Carta à deputada que quer banir a saia curta e o decote

E o que a cultura Queer e o Festival Mix Brasil da Diversidade podem fazer por isso

A deputada Cristiane Brasil (PTB-RJ) quer proibir a entrada na Câmara dos Deputados de mulheres que estejam usando saia curta, vestido justo, decote. E justificou seu projeto: “A gente sempre luta por equidade com os homens. O regimento já determina que os homens devem vestir, mas não fala nada em relação às mulheres”. Para Cristiane, a proposta “corrige um erro histórico”. E nós, mulheres, queremos igualdade no quesito gravata e paletó? Esconder os joelhinhos não nos garantirá avanço algum, deputada.

Ora, o país vive uma crise econômica e política que atinge os brasileiros, o Palácio do Planalto, o Senado, a Câmara… Seu presidente, Eduardo Cunha, denunciado ao Supremo, andou fazendo ameaças por aí: “Não vou morrer sozinho. Se for, vou morrer abraçado com muita gente”. Os parlamentares, então, deveriam estar na luta, noite e dia (incluindo a madrugada), para tirar o país da enrascada. Aqui, porém, vou ater-me ao feminino e masculino da questão. O que significam vestido sóbrio, tailleur, conjuntinho de saia com camisa social, o “dress code” que a senhora recomenda? O que são um homem e uma mulher? Onde estão os outros cidadãos que não se adequam a nenhum dos dois modelos, deputada?  Ou se encaixam em um só, sendo também a mescla de homem e de mulher? 

Sugiro olhar para dois eventos que acontecerão em São Paulo e que pretendem demolir a hegemonia heterossexual. Aliás, a hegemonia – autoritária como toda preponderância e superioridade – faz do Brasil o campeão de assassinato de gays, lésbicas e transexuais. Um dos eventos, em setembro, no Sesc Vila Mariana, é o I Seminário Queer, a cultura da subversão das identidades. E em novembro, o 23º Festival Mix Brasil de Cultura da Diversidade – que terá como um dos convidados especiais Buck Angel, um ativista LGBT que nasceu mulher, sofreu a adolescência inteira e, hoje, em corpo másculo, se orgulha de manter sua vagina como sinal de poder. Sim, um homem com vagina, com a sensibilidade feminina. Esse ator e produtor de cinema explicou à jornalista Marsilea Gombata, em entrevista, o seguinte: “A principal razão pela qual somos diferentes de homens que nasceram com pênis é termos uma perspectiva diferente do mundo… Me sinto muito empoderado pelo fato de ter vivido como mulher antes de me tornar homem, e minha vagina me capacita para entender certas coisas mais do que um homem que nasceu com pênis”. Em outras palavras, ele pode compreender a sociedade sob a acuidade que só um ser com as melhores características masculinas e femininas poderia fazê-lo. Duas experiências em uma. Buck dará um workshop. Haverá fila para ouvi-lo. Ele acredita que nunca esteve tão difícil definir gênero; que genitais não representam nada de absoluto e colocar seres humanos em caixinhas é tolher, amordaçar, impedir a expressão individual e, claro, a manifestação do desejo.

Para a jornada queer virá a filósofa americana Judith Butler, professora de literatura da Universidade da Califórnia, pensadora que bebeu na fonte de Simone de Beauvoir e a criticou, depois. Mas aproveitou esta tese de Simone: “Não se nasce mulher. Torna-se mulher”. Ao nascer, um ser com útero ainda não sabe que a sociedade, a família, as leis o farão desejar um outro com testículos. Judith afiou sua observação para concluir, no rastro das transformações dos anos 1960, que as coisas estão normatizadas de um jeito muito simplista. As construções sociais e culturais é que naturalizam o corpo, o sexo e o desejo. Sua teoria queer sacode a normatização. Judith acha pouco e pobre a ordem compulsória que só enxerga coerência no sexo atrelado a um gênero exclusivo e a uma prática sexual única – a hétero.  Ela tem razão: imagine, deputada Cristiane Brasil, como seríamos mais felizes se ampliássemos as possibilidades de realização do nosso erotismo para além da caixinha de que falou Buck Angel. E no tocante à Câmara, que faz leis, lembre-se, nosso país já admite a conversão da união estável em casamento gay e a adoção de filhos por eles. Na verdade, nem seria preciso casar. Só acontece para que o Estado proteja as novas famílias. No que há de mais genuíno e real, a cultura, o parlamento e as legislações não deveriam cegar o desejo. E nesse universo, que diferença fará uma saia bolo ou uma gravata andando no plenário da Câmara?

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