frequência “miga sua loka” das minhas amigas) e, esses dias, fiquei pensando nas minhas “maluquices de gente normal” e nos recursos mentais (vários) que uso para conviver (mais ou menos) bem com essas maluquices todas (me comprometo a escrever períodos menores nos próximos parágrafos). Um recurso mental clássico, que todo maluco-normal conhece bem, é tentar abrandar a sensação de maluquice com atitudes de gente sistemática: você é meio normal, meio maluca, mas faz um contraponto sendo superdisciplinada com horários, ou então sendo superorganizada com suas gavetas, ou quem sabe limpando à exaustão o rejunte dos azulejos do banheiro… Ou, quem sabe, fazendo questão de tomar o chá preto que você se propôs a tomar naquele dia, como aconteceu comigo. Foi assim:

Na manhã de uma semana maluca-normal que estava pendendo mais do que de costume para o lado maluca, acordei, olhei as horas, levantei e fiz um chá preto. Eu tinha uma viagem a trabalho naquele dia, o que não é tão frequente, mas essa parte do meu dia foi normal: costumo fazer chá preto de manhã. Fui para o banho enquanto o chá esfriava e, quando saí do banheiro e olhei as horas, constatei, confusa, que era muito mais tarde do que eu pensava (não sei como isso aconteceu) (meio maluca, é disso que estou falando). Isso me fez trocar de roupa depressa, fechar minha mala depressa e seguir para o aeroporto sem tomar o chá preto, que ficou abandonado em cima da pia.

Pois bem. Depois de fazer o check-in, passei no Starbucks que tinha no aeroporto e comprei um chá preto grandão (ou melhor, “tall”) e segui para a sala de embarque. Na escada rolante, tentei sorver um pouco do chá, mas ele estava muito quente, de modo que resolvi esperar para me deliciar com ele sem queimar minha língua. Porém, naquela esteirinha do raio-x da sala de embarque, a moça me disse que eu não podia entrar com meu chá, meu importante chá preto, que, para ela, não importava se era de camomila, de erva cidreira, de erva-cinza-da-Amazônia. Eu tinha certeza que só seria impedida de seguir com meu chá preto caso fosse embarcar em um voo internacional, o que não era o caso. Sentindo-me frustrada, além de ignorante, ainda ofereci o chá preto à funcionária antes de jogá-lo intacto no lixo.

Desembarquei no Rio de Janeiro. A primeira coisa que fiz no aeroporto foi, adivinha? Procurar um banheiro para fazer xixi, é claro. Mas, logo em seguida, o que fiz foi procurar chá preto em alguma lanchonete. Encontrei, mas não tinha copo para viagem. Pedi numa xícara normal e aproveitei para pedir um pão de queijo, pois ainda não tinha comido nada, além de biscoitinhos no avião (“Não, não temos chá preto, senhora”, a comissária de bordo tinha me informado). Enquanto eu esperava esfriar o líquido fumegante, meu motorista chegou e eu, que sou maluca-normal, mas educada, não quis deixá-lo esperando e abandonei, assim, meu terceiro chá preto do dia intacto.

Cheguei ao hotel com minha autoestima, geralmente boa, completamente abalada, não por não ter conseguido tomar o chá preto, mas por ter desperdiçado três chás pretos, logo eu, que detesto desperdício e amo, AMO chá preto. Mas essa amarga sensação não me impediu de, depois do meu primeiro compromisso profissional, sair em busca do meu quarto (primeiro) chá preto do dia. Encontrei o chá em uma lanchonete próxima ao hotel.

Não consigo explicar o alívio que senti ao me encontrar ali, cara a cara com a xícara de chá preto, aparentemente sem nenhum obstáculo entre nós. Eu não estava em cima da hora, não havia moça da sala de embarque nem sala de embarque, enfim, éramos apenas eu e a xícara de chá preto (e o calor de Copacabana, que, bem, se eu fosse parar para pensar, não combinava com o chá, mas não era hora de pensar, eu só queria sentir).

Soprei a xícara. Esperei um pouquinho, mexendo no celular e curtindo a expectativa. Finalmente, segurei a xícara e, juro, fechei os olhos para sentir o prazer do meu tão esperado chazinho. E aí…

Não entendi que gosto era aquele. E aí cheirei a xícara, e aí peguei o papelzinho do saquinho de chá: era chá preto aromatizado sabor laranja.

Pra que aromatizar chá preto com laranja, me diga? Se tem uma coisa que eu abomino, que eu sempre abominei, é chá preto aromatizado com laranja.

Minha frustração foi tanta que não me dispus a reclamar, ou a perguntar se tinha chá preto normal, ou a comprar outro chá. A decepção foi maior do que a vontade de perseguir meu objetivo, e desisti. Simplesmente me levantei e saí andando de costas para o chá, com a frieza de quem já havia abandonado três xícaras de chá naquele dia.

Aprendi MUITO nesse dia. Aliás, repassei mentalmente todo esse aprendizado no dia seguinte, no café da manhã no hotel, tomando café com leite e desprezando completamente as 7573 opções de chá do Copacabana Palace, onde eu estava hospedada. O CERNE do meu aprendizado foi algo que eu sempre soube na teoria, mas que somente depois dessa experiência senti ter aprendido na prática: se você quer chá preto e a vida está te mostrando que não tem chá preto para você e você, apesar da frustração, consegue sobreviver sem o maldito chá preto, então esqueça a porcaria do chá preto e beba OUTRA COISA.

Isso serve para uma porção de situações, mas acho que nós, malucos-normais, assim como os completamente normais e também como os completamente malucos, conseguimos entender isso sem exemplos. Precisamos sair da teoria, precisamos passar pela experiência, mas exemplos são dispensáveis: basta abraçar a verdade da experiência do chá preto.

E é claro que eu, maluca-normal que sou, escrevi esse texto tomando uma caneca de chá preto.

Liliane Prata é editora de CLAUDIA e assina esta coluna semanalmente. Para falar com ela, clique aqui