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Cacique Pequena: uma líder para todos

O impacto do trabalho da primeira líder indígena feminina no Brasil vai além da aldeia dos jenipapo-kanindé

Por Da Redação 31 ago 2017, 13h27

Elizangela Almeida de Freitas, coordenadora de mobilização da secretaria de Cultura de Aquiraz (CE), era uma garota quando conheceu a Cacique Pequena, candidata ao Prêmio CLAUDIA pela categoria CULTURA.

Ao contrário dos outros moradores da cidade, que manifestavam certo preconceito contra os índios da região, a moça sentiu admiração espontânea. Desde então, acompanha os passos da índia, que ela descreve no depoimento a seguir.

“Faz uns 20 anos que conheci a Cacique Pequena numa feira de artesanato onde ela foi expor bijuterias feitas pelos índios. Na época, a aldeia ainda não era muito conhecida no município e ela estava com os filhos, que eram pequenos.

Eles queriam beber água, mas as pessoas da cidade não estavam muito receptivas. Então eu os levei para minha casa. Além de água, tomaram banho e lancharam. Desde então, criamos um vínculo e eu venho acompanhando o trabalho de Pequena.

Quando o antigo líder da aldeia faleceu, um dos membros se posicionou e a nomeou cacique. Pequena aceitou. Nessa posição, ela poderia lutar por seu povo. Em seguida, viajou para Brasília, onde se reuniu com os outros caciques do Brasil e acabou sendo discriminada por ser mulher.

Desde então, Pequena ganhou várias batalhas, lutou para conseguir a demarcação das terras indígenas, melhorias para a tribo, saúde, educação. Foram muitas vitórias. Ela é hoje guardiã da memória indígena, mestra da cultura do Ceará, presidente do conselho local de saúde e membro do conselho estadual de saúde. Ela foi até eleita a mulher da cultura do Ceará e representa a cultura do nosso estado, se tornando uma referência muito querida pela população.

Pequena é uma pessoa importante para mim, pessoalmente, também. Sempre que ela me vê, é aquele abraço, aquele carinho maravilhoso. Mais do que poder e prestígio, é o amor, o carinho, o respeito de um para o outro. Como mulher, apaixonada pelo meu município, é muito emocionante ver o que ela se tornou, a referência que ela é e aonde chegou.

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Hoje é totalmente diferente de 20 anos atrás, quando a conheci. Todos a reconhecem e a respeitam. Quando ela faz uma apresentação, aplaudem, abraçam, parabenizam. Não tem mais aquele receio de ‘índio do mato’. Hoje é o contrário do que era.

Todos a adoram e conhecem a cultura da tribo, e é tudo graças a ela, porque ela mudou essa história.

Ela tem 16 filhos, uns 50 netos e uns 15 bisnetos. Nunca deixou o esposo e os filhos, sempre foi muita comunhão e é assim com toda a família. Quando é para lutar pelos índios jenipapo-kanindé, eles se tornam um só.

Mesmo com a idade avançada, ela ainda se preocupa muito com a tribo. Quando não está presente, quem comanda é a cacique-erê Juliana, filha da Pequena, mostrando essa confiança que ela conquistou.

Se eu pudesse defini-la, diria que é uma guerreira. Quebrou tabus, venceu o preconceito machista de que a mulher nasceu para cuidar da casa e dos filhos. Ela venceu essa guerra na tribo e venceu essa guerra no meio do cacicado onde todos eram homens e se tornou a primeira mulher cacique.

Um exemplo de mulher que mostra que a gente não deve abaixar a cabeça para as coisas ruins da vida. Ela me inspira todos os dias porque somos todas mulheres, somos todas iguais e podemos exercer um cargo político, um cargo executivo, o que quisermos.

Ela mostrou que, mesmo na simplicidade, ela podia fazer algo diferente. E isso é referência para qualquer mulher, qualquer brasileira.”

Elizangela Almeida de Freitas em depoimento a Suzana Pertinhez

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